Comunicar na era do coronavírus

| 6 Abr 20

Nas margens da filosofia (XVIII)

Cada época tem as suas doenças paradigmáticas (…). Apesar do medo descomunal de uma pandemia gripal, não vivemos presentemente na época viral. Graças ao desenvolvimento da técnica imunológica, já a conseguimos ultrapassar.

(Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço.[1])

O excerto que acima citamos pertence a uma obra publicada na Alemanha, em 2010, pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han. A fase que presentemente vivemos desmente esta constatação. Os efeitos devastadores do novo coronavírus eram desconhecidos e totalmente imprevisíveis e não podemos censurar o filósofo por não ter praticado futurologia. O optimismo revelado por Han quanto à nossa capacidade de combater os vírus revelou-se excessivo. Mas tal facto não põe em causa a análise por ele desenvolvida quanto às doenças neuronais típicas da nossa época, resultantes de um excesso de positividade, ou seja, de um excesso do idêntico: “A violência da positividade não pressupõe qualquer hostilidade. Pelo contrário, ela desenvolve-se numa sociedade permissiva e satisfeita.”[2] Trata-se de uma violência que não vem de fora, ela é inerente ao sistema e, como tal, é tanto mais perigosa quanto não é consciencializada.

Byung-Chul Han é um observador perspicaz da sociedade contemporânea, por ele designada de várias maneiras, como “a sociedade do cansaço” ou “a sociedade da transparência”. Professor universitário em Berlim, ele analisa criticamente aquilo que designa como “o inferno do igual”, ou seja, algo de inevitável naqueles que a todo o custo pretendem ser diferentes mas que, na realidade, se aproximam por esse desejo comum – aliás não conseguido – de originalidade.

É interessante o modo como justifica essa sua tese recorrendo aos meios de comunicação, considerando que estes substituíram as relações humanas por meras conexões. Certamente que, ao escrever estas obras, o filósofo estava longe de imaginar o que nos levou à situação que presentemente vivemos, onde o contacto real é abolido e as pessoas se limitam a comunicar virtualmente.  Os likes que constantemente enviamos a amigos e conhecidos via Facebook e WhatsApp são a melhor prova desse desejo de sintonia, de apreciar de igual modo o mesmo, de partilhar o riso e de lamentar o trágico. Basta-nos um clique para sintonizarmos com o mundo e fazemo-lo exaustivamente, o que provoca um cansaço e um esgotamento que, segundo ele, podem levar “a um enfarte de alma” (Sociedade do Cansaço, p. 52).

A actual situação que o surto do coronavírus nos impõe, obriga-nos a viver num mundo visual, por vezes acompanhado de audição. Mas impede o toque e o abraço, a presença física dos familiares e dos amigos, os encontros, as refeições em comum, os passeios. Limitamo-nos a trocar posts, relatos anedóticos, vagas saudações e perguntas, tudo misturado com as múltiplas parvoíces que abundam da net. É uma época trágica onde, no entanto, estamos permanentemente a rir com as graças que nos mandam, a maior parte das vezes construídas sobre situações insólitas fruto de conexões abusivas, deliberadamente feitas para nos porem bem-dispostos.

Byung-Chul Han lembra-nos que vivemos numa época de ludificação permanente, jogamos constantemente com centenas de amigos e de desconhecidos a quem mandamos as mesmas mensagens, o que mata a verdadeira comunicação que é pessoal e, consequentemente única. Transmitimos e retransmitimos, enviamos e reenviamos textos que nos mandaram e que, de seguida, encaminhamos para inúmeros destinatários, muitos deles quase desconhecidos. Neste excesso de oferta que nos transforma em auditório, esquecendo as irredutíveis diferenças que permitem a amizade e o amor, os nossos amigos transformam-se em público, gente que irmanamos no mesmo gesto de enviar mensagens.

Marco de correio.

Marco de correio: escrever uma carta implica um cerimonial e uma expectativa. Foto © Juliana Filipa Marques Lima/Wikimedia Commons

Quando penso nos meus netos que, nestas circunstâncias de exílio forçado, comunicam comigo e com os amigos através da net e do telemóvel, interrogo-me se algum deles alguma vez recebeu uma carta. Sem saudosismo lembro todo o cerimonial que era escrevê-la – ter papel, caneta, envelope, selo. Ir ao correio e esperar dias pela resposta. Dir-me-ão que era um cerimonial caduco, ultrapassado pela rapidación em que se transformou a nossa vida e pela exigência de resolução imediata de problemas prementes. Mas a espera é um elemento que amadurece, a expectativa faz parte integrante da vida, prepara-nos para ela e faz-nos crescer. A imediatez uniformiza e apequena.

Nas cartas, perpassam as inquietações de um viver diário, elas expõem-no, explicam-no e demonstram-no com um vagar incompatível com as mensagens telegráficas das SMS. Nelas se revela a personalidade concreta de quem as escreve, alguém que se situa num espaço e habita um corpo. As cartas são íntimas, subjectivas e frontais, obrigam a uma auto-revelação e manifestam cumplicidades, mostrando a verdade da afirmação de Mc Luhan, ao escrever “o meio é a mensagem”[3].

Os meios de comunicação que hoje dominam são rápidos, eficazes e objectivos. São fáceis de manusear e chegam, em avalanche, ao mundo inteiro, iludindo-nos, no entanto, quanto à compreensão do mesmo. Porque, como escreve Byung-Chul Han: “Um aumento de informação e de comunicação, por si só, não esclarece o mundo (…) Quanto maior é a informação que se mobiliza, mais intrincado se torna o mundo. A hiperinformação e a hipercomunicação não injectam luz na  obscuridade.”[4]

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa. 

 

Notas

[1]Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Lisboa, Relógio D’Água, 2014. Lembro outras das suas obras traduzidas para português pela mesma editora: A Agonia de Eros, 2014; A Sociedade da Transparência, 2014,; Psicopolítica, 2015.

[2] A Sociedade do Cansaço,p.16.

[3] “The media is the message”, Marshall McLuhan, Understanding Media: The Extensions of Man, MIT, Press, 1994.

[4] Byung-Chul Han, A Sociedade da Transparência, p. 62

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