José Maria Brito (1976-2024)

Companheiro, até sempre. Guardaremos a tua Amizade!

| 22 Abr 2024

José Maria Brito

Saudávamo-nos muitas vezes por companheiro, mesmo se a amizade vinha de há apenas meia dúzia de anos, pouco mais, quando ele liderou a aventura do início do Ponto SJ e eu me abalançava com mais alguns amigos no lançamento do 7MARGENS. Agora, não terei mais essa saudação no telefonema que chegava de surpresa de vez em quando; ou que eu lhe fazia, do meu lado. Há dias, pensei ir ouvi-lo num debate na Amadora, por já não falar com ele há tempos. A ida do José Maria Brito para Évora distanciou-nos fisicamente, por isso o telefone servia para, de vez em quando, pormos a escrita em dia. A última vez foi em Janeiro, depois do seu aniversário: eu enviei uma mensagem a felicitá-lo, ele respondeu com um telefonema no dia seguinte. Partilhou o entusiasmo com que continuava a abraçar as tarefas e compromissos em Évora, eu falado de como estava o 7MARGENS, trocámos ideias sobre o que acontecia na Igreja e sobre as tragédias do mundo.

O padre jesuíta José Maria Brito morreu esta segunda-feira aos 48 anos, depois de ter sofrido, em Évora, um AVC provocado por vários tumores que ele desconhecia. A informação foi veiculada pelo Ponto SJ, do qual foi a primeira alma. O velório será esta terça-feira, a partir das 10h30, na Igreja do Espírito Santo, em Évora, onde haverá missa às 12h30. O cortejo fúnebre segue depois para o Porto, onde haverá missa na igreja de Cedofeita, às 20h. As exéquias serão quarta-feira, às 14h na mesma igreja, de onde partirá o corpo para o cemitério do Prado do Repouso, no Porto.

Foi precisamente o Ponto SJ e o 7MARGENS que nos aproximaram. A tal ponto que o José Maria Brito me propôs fazermos alguns trabalhos em conjunto. Por exemplo, no final de 2019, preparámos e fizemos em conjunto a entrevista ao jesuíta James Keenan, especialista em ética das virtudes, bioética e história das éticas teológicas, a propósito da exortação do Papa Francisco sobre a família, Amoris Laetitia.

Tinha opiniões firmes sobre o que deveria ser hoje o papel da Igreja Católica na sociedade, numa fidelidade criativa ao Evangelho. Via com preocupação o crescimento dos vários fenómenos – políticos, religiosos – de intolerância. Ao mesmo tempo, tinha uma enorme capacidade de fazer pontes e de ir buscar a cada pessoa ou grupo o melhor que cada um tinha para dar. Conversámos muitas vezes sobre a tragédia dos abusos e uma ocasião, a propósito de vários suicídios de clérigos em França, no Brasil e Alemanha, chegámos a falar sobre a solidão em que tantos padres vivem para um texto que eu me propunha escrever – nunca consegui terminar esse trabalho. Estava de coração com as dinâmicas de renovação lançadas pelo Papa Francisco, queria sobretudo uma Igreja capaz de escutar as dores e feridas do mundo e das pessoas que o habitam.

Cheguei a propor-lhe organizarmos um dia uns Exercícios Espirituais para jornalistas que acompanham o fenómeno religioso e quisessem viver em conjunto essa experiência do património espiritual dos jesuítas. Sugeri que ele, trabalhando na comunicação, poderia orientar esse encontro. Aderiu à ideia com entusiasmo, mesmo que tenhamos sido obrigados a adiá-la por causa da pandemia, primeiro, e da mudança para Évora, depois. Mas ela continuava no ar, pelo menos nas nossas conversas periódicas, que chegavam facilmente aos 10, 15, 20 minutos… Havia sempre muita coisa para partilhar ou para pedirmos opinião um ao outro. Acabávamos, quase sempre, de forma engraçada: ou ele ou eu, o que nesse dia estivesse mais apressado, pedia desculpa para desligar mais depressa e prometíamos nova conversa “para um dia destes”. Desta vez, já não será possível.

José Maria Brito

José Maria Brito na imagem divulgada pelo Ponto SJ. Foto: Direitos reservados

A nota do Ponto SJ que dá notícia da sua morte manifesta o “enorme pesar e consternação” mas também a “imensa gratidão por tanto bem recebido através da sua vida”. E resume: “Fundador do Ponto SJ, que dirigiu com enorme entusiasmo e espírito de missão, estava há um ano e meio a viver na comunidade dos jesuítas em Évora. Aí colaborava ativamente com a Arquidiocese na equipa da pastoral familiar e com o Casarão, centro universitário da Arquidiocese. Era assistente regional da Comunidade de Vida Cristã (CVX) – Além Tejo e também presidente da Fundação Gonçalo da Silveira.”

O Zé Maria morreu entre a Páscoa e a data em que festejamos a Liberdade, duas datas para ele muito importantes – porque a primeira implicava a segunda, porque a segunda traduzia a primeira. Podem tomar-se ainda as palavras finais da mesma nota: “Neste momento de enorme tristeza e dor, unimo-nos à família, amigos e a todos os que tiveram a bênção de se cruzar com o Zé Maria ao longo da sua vida.” Foi de facto uma bênção e uma graça poder ser amigo deste homem e padre, companheiro e solidário.

Até sempre, companheiro. Guardarei, guardaremos a tua Amizade.

Notícia atualizada dia 23.04.2024, às 16h30.

 

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