[Debate 7M: A Igreja e os Média–3]

Comunicar, o verbo que urge conjugar

| 23 Mai 2022

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala no próximo dia 29, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de João Luís Gomes, jornalista da agência Lusa.

 

João Luís Gomes: “É urgente que a Igreja entenda que não pode furtar-se ao escrutínio da comunicação social.” Foto: Direitos reservados.

João Luís Gomes: “É urgente que a Igreja entenda que não pode furtar-se ao escrutínio da comunicação social.” Foto: Direitos reservados.

 

“A escuta é o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo e da boa comunicação. Não se comunica se primeiro não se escutou, nem se faz jornalismo sem a capacidade de escuta.”

No esquecimento desta premissa apontada pelo Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano podemos identificar alguns dos problemas que, ao longo dos tempos, têm afetado a relação entre a Igreja Católica e a comunicação social em Portugal.

Tudo porque para escutar é preciso haver alguém para ser escutado e disponibilidade para escutar o que foge às ideias preconcebidas. E isso nem sempre acontece.

De facto, e embora nos últimos anos se tenha assistido por parte de alguns setores da Igreja a uma maior disponibilidade para a comunicação social, noutros setores isso ainda não aconteceu, verificando-se até um retrocesso.

Esta situação é particularmente visível quando os temas da agenda mediática são polémicos.

Aí, ao invés de proatividade da Igreja no esclarecimento e na resposta às questões colocadas pelos jornalistas, a primeira tentação é retardar a comunicação, remeter explicações para um comunicado nem sempre esclarecedor ou, simplesmente, não haver disponibilidade para o contacto.

Mas, mesmo quando os temas em questão não assumem aparentemente uma perspetiva de polémica, nalguns departamentos da Igreja os contactos não são fáceis. A cultura instalada parece ser, por vezes, a de encarar a comunicação social como um conjunto de críticos que apenas estão disponíveis para deturpar o que é dito.

E estamos naquele ponto em que é necessário abordar, também, as responsabilidades da comunicação social na manutenção da situação.

Ao longo dos anos, muitos jornalistas têm dado azo a uma reação de rejeição por parte das estruturas da Igreja, desde logo por muitas fragilidades demonstradas no conhecimento dos temas que procuram abordar.

Em muitas redações, o acompanhamento da atualidade religiosa não é encarado no mesmo patamar de relevância que merecem outros temas e o investimento na formação dos jornalistas nesta área temática não está, na maior parte do tempo, nas preocupações das chefias.

A Igreja é um filão noticioso quando há polémica, como se assiste atualmente, e bem, em torno do tema dos abusos sexuais; mas mesmo neste dossiê os casos são tratados em grande medida apenas do ponto de vista criminal pelos jornalistas, sendo poucos os que se aventuram a mergulhar mais profundamente no assunto, buscando respostas para o que tem falhado, desde há muitas décadas, no acompanhamento destas situações. O papel do jornalista fica incompleto, apenas cumprindo parte da sua função.

Aqui chegados, talvez seja o momento de lembrar o alerta deixado pelo Papa Francisco na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2021: “A crise editorial corre o risco de levar a uma informação construída nas redações, diante do computador, nos terminais das agências, nas redes sociais, sem nunca sair à rua, sem ‘gastar a sola dos sapatos’.”

Neste alerta de Francisco talvez esteja parte da solução para o problema de comunicação entre a Igreja e os jornalistas.

É tempo de as redações atribuírem ao acompanhamento da atualidade religiosa a atenção que dispensam a outras dimensões da vida humana, proporcionando formação específica a jornalistas e não relegando a temática para o fundo das agendas.

Em paralelo, é urgente (sim, é esta a palavra certa) que a Igreja – a sua hierarquia, os seus múltiplos departamentos – entenda que, para manter a sua respeitabilidade não pode furtar-se ao escrutínio da comunicação social, não pode fechar-se na sua concha. Tem de comunicar, comunicar com todos, esclarecer sempre que questionada, com a rapidez e a linguagem dos tempos que correm.

Em tempo de reflexão sinodal, este é um dos temas que a Igreja também não deve descurar e, em Portugal, a realização no próximo ano da Jornada Mundial da Juventude poderá ser o momento ideal para a consolidação de uma nova relação.

 

João Luís Gomes é jornalista da Lusa; acompanha com regularidade a atualidade religiosa, em particular acontecimentos ligados a Fátima.

 

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