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Compaixão Ativa – a propósito do livro “As Crianças Invisíveis”

| 18/06/2021

“Quanto maior fores,
pior será, serás invisível”.

 

Crianças invisíveis, Patrícia ReisNova participação no 7MARGENS: no meu caso esta participação, durante a pandemia, tem sobretudo incidido em literatura e livros, dadas as limitações do confinamento em que (ainda) vivemos. Não tenho viajado, não tenho ido ao cinema ou a concertos, não tenho visto exposições. Mas vou “viajando” e “usufruindo” assim. Irei então debruçar-me sobre a obra de Patrícia Reis, As Crianças Invisíveis. Trata-se de um livro sobre a compaixão. Sobre “compaixão ativa”, assim o vi e li.

Acabara de ler um livro mais recente desta autora-jornalista, Da Meia-Noite às Seis, que conta como, em tempos de pandemia, as situações de perda e luto se podem transformar em vidas retomadas, atravessadas pela esperança num tempo outro.

Há dias recebi a notícia de que a filha de uma colega e amiga, que adotara já uma criança, tinha adotado uma segunda criança à espera de uma família – infelizmente os processos na Segurança Social são lentos e morosos. Apenas sei que as duas são crianças muito sofridas. A filha mais velha tem já alguns anos de uma vida feliz com os novos pais, extremamente atentos. Em pleno tempo de pandemia, há cerca de duas semanas, a filha mais nova chegou. Os vídeos que me têm sido enviados comovem-me profundamente.

Apesar dos tempos tão duros em que vivemos (“tempos sombrios”, segundo a terminologia de Hannah Arendt), há famílias que – por razões humanitárias e de solidariedade social –, pelo facto de adotarem crianças, se situam numa generosa esperança no futuro, independentemente de serem “crentes” de uma qualquer confissão religiosa. Pura cidadania. Gestos de compaixão. De compaixão ativa.

Por isso fui reler As Crianças Invisíveis. Compaixão vem do latim cum-passio que significa viver o sofrimento com outro ou outros/outras. Essa é a raiz da palavra. É para mim uma palavra muito doce pois significa dar a mão, estar com o outro que sofre, escutar. Nada tem a ver com a palavra “pena”.

Que é então compaixão ativa? Com base na psicologia inspirada em Jung, Holos (2018) fala em compaixão ativa “como um modo de “ativar o nosso olhar-sentir-agir movido por compaixão para com nós mesmos e com os outros (…), como a compaixão pode ser ativada a cada instante vivido, momento a momento, de forma leve, lúcida, criativa e significativa para o indivíduo e a coletividade”. E acrescenta: “Sabemos que ao longo da vida somos ensinados ou sugestionados a agir de acordo com valores que muitas vezes soam abstratos ou irreais para nós. Muitas pessoas consideram importante nutrir a compaixão, mas não encontram caminhos palpáveis para tanto”. Parece-me poder ser este o sentido da compaixão ativa.

 

Onde estão estas crianças?
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O livro fala de menores à espera de adoção ou dados para adoção e que vivem numa instituição de acolhimento, a Casa, enquanto aguardam pela sua vez de crescerem numa família. Foto: Direitos reservados. 

 

As Crianças Invisíveis fala de menores à espera de adoção ou dados para adoção porque estão submetidos ao abandono ou a maus-tratos e que vivem numa instituição de acolhimento, a Casa, enquanto aguardam pela sua vez de crescerem numa família. Ora, segundo o romance de Patrícia Reis, a Casa tornou-se um espaço-família das crianças, algumas das quais, tendo tido experiências “infelizes” ou mesmo de violência e maus tratos, regressam das famílias que as acolheram.

A autora descreve esta Casa – como as crianças a apelidam – e narra com compaixão as situações por elas vividas “lá dentro” ou “cá fora”. Deliberadamente as crianças não têm um nome, quer para salientar a sua “invisibilidade” social, quer porque Patrícia Reis é jornalista e muitas das situações relatadas são, infelizmente, bem reais. Daí a proteção das identidades das crianças na perspetiva da ética jornalística, incluindo a alteração do nome dos adultos cuidadores ou dos pais de acolhimento.

Com uma força expressiva muito intensa, as crianças narradas são anónimas, portanto “invisíveis”. Estas instituições de acolhimento de crianças são raramente faladas em tempos de pandemia. Tornaram-se também “invisíveis”? Onde estão estas crianças? Terão tido a sorte da neta da minha amiga que foi adotada há dias, independentemente da crise em que vivemos?

Assistimos ao “desaconselhamento” de gestos destes a ponto de fazermos diminuir a curva de nascimentos no nosso país. Sejam quais forem as razões, já que há muitas famílias que ficaram desempregadas e vivem nos limites da pobreza. Mas há dias foram divulgadas estatísticas preocupantes. Não podemos tratar com um mínimo de dignidade os mais velhos sem uma renovação da população. Quantas crianças ao longo destes quase dois anos terão sido entregues a instituições de acolhimento (muitas vezes por razões válidas, outras menos válidas)?

Voltemos à Casa onde vive uma criança, M. Fiquei sem saber quase até ao fim se era menino ou menina; era apenas uma das mais velhas que, por razões relacionadas com uma debilidade de saúde, tinha sido entregue pela mãe para adoção. Esta criança passou por várias famílias de acolhimento que, ou a maltratavam e negligenciavam ou simplesmente achavam muito “pesado” receberem uma criança que precisava de cuidados especiais de saúde ou de uma dieta alimentar.

Assim, M. saiu e voltou a entrar várias vezes na Casa a ponto de preferir ficar a viver nela, aterrorizando-se – literalmente! – se a/o tentavam colocar noutra família. Patrícia Reis fala desassombradamente de “uma criança habituada a ser usada e devolvida por famílias sucessivas como um produto que não satisfaz o cliente”. M. vincula-se a uma assistente social – “que escolhe amar esta criança incondicionalmente” –, dotada daquilo a que chamei anteriormente “compaixão ativa”. Torna-se uma figura maternal para M. A criança também se ligou a outras cuidadoras, quase todas mulheres, exceto um professor.

Em virtude das experiências negativas que vivera, M. tornou-se uma criança esquiva, reservada, obediente, passiva, raramente expressando a sua opinião ou sentimentos e isolando-se das outras crianças da Casa. O livro conta o verdadeiro “calvário” vivido por esta criança/jovem que acaba por permanecer na Casa até aos 18 anos:

“Não tens pai, não tens mãe, ninguém te quis. Isso é o que te falta e, quanto maior fores, pior será, serás invisível. Ninguém quer uma criança crescida, diz um dos companheiros da Casa.”

 

A partir da perspetiva das crianças
Escola. Criança.

As crianças aprendem uma “compaixão ativa” entre si. Foto: Direitos reservados

 

O livro é escrito a partir da perspetiva das crianças – “interligando tudo e todos” – e apresentando as crianças em interação umas com as outras através de diálogos (ou mesmo monólogos) muito vivos, certeiros e lúcidos. Crianças que, entre si e ao longo das vicissitudes das suas vidas, aprendem uma “compaixão ativa” entre si, por exemplo:

  • a maternidade de uma adolescente que leva o bebé a ser “adotado” pelos habitantes da Casa – “H. [tornou-se] uma dessas mulheres, já é uma dessas mulheres que ‘sustêm’ o mundo”;
  • um/a (?) jovem Z. que, traindo a amizade com M. – “ai, magoaste-me!” –, abandona “o estatuto de invisibilidade” e regressa a uma vida de rua marginal, corrupta e solitária;
  • S., que afirmava: “gostar [é] um verbo tramado”(…) “gostar, gostar, gosto de chocolates”… S., que entretanto saiu da Casa aos 18 anos depois de ter feito um curso profissionalizante, e arranjando trabalho numa pequena empresa de restauro de móveis. Argumentava que “o Estado tem de [me] proporcionar algumas coisas e há muito para fazer…”

M. confronta-se com o facto de que, chegado aos 18 anos, deve partir da Casa – porque “na Casa todos são historiadores das próprias vidas”, com a ajuda dos adultos que os educam e acompanham. Chegara a sua vez e reconhece que “terão [terá] de fazer um esforço adicional para se encaixarem [encaixar] na roda do mundo”.

No último capítulo, M. adquire um nome: Miguel: “sabendo que aquela mulher [a assistente social] comporta em si toda a bondade que o mundo lhe deu (…), mas sabe que tem de ir.” H. (a mãe adolescente) faz Miguel prometer que “voltará sempre”. Miguel “atravessa o portão, é crucial que não olhe para trás”, apesar de que “o seu corpo pede-lhe que fique; a cabeça pede-lhe que vá”.

Num final de uma profunda beleza, Miguel confronta-se com o facto de que a vida se repete: “Vê a chegada de duas crianças. Devem ter sete ou oito anos, ignoram o que lhes aconteceu, carregam mais histórias que M. consegue imaginar.” H. aproxima-se: “São refugiados. Da Síria“. Surpreendentemente, de um carro vermelho do outro lado da rua, alguém lhe acena e Miguel ouve as palavras inesperadas de uma antiga companheira da Casa, a S.: “ Miguel! Olha quem está aqui para te levar para casa”. (…) Miguel murmura com alívio: Sofia.”

Porque “a compaixão pode ser ativada a cada instante vivido, momento a momento, de forma leve, lúcida, criativa e significativa para o indivíduo e a coletividade” (Holos, 2018), Miguel pode partir. Por fim, e referindo-me ao gesto compassivo da filha da minha amiga, há crianças que podem entrar numa família. Se a vida se repete – como a dos meninos sírios a entrar na Casa, “carregando as mesmas histórias” – o ciclo dessas histórias que se repetem pode ser interrompido “na roda do mundo”.  Através de gestos simples de compaixão ativa como os da filha da minha amiga.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)

 

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