Como se escreve o silêncio perante a perplexidade?

| 30 Mar 20

Pela janela da varanda, vejo as minhas primeiras andorinhas desta estranha primavera. Pedalo numa velha pedaleira que resgatei aos despojos outrora úteis e que vou guardando na garagem, na hesitação típica de quem adia decidir sobre o destino a dar a objetos de sentido perdido.

Contemplo duas andorinhas desenhando circuitos no ar. Primeiro vejo-os como erráticos, mas ao cabo de alguns minutos os olhos passam a dar-lhes outro sentido, o de uma dança ou um jogo feliz. Depois, tal como aparecem, desaparecem por alguns instantes nos beirais do prédio cinzento que avisto do outro lado da estrada.

Desse outro lado, existem alguns pequenos espaços verdes com meia dúzia de carvalhos de jardim. Neles avisto cães a passear com os seus donos. Passeiam muito, os cães da minha cidade. Têm donos muito amigos, que continuamente os levam à rua. São cães muito felizes. Nunca terão sido aliás tão felizes. Às vezes, suspeito que se sintam já um pouco cansados, mas os donos são amigos e insistem que eles façam exercício; e os cães, estoicamente fiéis e obedientes, fazem-lhes o gosto, não dizem que não, e lá se lançam em mais uma passeata. São felizes. E os dias de sol têm sido um capricho que convida a sair.

Termino a pedaleira. Aborrece-me. A casa está um brinco, e hoje não há videoconferências, nem teletrabalho. Pode parecer bizarro, mas estando há 15 dias dentro de casa, continuo a ter a clara separação entre dias da semana e fins de semana. O estar em casa não é sinónimo de menos trabalho, isso é certo. É apenas uma forma diferente de trabalhar, já muitos o sabem. Adiante…

Vou ao outro lado da casa. O meu filho quer terminar os trabalhos de português. É a sua forma de procurar uma normalidade interrompida há duas semanas, não se sabe por quanto mais tempo. Olho pela janela do seu quarto. Há gente a limpar varandas e a lavar janelas, a sacudir tapetes, lençóis, cobertores, ouve-se o som de aspiradores…

Estamos todos, ou melhor, quase todos dentro das nossas casas. Dou por mim a pensar na razão porque o fazemos. Porque nos mandam? Porque de repente todos achamos que seria normal abdicar das nossas liberdades individuais? Porque não temos uma verdadeira cultura democrática? Ou porque, tendo-a, estamos subitamente tolhidos pelo medo?

Não. Estamos em casa por solidariedade e humanidade. Queremos a Vida. A nossa, a dos nossos e a de todos. A Vida dos velhos, que são pais e avós dos meus vizinhos que, do outro lado da minha janela, se afadigam em limpezas ou saem em curtos e repetidos passeios com os seus cães. Queremos a Vida dos mais velhos da nossa sociedade. Sabemos que são periclitantes folhinhas de outono, na iminência de num qualquer dia se desprenderem em definitivo dos seus ramos, mas agimos como se fossem perenes porque, no fundo de cada um de nós, é esse o nosso desejo. Queremos sempre a eternidade para os nossos pais, para os nossos avós, para aqueles que amamos, e não nos custa imaginar esse mesmo amor pelos seus, no coração de quem não conhecemos. E é nesse instante que o amor pelos nossos, se torna em ética na relação com os outros.

Ficar em casa por estes dias é um ato de amor e um ato de ética, de verdadeira cidadania, de respeito pelos outros, muito em especial pelos mais frágeis de entre nós.

Há quem assuma atos mais pungentes, mais dramáticos, muito mais corajosos do que este ato de ficar em casa. A eles lhes devemos em boa verdade, a continuidade da Vida nestes dias estranhos e difíceis. Falo dos médicos, enfermeiros, auxiliares de saúde, de todos os que saem de casa para fazer qualquer coisa mais importante do que simples corridas higiénicas; para fazerem autênticas maratonas diárias a bem de toda a comunidade. Continuando com a prestação de apoio aos domicílios, com a produção de pão, com o transporte de bens agrícolas, de medicamentos, com a limpeza e recolha de resíduos das nossas ruas… São tantos… Cada um, como dizia o Papa Francisco, a um tempo frágil, insignificante e, todavia, tão importante. Imprescindível mesmo, nesta luta.

Estava tentada a dizer que tudo isto que aqui escrevo, é uma grande banalidade, a verificação do óbvio. Quando, de repente, uma amiga minha, residente em Bruxelas, me envia o link para um artigo do jornal espanhol El Confidencial. O artigo intitula-se, em tradução livre, “Filosofia holandesa perante a covid-19: ‘Levar os mais velhos a morrer nos hospitais é desumano’”. Logo no início do texto, pode ler-se: “Alguns especialistas holandeses acreditam que o colapso hospitalar em Espanha e na Itália se deve à ‘posição dos idosos’ na sua cultura: salvá-los a qualquer preço.” O que, segundo as fontes citadas no mesmo artigo, é desumano para com os idosos: o mais certo, lê-se, é que eles venham a morrer no hospital, que apenas lhes pode dar alguns cuidados paliativos, e tudo porque insistimos culturalmente em salvar os mais velhos.

Então, para essas fontes holandesas que o artigo cita, o nosso amor pelos mais velhos não passa de uma atitude culturalmente construída? E a nossa preocupação em salvá-los é uma irracionalidade que põe em causa a sustentabilidade dos serviços de saúde e a consequente possibilidade de tratarem de pessoas com maior expectativa de vida? É isto? Li bem?…

Não sei se os holandeses pensam mesmo isto. Se todos pensarão realmente isto. Mas, ao que parece, pelo menos para alguns (como os que o artigo do jornal espanhol cita, e, atrevo-me a dizer, para outros mais que não serão holandeses), o nosso amor é, afinal, desamor; e o nosso sofrimento é um sofrimento auto-infligido e irracional…

Quero escrever ‘silêncio’, porque não tenho mais palavras. Como se escreve o silêncio? O silêncio que fazemos quando não há palavras que, ditas, traduzam melhor a perplexidade e a tristeza que sentimos perante algo que acabamos de ler?

Mas há uma irónica utilidade na leitura destas visões que tresandam a arrogância etnocêntrica sobre as culturas europeias do Sul: é o facto de nos ajudarem a perceber melhor outras leituras, feitas mais ao nível político, e que por estes dias têm saído da boca de políticos holandeses.

 

Isabel Estrada Carvalhais é deputada pelo Partido Socialista ao Parlamento Europeu, professora associada da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho e doutorada em Sociologia.

Artigos relacionados

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habitou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega novidade

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Vaticano transformado em colónia de férias no mês de julho

A pensar nos funcionários da Santa Sé que têm filhos pequenos, o Papa Francisco decidiu abrir aos portas do Vaticano para receber as crianças durante o mês de julho. A organização da colónia de férias ficou a cargo do Governatorato e será animada pela comunidade de Salesianos do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha novidade

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Violência contra as Mulheres: origens novidade

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Credo novidade

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja

Em abril de 2013, nas Jornadas de Teologia da Caridade, subordinadas ao Tema “A força evangelizadora da caridade”, promovidas pela Cáritas Espanhola, em Salamanca, conheci, ao tempo, o arcebispo de Tânger, Santiago Agrelo Martínez. Fiquei fascinado pela profundidade do seu pensamento, pela simplicidade no trato e pela suas coragem e clarividência pastorais.

Cultura e artes

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco