Há histórias altamente improváveis, outras que não se sabe bem como começam, e tantas das quais se desconhece o fim. Esta história é tudo isso em simultâneo, e ainda assim vamos tentar contá-la. Passa-se na Capela do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, onde – ninguém sabe porquê – alguns azulejos estão fora do sítio, quebrando o padrão geométrico formado pelos painéis que há séculos forram as quatro paredes. E aproveitando essa aparente falha, a pequena comunidade que ali se reúne aos sábados à tarde para a missa decidiu iniciar “um projeto de descoberta e crescimento” na Fé. E interpelar outros a juntar-se também.
“Não há uma única celebração em que não dê por mim a pensar em qual será a origem deste… chamemos-lhe erro”, confessa Paulo Ramos, 52 anos, membro da comunidade e um dos mentores do projeto, referindo-se aos azulejos que parecem pertencer a outro lugar. “Sempre considerei aquele hiato profundamente intrigante, e ao mesmo teologicamente profundo, porque nos obriga a considerar as razões e as motivações. Ele abre uma espécie de fenda, na qual cabem a interrogação, a inquietude, a tensão, o espanto… que são traços profundamente característicos da Comunidade da Capela de Santa Marta e também daquela que é a espiritualidade e visão da Fé e da Igreja do seu capelão, o padre António Pedro Monteiro”, explica ao 7MARGENS. Por isso quando, na última assembleia de comunidade, todos os presentes concordaram em criar o tal “projeto de descoberta e crescimento”, o mote surgiu naturalmente: “um azulejo fora do sítio”.
Mas como concretizar um projeto destes? “Para já, de dois modos diferentes”, esclarece Paulo Ramos. “Por um lado, temos uma reflexão diária na página de Instagram da Capela – que pode ser um verso, um parágrafo, uma frase de autores das mais diversas proveniências, para servir de interpelação, de alimento para a nossa busca… porque existe uma multiplicidade de linguagens nas quais a Fé reverbera. E depois temos um ciclo de conversas mensais, para as quais convidaremos pessoas que, comungando a nossa inquietação, trilharam um caminho pessoal, profissional ou académico que, a seu modo, poderá ser também luz para o nosso caminho individual e comunitário”, explica.
A primeira destas conversas acontece já este sábado, 22 de fevereiro, às 15 horas, na própria Capela, e será com o padre João Norton, jesuíta, arquiteto e professor de Estética e Espiritualidade. “Ele virá ajudar-nos a refletir sobre a liturgia, que muitos de nós consideramos um conjunto de gestos repetitivos e mecânicos, quando na verdade é um alfobre de símbolos e de uma linguagem profundamente fecunda que nos obriga, inclusivamente, a pensar a Fé e a oração de formas muito diferentes”, sublinha Paulo Ramos.

A Comunidade da Capela do Hospital de Santa Marta reúne-se aos sábados, às 17horas, para a celebração da missa. Foto © David Lito
Todos os que se identifiquem com esta busca, e não apenas os que já costumam frequentar a capela, estão convidados a participar, até porque “não é necessária inscrição, o espaço é generoso e há sempre lugar para mais um”, assegura o coordenador do projeto. Mas aqueles que não possam estar presentes terão também oportunidade de escutar o diálogo a partir do dia seguinte, aonde quer que estejam, pois o áudio será gravado para dar origem a um podcast: o primeiro da comunidade.
As duas conversas seguintes já têm data marcada – 22 de março e 5 de abril – mas o nome dos interlocutores só será revelado mais adiante. “Queremos anunciar só depois desta primeira conversa, mas o que posso dizer é que serão pessoas das mais diversas proveniências, e não necessariamente religiosas, no sentido consagrado do termo”, sublinha Paulo Ramos, que trabalha como investigador na área dos Estudos Clássicos, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Quanto ao futuro do projeto, está completamente em aberto. “Queremos que ele se prolongue o mais possível, mesmo que entretanto a comunidade tenha de se mudar do ponto de vista físico devido à construção do novo hospital”, admite o responsável. “E é muito provável que ‘Um azulejo fora do sítio’ venha a transformar-se ainda noutras coisas… como por exemplo, numa editora”, revela.
Seja como for ou onde for, uma coisa é certa: a história continuará a ser escrita. Porque “esta interrogação, esta inquietude, este desconforto é quase uma característica que podemos não apenas identificar com a Comunidade de Santa Marta, mas que é intrínseca, é inerente a qualquer experiência de fé, a todos aqueles que o padre Tomáš Halík chama de ‘seekers‘, ou buscadores”, sublinha Paulo Ramos. E deixa a pergunta: “Não seremos nós também uns azulejos fora do sítio, procurando compor cada um a seu modo o quantas vezes desconjuntado, mas sempre singular mosaico da nossa vida?”.
(Imagem de destaque: Os azulejos “fora do sítio” da Capela do Hospital de Santa Marta. Direitos reservados)
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