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Como vender a alma ao diabo

| 06/10/2021

A partir dos anos oitenta, o segmento evangélico norte-americano começou a fragmentar-se com a ascensão da direita religiosa, o envelhecimento de Billy Graham e a perda das missões como a grande prioridade que promovia a sua vitalidade e crescimento.

Trump. Bíblia

Apesar de a maioria dos evangélicos americanos de direita serem moderados e de se incomodarem com o défice de carácter de Trump, apreciavam o seu pensamento sobre temáticas como economia e aborto. Foto  © The White House/Wikimedia Commons.

 

Um antigo editor-chefe da revista cristã Christianity Today, fundada em 1956 por Billy Graham, publicou recentemente um livro em que expõe uma perplexidade. Porque será que o sector evangélico apresenta uma estranha atracção por figuras autoritárias e uma forma bruta de exercer o poder? E por que razão tendem a deixar-se fascinar e a apoiar líderes que não apenas não evidenciam características consonantes com a sua fé como ainda revelam práticas de assédio, misoginia, racismo e outros tipos de discriminação além dum discurso rasteiro e ordinário, como se pode verificar pelos casos de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil?

Normalmente, quem tende ao radicalismo é quem não sabe viver em democracia, tem dificuldades de escuta, pouca tolerância e aceitação para o que é diferente, por exacerbamento dos seus medos. Tal insegurança associada ao desconhecimento do outro ajuda a criar um caldo de cultura que prepara o terreno para o surgimento de figuras providenciais e o despoletar de acções extremadas.

Curiosamente, e apesar da atracção por esse abismo moral, estas pessoas tendem a resistir a quaisquer orientações governamentais que afectem a sua vida quotidiana (mesmo em nome de um elevado bem comum como a saúde pública), encarando-as sempre como um ataque à liberdade religiosa e aos seus direitos individuais. Mas se no quadro político um líder autoritário se declarar adepto da fé evangélica (mesmo que não o seja de facto) será sempre bem recebido.

Mark Galli, que lançou recentemente o livro “Quando foi que começámos a esquecer Deus?” sobre a crise das igrejas evangélicas nos Estados Unidos, questiona-se e conclui que “é da natureza humana colocar entre parênteses as falhas morais do seu político favorito. A disposição de tantos em deixar o carácter de lado mostra o triunfo da política sobre a fé.”

O autor tem a noção de que os observadores do fenómeno religioso têm dificuldade em entender, a partir de fora, como este segmento religioso é tão heterodoxo, multifacetado e plural. O americano comum julga que “os evangélicos são basicamente republicanos religiosos em vez de amantes de Jesus”, mas de facto não é assim. De resto, jornais prestigiados como The New York Times e The Atlantic chegaram a publicar matérias elogiosas sobre as igrejas evangélicas nos últimos anos, mas durante a administração Trump a postura mudou e voltaram o preconceito e a ignorância anteriores.

Não se pode afirmar que os evangélicos são anti-vacinas ou que os evangélicos brancos são todos racistas e reaccionários de extrema-direita como alguma imprensa classifica. Mas a verdade é que as placas com mensagens religiosas típicas deste segmento, como “Jesus salva”, na acção de assalto ao Capitólio podem dar a falsa impressão de que este campo religioso concordou em massa com o ataque. Apesar de a maioria dos evangélicos americanos de direita serem moderados e de se incomodarem com o défice de carácter de Trump, apreciavam o seu pensamento sobre temáticas como economia e aborto.

Segundo Mark Galli, “por razões complexas os evangélicos têm uma estranha atração pelo poder bruto e por figuras autoritárias, especialmente se elas se declararem cristãs. Eles gostam de líderes decisivos e que assumem o comando. Por exemplo, aconteceu na Guatemala, onde o brutal ditador Efraín Ríos Montt alcançou grande apoio nos anos oitenta por se dizer evangélico. A forte contradição entre fé e acções (incluindo genocídio) não intimidou a maioria dos evangélicos.” Com efeito, a sede pelo poder é grande e quanto mais poder os evangélicos têm maior é a probabilidade de comprometerem a sua fé.

Nos últimos oitenta anos, o segmento evangélico norte-americano afastou-se do fundamentalismo protestante a fim de se moderar e desde os anos setenta procurou dialogar com a cultura, mas essa abordagem parece ter trazido alguma insegurança sobre a identidade cristã. O facto é que o sector começou a fragmentar-se com a ascensão da direita religiosa, as migrações e a complexificação religiosa dos Estados Unidos, o envelhecimento de Billy Graham e a perda das missões como a grande prioridade promotora da sua vitalidade e crescimento.

Mark Galli parece ter razão na tese de que a direita religiosa americana perdeu o norte ao trocar a sua primogenitura por um prato de lentilhas, isto é, ao desprezar os fundamentos da sua fé em nome de ganhos políticos. Vendeu a alma ao diabo.

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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