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Plenário e oração final na assembleia diocesana de Leiria-Fátima, dedicada a uma primeira avaliação das unidades pastorais: a Igreja está à procura de novos caminhos, dizia o bispo Ornelas. procura Foto © António Marujo/7MARGENS

Reportagem em Leiria-Fátima

Como uma diocese se põe a mexer ao ritmo do sínodo e à procura de novos caminhos

| 15/10/2025

 

Micael Pereira, 32 anos, é polícia, e admite, entre sorrisos, que por vezes “é mais fácil pôr ordem na rua do que na Igreja”. Está quase a terminar a assembleia diocesana de Leiria-Fátima de 5 de Outubro. O domingo e o feriado da República deixaram Micael livre para debater, com outros 180 participantes, o que deve ser a organização da diocese. Um deles é a sua mulher Patrícia, 28, enfermeira, que também compara o trabalho que faz no dia-a-dia e a comunidade católica: “Se o padre souber acolher as pessoas, ajuda a melhorar a saúde espiritual de todos”, diz.

Nos 21 grupos em que os participantes se dividem, discute-se o recente processo de reorganização pastoral e territorial posto em marcha na diocese nos últimos meses, em fases diferentes consoante as zonas. A conversa é feita num registo sinodal, de apelo à palavra livre e sincera. Tom vivo, espontâneo e empenhado, como se poderá perceber uma hora depois: todos os 180 participantes – homens e mulheres, padre e freiras, o bispo da diocese – irão reunir de novo, desta vez na igreja do antigo seminário, para uma oração final e para escutar o resumo do debate dos grupos.

A assembleia é o momento de uma primeira avaliação do caminho já percorrido desde o início de 2025. Trata-se de fazer um “ponto de situação”, diz o bispo José Ornelas no início da tarde. A “aula magna” é pouco sinodal, mas é a única sala grande para reunir tanta gente, os espaços – anfiteatros e igrejas ainda não estão preparados para dinâmicas circulares. “É toda a Igreja que está à procura de novos caminhos”, como os que foram propostos por Francisco, acrescenta o bispo, recordando a “grata memória” do Papa que morreu em Abril e do seu legado, em documentos como as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti ou a exortação Amoris Laetitia.

José Ornelas insiste na importância de assumir o texto bíblico do livro dos Actos dos Apóstolos, que tinha sido lido momentos antes, num momento de oração inicial animado por um grupo de jovens: “Pareceu-nos, ao Espírito Santo e a nós…”, diziam os cristãos de Jerusalém numa carta às comunidades de Antioquia, Síria e Cilícia. É depois de aceitar a presença e a acção do Espírito Santo que os cristãos podem decidir caminhos, propor horizontes, definir prioridades.

No grupo 6, por exemplo, a dado momento os papéis parecem inverter-se: alguns leigos que o integram defendem mais rigor na escolha de padrinhos de baptizandos – “não se deve permitir que alguém que não seja crismado seja padrinho de baptismo” –, enquanto o padre do grupo admite que, por ele, qualquer pessoa escolhida deveria poder cumprir a missão de ser “testemunha”.

 

“Precisamos todos de formação mais séria”

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Grupo de debate na assembleia diocesana de Leiria-Fátima, em 5 Outubro 2025, dedicada a uma primeira avaliação sobre as unidades pastorais. Foto © António Marujo/7MARGENS

O objectivo do debate é que em cada grupo se avaliem os aspectos positivos e negativos destes primeiros meses das unidades pastorais criadas para reunir várias paróquias, juntando pequenas equipas de padres responsáveis por cada uma delas. Ao mesmo tempo, deverão ser dadas sugestões para melhorar o que já está em andamento. Falta formação para pais e catequistas, por exemplo, diz uma das participantes, responde outra que “o problema são os pais que não aparecem” e “também os ministros extraordinários da comunhão” não se formam o suficiente, acrescenta-se. Conta-se o exemplo da paróquia de Marrazes onde o pároco organizou uma formação bíblica – e “inicialmente não foi fácil” conquistar a adesão das pessoas.

Há quem sugira que todos os momentos em que as pessoas procuram as paróquias devem ser aproveitados para dar elementos de formação ou, pelo menos, criar a necessidade disso. “Precisamos todos de fazer formação mais séria”, diz o padre Virgílio Rocio, pároco de Milagres-Bidoeira, que refere a realização de vários encontros com as famílias, desde uma saudação enviada em nome da paróquia quando nasce uma criança ou a realização de encontros em casa de famílias. “Mas alguns padres não têm pedagogia para se dirigir às pessoas”, diz outra participante.

E ainda uma ideia: “Se as pessoas se habituarem a ver leigos no altar, quando o padre não puder estar para celebrar a missa, esses leigos podem fazer uma ‘celebração da palavra’ sem que os outros achem estranho.” Até porque há lugares onde, mesmo para a visita pascal, há quem recuse abrir a porta se não for o padre a fazer…

Todos os baptizados podem dar um contributo e, entre conversas e reencontros pessoais, há quem também converse sobre estes temas no intervalo para o chá ou café. Por ter precisamente essa consciência, Patrícia Pereira tornou-se catequista. Muito por impulso do marido, que já participa há anos na vida da sua comunidade paroquial – vivem agora na paróquia da Gondomaria, Ourém, mas ela veio de Lisboa. E percebem que têm de ajudar a que haja mais participação de toda a gente, porque na sua paróquia ainda não sentem os padres empenhados na reorganização diocesana que Leiria-Fátima decidiu empreender.

Esse é um dos aspectos negativos que aparecerá, momentos depois, na síntese dos contributos dos grupos: “Há paróquias que não quiseram aceitar mudanças e padres que não se sentiram preparados. Faltou testemunho do clero em alguns casos, o que criou desconforto e dúvida.”

