Comunhão na mão e reverência pelo divino

| 29 Jun 20

Entre as múltiplas adaptações suscitadas dentro da Igreja Católica com a covid-19 está a forma de comungar, que passou a ser obrigatoriamente na mão e não na boca.

Em traços gerais, a comunhão na mão foi a regra nos primeiros nove séculos de cristianismo, situação que se alterou pelas profanações que se começaram a verificar com alguma regularidade. A comunhão na boca passou nessa altura a ser a regra, até ao Concílio Vaticano II, que veio abrir de novo a possibilidade da comunhão na mão.

Atualmente (fora da situação que estamos a viver), pode comungar-se das duas maneiras, na mão e na boca, com as devidas disposições: ter consciência de não estar em pecado mortal e perceber que se está a receber o Corpo de Cristo – o celebrante explicita isso mesmo e espera por um “ámen” antes de distribuir a sagrada comunhão.

Considerar que a nossa boca tem mais dignidade do que as nossas mãos para tocar Cristo nega a verdade essencial da redenção, de cada pessoa inteira, de toda a humanidade.

A comunhão na boca pode ter-se tornado, no tempo, um sinal exterior de maior respeito pela presença real de Jesus na Eucaristia, mas não é correto considerar que a comunhão na mão, permitida pela Igreja, seja uma degenerescência do verdadeiro cristão. Como começámos por dizer, essa foi a regra na Igreja nos primeiros nove séculos de cristianismo.

A atitude que assumimos na forma como comungamos deve traduzir sobretudo a total consciência da distância a que estamos d’Aquele que vem a nós, totalmente escondido nas espécies do pão e do vinho, mas nelas totalmente presente em corpo, sangue, alma e divindade.

Comungar obrigatoriamente na mão obrigar-nos-á a cuidar mais da reverência interior em relação ao sacramento, a termos mais atenção ao gesto, à própria limpeza das mãos. Levar-nos-á talvez a fazer mais atos de reparação e de louvor, por aqueles (às vezes nós) mais desatentos ou rotinizados. Mas não fará de nós mais ou menos pecadores do que éramos comungando na boca.

Os excessos de zelo em relação a este tema retomam alguns velhos vícios de uma religiosidade enviesada, que já existiam antes de Cristo: colocar a forma antes do fundo, avaliar a maior dignidade de um membro sobre outro, julgar os outros pelo exterior e não pelo interior, e, pior do que isso, pensar que receber Nosso Senhor é um prémio para os bem-comportados, os “limpos”, os que merecem recebê-Lo.

O ser mais santo à face da Terra não recebe Cristo por o merecer, mas porque Deus é imensamente bom para vir a ele. Há mais distância entre o mais santo da Terra em relação a Deus, do que entre o mais santo da Terra e o mais empedernido pecador.

Porque, essencialmente, somos todos criaturas diante do seu Criador. A diferença está na natureza: Deus que se dá é divino e nós que O recebemos somos humanos, criaturas. Resgatados, feitos filhos no Filho, mas criaturas. E a graça da fé que levamos não nos pertence, é dele integralmente.

O que se nos dá é isso mesmo, Dom Total. Por mais que façamos, a graça de Deus é sempre imerecida. Pensar que receber Deus na comunhão é um merecimento torna-nos soberbos como o fariseu que não saiu justificado do Templo (Evangelho de Lucas 18, 9-14).

A Comunhão é um dom maior. Comungar na boca ou na mão deve ser sempre um ato de extrema humildade na consciência de que tudo recebemos d’Aquele que se nos oferece assim, dessa forma tão despojada.

Na boca ou na mão, recebamos Jesus. Sem discussões vãs e apenas com sede dele, como ele tem de nós.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária

 

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Clubes Terra Justa: a cidadania não se confinou

Clubes Terra Justa: a cidadania não se confinou

Durante esta semana, estudantes e movimento associativo de Fafe debatem o impacto do confinamento na cidadania e na justiça. A Semana Online dos Clubes Terra Justa é assinalada em conferências, trabalhos e exposições, com transmissão exclusiva pela internet. Entre as várias iniciativas, contam-se as conversas com alunos do 7º ao 12º ano, constituídos como Clubes Terra Justa dos vários agrupamentos de escolas de Fafe.

É notícia

Entre margens

De joelhos os grandes sistemas económicos novidade

Mas – dizem –, se existem catástrofes na economia motivada por um vírus exponencial, a “mão humana” lá está para dar alento a esta tempestade. E essa tem um “confinamento” suave, porque quem sofre são os trabalhadores mais vulneráveis, os informais, os pobres, as mulheres, as pessoas de cor, os migrantes e os refugiados. A violência doméstica aumenta, os direitos humanos são atrofiados e a indústria privada farmacêutica e o seu sistema de patentes é orientada para lucros inconcebíveis, em que a defesa da dignidade das mulheres e dos homens é colocada em causa.

O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente

Presumir a virtude do sujeito que detém o poder é, para além de naïf, algo injusto. Expor qualquer pessoa à possibilidade do poder sem limites (ainda que entendido como serviço) é deixá-la desamparada nas múltiplas decisões que tem de tomar com repercussões não só em si mesma, mas igualmente em terceiros. E também, obviamente, muito mais vulnerável para ceder a pressões, incluindo as da sua própria fragilidade.

Economista social ou socioeconomista?

Em 2014, a revista Povos e Culturas, da Universidade Católica Portuguesa, dedicou um número especial a “Os católicos e o 25 de Abril”. Entre os vários testemunhos figura um que intitulei: “25 de Abril: Católicos nas contingências do pleno emprego”. No artigo consideram-se especialmente o dr. João Pereira de Moura e outros profissionais dos organismos por ele dirigidos; o realce do “pleno emprego”, quantitativo e qualitativo, resulta do facto de este constituir um dos grandes objetivos que os unia.

Cultura e artes

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir” novidade

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano novidade

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Morreu João de Almeida, renovador da arquitectura religiosa em Portugal

Em Maio de 2015, manifestava-se, em entrevista ao Expresso um homem “cem por cento contente com a vida”. O arquitecto e pintor João de Almeida, fundador do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) morreu na segunda-feira, em Lisboa, aos 92 anos. O seu funeral e cremação será esta quarta, 24 de Junho, às 17h, no cemitério do Alto de São João.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco