Como vai a “saúde” na Igreja?

| 28 Set 21

“No início do Ano Laudato Si’, em 2020, a reitora – Isabel Capeloa Gil (foto) – fez declarações públicas que levam a crer poder-se estar no início de uma reflexão em torno do que têm vindo a ser as opções da Universidade Católica, no passado e o que deverão ser no futuro.” Foto © Ecclesia/MC

 

No passado dia 14 de setembro, foi inaugurada a Faculdade de Medicina da Universidade Católica.

Ao acto foi dada a maior importância e solenidade. E não era caso para menos. Para além das autoridades da universidade e de inúmeras entidades e instituições convidadas estiveram, também, presentes o sr. primeiro-ministro, o sr. ministro do Ensino Superior e o sr. magno chanceler da Universidade (cardeal-patriarca de Lisboa).

E porque é que não era caso para menos? Não era caso para menos por múltiplas razões. Destaco duas: por um lado, o projecto tem pelo menos 20 anos e por outro, hoje, vem ao encontro da grande preocupação com a qualificação dos serviços da saúde, nomeadamente em termos de cobertura do território com profissionais médicos.

Vale a pena explicitar as razões do grande número de anos para a maturação de um projecto de criação de um curso de medicina. A criação de qualquer curso de ensino superior, para garantir a produção de resultados credíveis, aumentando a confiança que neles tem o conjunto da sociedade, é uma tarefa de enorme complexidade, que exige a mobilização de grande volume de recursos, financeiros, humanos e materiais. Naturalmente que alguns dos designados cursos de “papel e lápis” podem ser menos exigentes, mas tal não é o caso dos cursos com elevadas componentes laboratoriais e (ou) experimentais, como é o caso dos cursos de medicina.

A iniciativa de criação de cursos de medicina novos é já anterior à viragem do século. Começaram por surgir por iniciativa de múltiplas entidades privadas (o que pode antecipar a expectativa de excedentes compensadores com o funcionamento do negócio), mas até agora nenhuma das propostas apresentadas tinha sido aprovada. A maioria dessas iniciativas foi transformada em cursos no âmbito das tecnologias da saúde. Pouco a pouco surgiram iniciativas por parte de universidades públicas e, depois de processos de aperfeiçoamento morosos, foram aprovadas algumas das propostas apresentadas: Universidade do Minho, Universidade da Beira Interior e Universidade do Algarve.

Convém ter presente que dois dos principais bloqueamentos são o número e qualificação dos professores em dedicação exclusiva e a ligação necessária a estruturas hospitalares, sendo dificilmente defensável que estas fossem hospitais públicos. A afectação de professores em dedicação exclusiva significa que um professor vinculado com o projecto terá de abdicar da sua carreira docente em outra universidade. O problema começou a encontrar alguma solução com o aparecimento de novos Doutores, ainda sem vinculação de carreira, mas isso também significa que a sua experiência universitária é ainda reduzida.

Imagina-se que seja isso que também tenha acontecido com a Faculdade de Medicina da Universidade Católica. Supondo que, à medida que novos anos da licenciatura e mestrado forem sendo abertos, o problema referido vai sendo superado, convém ter sobre a mesa o problema de saber como é que a nova Faculdade de Medicina vai equacionar o problema da formação das especialidades. Sabemos que esta tem vindo a constituir uma das principais razões, invocadas pelas faculdades existentes e pela Ordem dos Médicos, para que não aumente o seu numerus clausus.

Feito este enquadramento, deveria ter sido objecto de discussão e reflexão alargada o facto de saber se deverá ser vocação da Universidade Católica criar cursos de medicina, de engenharia, de gestão, etc., tanto mais que se deu boa publicidade ao facto de a propina anual que virá a ser cobrada ser de aproximadamente 17.000 €, o que corresponde aos custos incorridos com o funcionamento do curso (para a escala de 50 alunos). O problema não é tanto o de o custo ser 17.000 €, mas antes o de saber quem vai financiar o custo por aluno, evitando que os cursos de propinas elevadas sejam frequentados apenas por elites endinheiradas, como já tem vindo a acontecer em outros casos.

Bom seria que a Universidade mobilizasse as suas capacidades e iniciativas no desenvolvimento e melhoria de cursos nas áreas da teologia, da filosofia, da ética, da moral, da cultura, áreas em que possui competência específica. Não se percebe o que é que a Igreja Católica poderá trazer de valor acrescentado no ensino da engenharia, da gestão ou da medicina, em relação ao ensino dessas especialidades em outras instituições qualificadas da sociedade laical.

No início do Ano Laudato Si’, em 2020, a reitora fez declarações públicas que levam a crer poder-se estar no início de uma reflexão em torno do que têm vindo a ser as opções da Universidade Católica, no passado e o que deverão ser no futuro. Em texto publicado pelo 7 Margens em 24 de junho de 2020, refere-se que a Universidade Católica inicia o Ano Laudato Si’ com o compromisso de contribuir para “mundo mais inclusivo e responsável”.

Acrescenta a senhora reitora, em declarações à agência Ecclesia, que a Laudato Si’ nos interpela a ir mais além, a questionar as nossas próprias práticas, assegurando que a UCP pretende ser uma “marca distintiva” da proposta católica na sociedade portuguesa, particularmente atenta aos problemas sociais, ambientais, éticos e jurídicos, construindo “pontes entre aqueles que têm maiores possibilidades económicas e os que não têm”, um “mundo que não deixa ninguém para trás”.

 

Manuel Brandão Alves é professor catedrático (aposentado) do ISEG, Universidade de Lisboa.

 

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