Há padres que “estão no princípio, outros no meio e outros no fim”, confirma o padre Armindo Janeiro, vigário-geral da diocese, em entrevista ao 7MARGENS e ao Gabinete de Comunicação da Diocese de Leiria-Fátima (que pode ser lida e vista na íntegra na página da diocese).

“Dependerá muito da dinâmica das unidades pastorais, sabendo que há padres que estão com mais convicção e outros com menos, e leigos com mais convicção e outros com menos.” O que significa que também haverá “resultados diferentes” e pessoas que terão “mais dúvidas” do que outras.

 

A doutrina “ainda não se tinha feito carne”

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Padre Armindo Janeiro, vigário-geral da diocese: “Temos de caminhar ao ritmo do tempo.” Foto © António Marujo/7MARGENS

Armindo Janeiro admite que haja quem considere que o ritmo é intenso e seja necessário mais tempo. “Outros acham que a sinodalidade, sendo sempre uma expressão da acção do Espírito Santo, de alguma maneira obriga-nos a uma disponibilidade interior e a uma capacidade de trabalho em conjunto por virmos de um modelo, com 400 anos, de pároco-paróquia, ou pároco-várias paróquias.”

“Apesar de o Concílio [Vaticano II, realizado entre 1962-65] nos ter dito e nos falar da corresponsabilidade e da participação a todos os níveis, isso ainda não se tinha feito ‘carne’, ainda não se fez vida, mas já há muitos sinais disso na história e na vida da Igreja. Ou seja, temos de também caminhar ao ritmo do tempo. Temos hoje, nas comunidades cristãs, novas disponibilidades, se soubermos ir [ao encontro] delas.”

Há ainda outros pontos menos bons apontados pelos grupos: falta de preparação na forma como o processo foi inicialmente conduzido, a orientação sobre quem eram os responsáveis não estava clara, diminuiu a participação das pessoas em centros de culto mais pequenos, notam-se rivalidades, há leigos e padres com sobrecarga de trabalho, há presbíteros que não delegam responsabilidades, a proximidade com as comunidades diminuiu…

“É bom termos falado”, diria o bispo Ornelas no final da assembleia e de todos terem escutado as sínteses dos grupos. “Saber onde estão os problemas é fundamental para chegarmos a soluções. Foi positivo percebermos os pontos que funcionam bem, mas também os que precisam de atenção.”

O bispo de Leiria-Fátima admite: “Temos menos padres. Precisamos que possam dedicar mais tempo aos sacramentos e à vida pastoral. As unidades pastorais devem ajudá-los a equilibrar horários e responsabilidades, sem sobrecarregar ninguém.” Por outro lado, a participação dos leigos “é fundamental” para poderem “assumir responsabilidades sem sobrecarga e para que o padre tenha liberdade para acompanhar as pessoas”. Em síntese, diria ainda, não se podem “encobrir problemas, é preciso criticar e construir, com caridade fraterna”, porque só assim a Igreja “será unida e missionária.”

O nome de unidades pastorais traduz a união de diferentes paróquias com uma mesma equipa de padres a trabalhar para o conjunto – em vez de cada paróquia ter um padre, uma realidade cada vez mais difícil, tendo em conta o facto de haver cada vez menos clero.

“É uma forma sinodal de renovar a Igreja”, diz o padre Armindo. A nova estrutura implica “três coisas profundamente motivadoras: o trabalho dos padres em equipa, o trabalho em conjunto das paróquias e o método de discernimento, de conversação no Espírito”.

 

Vontade de transformação e reconhecimento das mudanças

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José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, no início da assembleia: “É bom termos falado.” Foto © Paulo Adriano/Diocese de Leiria-Fátima.

No debate surgido dos grupos, sublinham-se aspectos das unidades pastorais que se relacionam com tais características: há celebrações mais participadas, um sentido de pertença redobrado, catequeses que já se organizam em unidades pastorais, grandes celebrações com todas as comunidades e presbíteros… Outros factores sublinhados são a redução do número de missas “com horários optimizados”, mais tempo dos padres para estarem com os fiéis (nos aspectos negativos houve quem apontasse exactamente o oposto disto), a complementaridade ou a superação de antagonismos entre paróquias e a uniformização de recursos, as paróquias mais desenvolvidas a apoiar outras com mais dificuldades, leigos a participar em grupos de diálogo e equipas de coordenação pastoral

“Há mais abertura, vontade de transformação e reconhecimento das mudanças. A união bem conduzida traz inovação, estimula a comunhão e reforça a partilha de experiências”, concluíram os grupos no capítulo dos aspectos positivos da mudança.

Armindo Janeiro sublinha que não é obrigatório que os padres vivam juntos, mas que trabalhem juntos. “O presbitério [conjunto dos padres da diocese] não se constitui em unidades paralelas, mas sim num corpo animado pelo Espírito Santo e liderado pelo bispo.” E se o trabalho foi iniciado com todos os padres da diocese, com a publicação de uma carta de princípios, ele continuou com um projecto pastoral que pretende pôr em marcha este dinamismo.

“Podemos ir ao método da revisão de vida, da Acção Católica”, exemplifica Armindo Janeiro, que aponta para “a valorização da condição baptismal” de todos os crentes, “radicalmente iguais”, em que “cada um é amado por Deus também na sua especificidade”. Por outro lado, “há mais realidade, desafios novos”. A vida das comunidades cristãs precisa hoje “deste refazer-se no Espírito e no encontro com a realidade, porque há novas realidades que exigem a nossa reflexão, a nossa proximidade. Ou seja, somos chamados a darmos razões da nossa fé em novos contextos.”

 

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