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Papa Francisco, Patriarca Bartolomeu, Comunidade de Sant'Egídio

Encontro Internacional em Roma

Comunidade de Santo Egídio aposta na “diplomacia da paz”

| 22/10/2022

Papa Francisco, Patriarca Bartolomeu, Comunidade de Sant'Egídio

Papa Francisco (centro) e patriarca Bartolomeu (esq.), no final do encontro interreligioso promovido pela Comunidade de Santo Egídio, em Roma, 7 de outubro de 2021. Foto © Comunidade de Santo Egídio.

 

A Comunidade de Santo Egídio acolhe a partir deste domingo, 23 de outubro, em Roma, o Encontro Internacional de Diálogo e Oração pela Paz entre as Religiões do Mundo, que tem prevista, além do Papa Francisco, a presença de três chefes de Estado. 

“O Grito pela Paz” é o tema da edição deste ano de uma iniciativa que se realiza desde os anos 80. A procura de caminhos para sentar à mesa os beligerantes da guerra da Ucrânia e de outros conflitos estará na agenda dos encontros gerais e bilaterais que esta verdadeira cimeira da paz vai permitir.

Os presidentes da França, da Nigéria e da Itália têm participação prevista na sessão de abertura, estando agendado também um encontro entre Emmanuel Macron e o Papa Francisco. Será sob a presidência do Papa que o Encontro encerrará, no dia 25, com um ato de culto no Coliseu da capital italiana.

O cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana e conhecido colaborador da Comunidade de Santo Egídio, e Haïm Korsia, rabino-chefe da França, são alguns dos intervenientes num encontro que junta peritos e responsáveis de várias confissões religiosas de cerca de 50 países. De entre as temáticas de mesas-redondas que colocarão em diálogo os participantes, destacam-se “as lições da pandemia”, ” a responsabilidade das religiões na crise da globalização” e “a guerra, um desafio para o futuro da Europa”. 

Apesar de vários clérigos metropolitas ortodoxos da Europa estarem entre os participantes, nenhum líder religioso ucraniano ou russo respondeu ao convite enviado por Santo Egídio, de acordo com declarações do presidente da Comunidade, Marco Impagliasso. 

O jornal digital La Croix International revela, entretanto, que o metropolita António, que é chefe do Departamento de Relações Externas do Patriarcado de Moscovo, tenciona participar no Encontro. A deslocação terá especial significado, uma vez que ele se poderá encontrar com o cardeal Kurt Koch, presidente do Dicastério para a Unidade dos Cristãos, na sequência do encontro que teve já com o próprio Papa, aquando da viagem recente a Astana, no Cazaquistão. Em perspetiva mantém-se um encontro entre Francisco e o patriarca Cirilo, que esteve já previsto, mas foi adiado, na sequência da posição de Cirilo no apoio à guerra na Ucrânia desencadeada por Vladimir Putin.

Andrea Riccardi: “É necessária a diplomacia da paz”

Entretanto, em várias instâncias internacionais, tem crescido a inquietação com a escalada do da guerra na Ucrânia, a perspetiva de eternização do conflito, e a catástrofe humanitária que poderá aumentar significativamente.

O Papa Francisco deixou a mensagem, em termos veementes, no Angelus, de 2 de outubro: “O meu apelo dirige-se, em primeiro lugar, ao presidente da Federação Russa, pedindo-lhe que pare, também por amor ao seu povo, essa espiral de violência e morte. Por outro lado, entristecido pelo imenso sofrimento do povo ucraniano na sequência da agressão sofrida, dirijo um apelo igualmente confiante ao presidente da Ucrânia para que esteja aberto a propostas sérias de paz”. E acrescentou: “A todos os protagonistas da vida internacional e aos responsáveis políticos das nações, exorto a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para pôr fim à guerra em curso, sem se deixarem arrastar para escaladas perigosas, e a promover e apoiar iniciativas de diálogo. Por favor, deixemos que as gerações mais jovens respirem o ar saudável da paz, não o ar poluído da guerra, que é uma loucura!”.

Para já, as repercussões do apelo papal foram em sentido contrário. Enquanto a Ucrânia aprovava um decreto que proíbe negociações com Putin, este fez escalar a agressão, através da destruição em grande escala de alvos civis e mantendo em suspenso a ameaça do recurso ao nuclear. 

Ainda recentemente, numa entrevista ao jornal La Repubblica, Andrea Riccardi, o fundador da Comunidade de Santo Egídio, lamentava que ninguém tenha dado ouvidos à voz do Papa. “Não vi em lado nenhum o desejo de encontrar um caminho de paz. E estou muito preocupado porque, no mundo pós-globalizado, as guerras têm uma caraterística particular: eternizam-se”, afirmou.

Riccardi recusa a ideia de que falar de paz é ser pró-Putin. “Falo de paz – sublinha –  porque a paz deve ser um objetivo que nos propomos com energia, para que a palavra paz não seja removida do vocabulário”.  Esclarece, por outro lado: “Quando falo de paz, penso sobretudo no povo ucraniano bombardeado. Penso nos 7 milhões de ucranianos, a maioria mulheres e crianças, que deixaram o país e se tornaram refugiados no mundo; penso nessa nação que corre o risco de ser destruída”.

Ele entende que o envio de armas para a Ucrânia “é correto porque ajuda Kiev a defender-se, mas isso apenas cria equilíbrio no conflito”, enquanto “é preciso algo mais: é necessária a diplomacia da paz”.

Começar a pensar no pós-guerra

Mario Giro, um ex-vice-ministro dos negócios estrangeiros de Itália e também membro da Comunidade de Santo Egídio, deu uma entrevista ao jornal Settimana News, em 9 de outubro, em que procura explicar o que não funcionou para que a guerra na Ucrânia fosse desencadeada por Putin, procurando igualmente olhar para o futuro. 

Para ele, o Ocidente, que respondeu prontamente ao pedido de ajuda do governo ucraniano, vê-se agora perante a urgência de equacionar perguntas como estas: “Como pôr fim a esta guerra? O que haverá depois de ela acabar?”

Recordando que houve já outros conflitos em que foi possível pensar na paz, antes de a guerra acabar, Mario Giro defende que “é preciso pensar em construir um amanhã enquanto ainda se está a combater”, respondendo a uma pergunta-chave: “como reconstruir na Europa a convivência com a Rússia, no futuro?”.

Este ponto é justificado deste modo: “Certamente, não podemos ignorar este grande país, o maior do mundo, rico em recursos naturais e culturais, cheio de problemas dentro e fora de suas fronteiras. (…) A questão das fronteiras deste país é um tema enorme, não apenas em relação à Ucrânia. Não podemos ignorá-lo. O Ocidente europeu não poderá permitir-se uma guerra permanente com a Rússia, sob todos os pontos de vista: económico e de segurança. Os Estados Unidos veem a Rússia de uma forma inevitavelmente diferente da Europa. