
Uma parte dos dias do Encontro parisiense foi ocupada em mais de duas dezenas de fóruns, em torno de grandes desafios da contemporaneidade. Foto © Comunidade de Sant’Egídio
São os “sonhadores da paz”. Três mil pessoas oriundas de várias dezenas de países inscreveram-se e lotaram o Palácio dos Congressos da capital francesa, num Encontro Internacional de três dias, organizado pela Comunidade de Sant’Egídio, que encerrou esta terça-feira, 24 de setembro.
“Imaginar a Paz” foi precisamente o mote dado ao evento pelos organizadores que congregaram ali líderes religiosos, decisores políticos, jovens e famílias, ativistas e estudiosos, para ousar o que hoje parece não caber na agenda e no discurso público: falar da paz, imaginar a paz.
A iniciativa, cuja entrada era livre e gratuita, vai já na 38ª edição, mas é a primeira que toma a cidade de Paris como local de encontro e é a edição que ocorre com o mundo a viver múltiplos focos de guerra e perante o risco de os conflitos escalarem para cenários ameaçadores.
O cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal da Itália e próximo da entidade organizadora, disse, citado pelo jornal Avvenire, que os participantes estão reunidos para dizerem que “não cedem ao falso realismo da guerra”. A presidente da Câmara local, Anne Hidalgo, salientou, ao intervir perante os participantes, que Paris é a cidade do horror e da esperança, já que, no século passado, experimentou a guerra e a ocupação pelos nazis e foi, por outro lado, palco da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos e, mais recentemente, do acordo climático.
As múltiplas intervenções de personalidades diversas puseram em destaque “a corrida aos armamentos” (Amin Malouf); a denúncia do antissemitismo e da islamofobia (Justin Welby); “o direito do outro a existir”, no Médio Oriente (Emmanuel Macron); e a instrumentalização da fé para fazer a guerra (Andrea Riccardi).
Numa entrevista dada também ao Avvenire, no último domingo, o fundador da Comunidade de Sant’Egidio denunciou aquilo que designou por “reabilitação da guerra”, observando que “hoje, a guerra recuperou uma dignidade que não tinha até agora”. Esta mudança de mentalidade atribui-a Riccardi, que é também historiador, entre outras razões a uma amnésia, associada ao facto de terem desaparecido “as testemunhas dos horrores dos grandes conflitos mundiais” do século passado.
Riccardi, que foi já ministro de um governo italiano, com o pelouro da cooperação internacional, chama a atenção para “o momento muito difícil [em que se realiza o Encontro de Paris], também do ponto de vista religioso”. “É difícil, explicou, devido às divisões no mundo ortodoxo ligadas à guerra entre a Ucrânia e a Rússia. É difícil devido às tensões judaico-islâmicas com o Islão, que apoia em grande parte a causa palestiniana. É difícil porque, por vezes, os líderes religiosos não fogem ao fascínio de se identificarem com uma nação em guerra”.
É que, adianta ainda, “as religiões podem ser o combustível do fogo da guerra ou a água que ajuda a apagá-la. Na história elas nunca tiveram um papel único. No entanto, no fundo de cada tradição religiosa, existe uma mensagem de paz. E quando os homens de fé se encontram, esta inspiração ressurge”, já que, “afinal, cada religião tem o diálogo no seu ADN”.
Uma parte dos dias do Encontro parisiense foi ocupada em mais de duas dezenas de fóruns, em torno de grandes desafios da contemporaneidade, especialmente os “temas da paz e do desarmamento, da crise ambiental, dos migrantes, da democracia e da solidariedade”, segundo refere um comunicado dos organizadores.









