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Gustavo Caboco: Regresso da Maloca (2024). Foto © Teresa Vasconcelos

Fundação Calouste Gulbenkian até 14 de fevereiro

Complexo Brasil: uma exposição

| 03/02/2026

“O Brasil não é para Principiantes”
(Tom Jobim)

Nestes anos de colaboração com o 7Margens penso que ainda não escrevi uma crónica sobre o meu complexo e amado Brasil. O Brasil é isso mesmo: amado e complexo. Não podemos ser “principiantes” na dimensão da inter-multiculturalidade para entendermos o Brasil sem deixar de o amar.

A exposição que permanece até 14 de fevereiro na Fundação Gulbenkian é um estimulante convite para os portugueses entenderem melhor o Brasil, do ponto de vista do próprio Brasil e não do nosso. Por isso tenho dificuldade em entender as críticas de que a exposição não apresenta o ponto de vista dos portugueses no Brasil. Não é isso que os curadores pretendem, a proposta é a oposta, que aprendamos com a perspetiva dos próprios brasileiros e não nos instalemos numa visão simplista – mesmo que sem essa intenção – para com o país irmão. Felicito a Fundação Gulbenkian por organizar uma exposição desta dimensão e com a orientação que lhe é dada pelos curadores: “um enredo do Brasil”, afirmam José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik.

Larissa de Souza

Larissa de Souza.: A bênção das crianças (2021). Foto © Teresa Vasconcelos

A perspetiva que escolho é necessariamente antropológica e baseada em trabalho etnográfico: trata-se realmente de uma exposição sobre a brasilidade (Milena Britto). Tento o olhar de Valter Hugo Mãe: “Estar disponível para todos os sentidos e todos os caminhos é algo que está no radical brasileiro” (Valter Hugo Mãe, catálogo p. 13).

Missão impossível percorrer esta magnífica exposição apenas com as duas mãos ao “piano” do meu laptop. Reconhecendo que há numerosos “atravessamentos” (Wisnik) quando se pretende compreender o Brasil, recorri às metodologias etnográficas de investigação e encontrei alguns “temas emergentes” à volta dos quais vou elaborar este pequeno trabalho que é apenas o meu olhar da exposição sobre este complexo e amorável Brasil (Paulo Freire):

  • Alegria/Corpo-Vida/Cor
  • Tristeza/ Dor/ Horror
  • Re-Criação
  • Tecelagem/Miscigenação
  • Criatividade e Ousadia
  • Espiritualidade/Transcendência

Agostinho da Silva afirma que “o Brasil, quando se desembaraçar de tudo quanto lhe foi inútil na educação europeia (…) [pode] exercer as suas capacidades de simpatia humana, de imaginação artística, de sincretismo religioso, de calma aceitação do destino, de inteligência psicológica, de ironia, de apetência de viver, de sentido da contemplação e do tempo”(p. 17, catálogo).

 

Alegria/Vida-Corpo/Cor

“e a tristeza nem pode pensar em chegar”
(samba-vídeo cantado no final da exposição)

Roberto Burle Marx

“A profusão dos verdes amazónicos, da mata atlântica (dos cafezais ou plantações de cana) lembram que essa vida emerge à custa de muito “sangue, suor e lágrimas” daqueles que foram colonizados.” Roberto Burle Marx (1991): Mata Atlântica. Foto © Teresa Vasconcelos

Inunda-nos uma “chuva” de cor. Penso que nunca vi aquela tão grande galeria (e seu andar inferior) tão inundada de um colorido tão luxuriante. São os totens de penas e cipós, madeira e corda de sisal, são os cartazes, recortes de notícias e fotografias “atravessadas” pela pena do/s artista/s que salientam, numa linguagem feita de não-palavras, as conceções contraditórias que este mundo ocidental tem sobre o Brasil.

Atakaho. Etnia Waujá. Máscara Feminina. Foto © Teresa Vasconcelos

Logo à entrada, representada por Atakaho (etnia Waujá), uma máscara feminina sugere a Vida e seus mistérios. A profusão dos verdes amazónicos, da mata atlântica (dos cafezais ou plantações de cana) lembram que essa vida emerge à custa de muito “sangue, suor e lágrimas” daqueles que foram colonizados. Irrompe a alegria dos carnavais, dos desfiles, da dança e da voz, das favelas com música permanente: vejam-se as fantásticas fotografias das casas nordestinas de Montez Magno e Anna Mariani ou a pintura e fotografia de Gê Viana. Luciany Aparecida (catálogo p. 18) afirma: “A felicidade é um sentimento coletivo, e o Brasil me ensina isso todos os dias”. Diz-nos Agustina com a sua incomparável acutilância: “No Brasil, o sentido da liberdade é o de querer a alegria e o de achar que a tristeza é contrária à alegria” (catálogo, p. 8).

E o Corpo? “O corpo é a rua” afirma Alexandra Lucas Coelho (catálogo p.16). “O corpo é público, quase todo o ano está quase de fora. Quilómetros de calçadão com gente correndo e andando seminua, abdominais, flexões (…). O corpo é a rua, aquilo que o homem se pode dar à natureza da cidade, o Carnaval no seu cume”. Corpo perpassando esta exposição, corpo velho ou novo, bonito ou feio, corpo despido e ousado, exposto, orgulho, “gostosura” de se ter um corpo. “Gostosura de se viver.” (Mário de Andrade, catálogo p. 29)

 

Tristeza/ Dor/ Horror

“Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas dos escravizados”

‘Chico Buarque lembra-nos: “Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias o sangue do açoitado e do açoitador”’. Anita Ekman e Sandra Nanayna: Performance Ritual Ocre-Pele e Pedra (2019). Foto © Teresa Vasconcelos

Nunca tinha tido uma experiência tão direta da dor e do horror da colonização. Impressionou-me especialmente uma gravura de Jean Baptiste Debret (que no século XIX viveu 15 anos no Rio de Janeiro), “Um jantar brasileiro” (1827), em que um confortável casal de colonos brancos, servidos por três escravos (uma delas apenas refrescando seus donos com um abanador de penas gigante) atiram restos de comida a duas crianças negras, de ventres dilatados, que estão no chão aninhadas e nuas estendendo as mãos aos possíveis alimentos, quais cães ou outro animalzinho de estimação… Vi imagens ou retratos muito mais violentos, mas esta gravura é demonstrativa da forma como os negros foram escravizados com requintada crueldade. Wisnik lembra “o espetro da escravidão ainda hoje”. A escravidão é uma marca desenhada a ferro e fogo nos negros trazidos de África nos navios negreiros. Argumentava-se então que os negros não tinham “alma”… mas então porque é que os batizavam antes de os embarcar agrilhoados a correntes? Na minha primeira estadia em Luanda, ainda em plena guerra civil, pude visitar a pequena capela num morro dos arredores da cidade onde, com um requinte cruel, se faziam esses batismos com um Atlântico azul e magnífico no horizonte. O simbolismo da enorme escultura de Nuno Ramos (2025) intitulada “Cruz Negra” – uma estrutura metálica e motor, granito, carvão e pigmentos (160×360 cm) demonstra, a meu ver, a brutalidade do ferrão colonial: uma interpelação, levantando-se do chão, relembrando a ferida perpétua feita àquele povo transplantado para as terras dos brasis.  Afirma Darcy Ribeiro: “a mais terrível das nossas heranças é esta de levar sempre connosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista” (catálogo p. 12). À entrada de um recanto onde vemos vídeos que “contam” a tragédia da escravatura” lemos com lentidão palavras lembrando a Mensagem de Fernando Pessoa “Ó mar salgado quanto do teu sal são lágrimas dos escravizados”.

Dois quadros mostram rituais de antropofagia entre os índios: recuamos com um passo de horror. Sim, sabemos que algumas tribos índias eram antropófagas. De notar, como afirma Alexandra Lucas Coelho, que “brasileiro não teme deixar de o ser, ao comer o outro fica mais forte. Antropofagia é fusão (…) (catálogo p.14 cit. de Vai Brasil, 2015), é ritual espiritual, é afirmação de crença, momento religioso. Antropofagia, como sugere parte da exposição, não terá sido o cruel abuso de uma raça, a fome e a pancadas, a crueldade de grilhões a segurar os corpos para que não se lembrassem de fugir daquele inferno? Chico Buarque lembra-nos: “Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias o sangue do açoitado e do açoitador” (discurso na entrega do Prémio Camões, catálogo p. 11).

Que Corpo? “O Lavrador de Café” (Cândido Portinari, 1934) chamou a minha atenção pela força imensa dos pés e das mãos de um negro em contraposição a uma cabeça pequena. Mais uma vez a linguagem implícita: os negros tinham a força brutal que os índios não tinham, eram mais resistentes às doenças, mas não precisavam de usar a cabeça, portanto esta aparece desproporcionalmente pequena. Uma simbólica performance-ritual de Anita Ekman e Sandra Nanaya, “Ocre – Pele e Pedra” (2019), mostra a Toca do Salitre (Piauí) em que uma mulher de braços estirados na horizontal, aparece – na minha interpretação – crucificada, em pele viva e sangue com desenhos hieroglíficos na parede da própria caverna (catálogo p. 55).

 

Tecelagem (Miscigenação)

“O Brasil é um mosaico racial e cultural”
(Wisnik)

‘O quadro demonstra as teses raciais do branqueamento, assumindo a “miscigenação como uma quase sinistra erradicação da população negra ao longo de gerações”’ Modesto Brocos: A Redenção de Cam (1895). Foto © Teresa Vasconcelos

Um quadro, “A Redenção de Cam” (Modesto Brocos, 1895), no seu cinismo interpelador, mostra-nos quatro figuras: uma mulher negra de cabeça coberta com um lenço escuro estende as mãos ao céu em agradecimento: uma jovem mãe, mestiça, acompanhada pelo seu companheiro de raça branca, segura ao colo uma criança bebé que “já” é completamente branca como seu pai. O quadro intitula-se “A Redenção de Cam”, assumindo-se que Cam é a criança. O quadro demonstra as teses raciais do branqueamento, assumindo a “miscigenação como uma quase sinistra erradicação da população negra ao longo de gerações”. Afirma a escritora Conceição Evaristo: “Eu tenho orgulho de que nós pretas e pretos construímos essa nação. Não somos nós que estragamos o Brasil. Não é o povo que estraga o Brasil” (catálogo p. 73).

Na primeira vez que viajei ao Rio de Janeiro (1976) fui a um concerto da cantora Clara Nunes intitulado “Canto das Três Raças” – índia, branca e negra -. Na altura gostei, era para mim uma novidade. No entanto Edmilson de Almeida Pereira afirma que “o Brasil foi formado por três raças e outras tantas premissas falsas” (Brasiliana, 2003, catálogo p. 20). Vladimir Safatle acrescenta: “aquilo que nasceu em 21 de abril de 1500 não foi um país, mas foi um experimento económico e necropolítico de extermínio (…) que rapidamente se consolidará sob a figura do latifúndio esclavagista primário-exportador”(catálogo p. 21).

Em termos gerais miscigenação é o “processo de mistura entre diferentes etnias, raças ou grupos culturais, resultando em indivíduos com características de várias origens, como no povo brasileiro, ou na fusão de hábitos e tradições”. Na exposição abundam obras de arte ilustrativas desta miscigenação. Encontramos expostas belas redes de baloiço (e de dormir), que encontramos também em África e em certos pontos da Europa, as redes dos caboclos nas quais dormi quando viajei pela Amazónia num simples barco de pescadores sob uma lua cheia deslumbrante: “A Amazónia é hoje o epicentro do planeta. Do Brasil, é o epicentro, o alfa e o ómega” (Eduardo Vieira de Castro, catálogo p. 23).

Wisnik afirma que é necessário “descobrir o encobrimento dos Brasis porque o Brasil é um mosaico racial e cultural. Gê Viana (artista afro-indígena maranhense) apresenta um trabalho que “faz releitura e intervenções em obras coloniais” (da série “Paridades”, 2021).

 

Re-Criação, Criatividade e Ousadia

“Um dia abri os olhos e era Brasília”
(Clarice Lispector)

René Burri . Brasília

“Deparo-me com uma notável fotografia de René Bourri (1966) a preto e branco onde aparece uma família de classe popular mas curiosamente miscigenada a contemplar a beleza dos edifícios – sugerindo talvez que é nesta ousada cidade que seria possível reinventar o Brasil.” René Burri: Praça dos Três Poderes (1960). Foto © Teresa Vasconcelos

Ouso afirmar que Brasília se apresenta como símbolo das três dimensões acima indicadas. Quando em 1976 voei pela primeira vez ao Rio, a passagem a partir de Lisboa incluía uma ida e volta a Brasília, essa capital construída de raiz no centro do país, numa espécie de meio do “nada”, uma ousadia eivada de criatividade e arrojo. De cima via-se terra vermelha. A capital estava ainda praticamente reduzida à imensa Praça dos Três Poderes com a catedral de Nossa Senhora da Aparecida no lado oposto, monumental trabalho de Óscar Niemeyer. Várias fotografias aéreas mostram as autoestradas retas e imensas atravessando a planura vermelho-tijolo. Clarice Lispector “retrata a cidade como uma realidade que ela acessa através do inconsciente, do sonho, numa dimensão algo invisível, como que situada à beira do mundo. ‘A alma aqui não faz sombra no chão’, escreve. ‘Por mais perto que se esteja, tudo aqui é visto de longe” (p.148-149, catálogo). Deparo-me com uma notável fotografia de René Bourri (1966) a preto e branco onde aparece uma família de classe popular mas curiosamente miscigenada a contemplar a beleza dos edifícios – sugerindo talvez que é nesta ousada cidade que seria possível reinventar o Brasil. Mas Clarice lembra-nos que esta cidade foi construída no Brasil da ditadura: é “uma prisão ao ar livre” (ibid.).

Noutro ponto da exposição uma fotografia aérea de Leonardo Finotti mostra uma recriação da calçada portuguesa, redimensionada nas suas cores, formas, sinuosidades. Pode ser Copacabana ou qualquer outro “calçadão” junto ao mar, mas é bem diferente da nossa calçada. Na Casa Campo Verde Rino Levi figuram azulejos azuis e brancos de Portinari (2019). A colorida floresta de “Bambus” de Ione Saldanha (1970) é um quase corredor que aponta o fim da exposição. A enorme “Cadeira de beira da estrada” de Lina Bo Bardi (madeira e corda de sisal, 1967) sugere um lugar de repouso que, simultaneamente, tem a forma de uma tenda de índio.

Como tenho vindo a demonstrar a estética brasileira é deliberadamente política: Cateté Claudia Andujar (Pará 1970) recria um padrão índio linear suavizado por tonalidades azul claro e beije, qual onda de um mar imaginário. Na notável fotografia “A Criação do Ribeirinho” (Thays Chaves, 2018) aparece um jovem casal cada qual preguiçosamente estirado em barcos de recreio juntando as mãos ao jeito das mãos de Deus e de Adão da Capela Sistina de Miguel Ângelo. A arte dita “naif” oferece-nos coloridas figurações do Pelourinho na Bahia, das “mães de santo” vendendo especiarias, acarajé ou quitutes, ou mesmo pinturas de Nossa Senhora da Aparecida, sem esquecer as inúmeras e artísticas fotografias do carnaval brasileiro. Festa, cor, alegria, apesar “dessa droga de vida”. Luiz António Simas (catálogo p. 6) afirma que “o carnaval é a vitória da brasilidade sobre o Brasil, é a construção do sentido coletivo de vida, é a reconstrução de uma ideia de encanto diante do mundo, pra lidar contra a aniquilação que esse desencanto traz. É a vitória do corpo sobre a morte”.

 

Espiritualidade/Transcendência

“A gente combinamos de não morrer”
(Conceição Evaristo, catálogo p. 73)

‘O magnífico e enorme “Manto da Apresentação”, uma estola (veste sagrada) de Artur Bispo do Rosário (1911-1989), é resultado do confinamento do artista numa instituição para doentes mentais: o manto é bordado sobre o seu próprio uniforme, usando fios azuis retirados de lençóis e cobertores’. Artur Bispo do Rosário (1911-1989): Manto da Apresentação. Foto © Teresa Vasconcelos

Quase à saída o imponente “Retorno à Maloca” de Gustavo Caboca (2024), imponentemente vermelho-fogo e laranja, representa uma grande habitação comunitária indígena na Amazónia, usada por várias famílias para habitação e cerimónias. Lembramos os Xamãs. “O chocalho do Xamã”, segundo Eduardo Viveiros de Castro (Catálogo, p. 11), é um “acelerador de partículas”. Há muitos anos participei numa sessão de candomblé em Salvador da Bahia. Vi as mães de santo acabarem por levitar, os meus ouvidos vibravam com os chocalhos e o batuque, enquanto, uma senhora branca paulista me dava breves cotoveladas para eu fazer os correspondentes “pididos”.

O magnífico e enorme “Manto da Apresentação”, uma estola (veste sagrada) de Artur Bispo do Rosário (1911-1989), é resultado do confinamento do artista numa instituição para doentes mentais: o manto é bordado sobre o seu próprio uniforme, usando fios azuis retirados de lençóis e cobertores. Esta peça grandiosa passou por um rigoroso processo de conservação e restauro, financiado pela Fundação Gulbenkian, antes de ser exibida na exposição. Artur Bispo do Rosário imaginou uma veste divina que mostra o que é necessário para “ser reconhecido por Deus no Juízo Final” e é bordada com nomes, datas, objetos e símbolos: segundo o artista “o manto destina-se a ser apresentado a Deus no dia da ‘minha’ passagem”.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos aparece em pintura naif relembrando que, na tradição dos escravos, Maria era Iemanjá, a deusa das águas. Outras divindades negras eram ligadas a santos ou apóstolos cristãos da religião católica de modo a se tornar possível celebrar os seus rituais. Relembramos que até as práticas religiosas dos negros lhes foram retiradas nos tempos da escravatura.  O candomblé, que surge representado em várias pinturas ou fotografias não é mais do que um exemplo da prática de sincretismo religioso a que a população negra se viu “condenada”. Ou as práticas de vudu (o culto dos espíritos e da natureza).

Sem dúvida que a tradicional devoção a Nossa Senhora Aparecida tem raízes profundas nas práticas religiosas dos negros. Ela própria é negra, com um magnífico manto azul celeste bordado a prata (pintura de Emmerson Rocha, 2024). Nossa Senhora Aparecida venerada na cidade de Aparecida, São Paulo é a Padroeira do Brasil    no “maior santuário mariano” das Américas.

A “Benção das Crianças” de Larissa de Souza (2021, tinta acrílica, bordado e aplicações sobre algodão cru) integra-se num conjunto de quadros que valorizam as mulheres negras “dando movimento a sentimentos pouco explorados de maneira poética, como os vários sentimentos que podem estar diante do cabelo de mulheres negras, que vai da solidão e vergonha ao orgulho” (Milena Britto, catálogo p. 203).

Sobre os povos indígenas afirma Ailton Kernac (catálogo pp. 214-215) num delicado movimento de transcendência ao jeito dos indígenas:

“Percebi (…) que se aproxima a primavera. Estamos chegando ao momento do esteio do céu (…), cantando é possível suspender o céu, para quem acredita que o modo como vivemos e o mundo onde vivemos é recriado a toda a hora. Para além da nossa capacidade de descrever a vida, quero aqui falar da vida como um evento que acontece de dentro de tudo, o tempo todo. Escrevo então para nosso Taru, nosso céu, e para quem acredita que pode suspendê-lo nesse tempo primaveril de proximidade com a terra. Nossos ancestrais cantavam para suspender o céu. Com esse canto, a cura também chega. Esse é um dos poderes que nossos ancestrais nos passaram: uma prática de comunhão da terra com o céu, por isso a terra é a nossa mãe”.

Lembro ainda que o catálogo não é um catálogo, é um sumptuoso livro escrito a várias mãos por um número significativo de historiadores e críticos de arte brasileiros. No início, a amarelo, um conjunto de citações de diferentes autores e artistas, brasileiros, portugueses ou outros. Um livro que tem valor de per sí mas também se constitui em poderoso instrumento para entendermos melhor o “Complexo Brasil”.

As preguiçosas redes da Amazónia “empurram-me” para fora da exposição não vá eu ter a veleidade de me instalar numa delas balançando-me de olhos cerrados para poder continuar a usufruir na minha mente tanta beleza e … complexidade:

“Sinto com amor profundo um povo de uma nobreza fora do comum, de uma sabedoria e ao mesmo tempo consciência de suas dificuldades e suas belezas. Se eu vivesse um milhão de anos, todos eles seriam encantados pelo Brasil. Gosto de cantar e escolher minhas palavras para esse Brasil. Não posso viver sem isso” (Maria Bethânia, catálogo p. 19).

 

Teresa Vasconcelos é Professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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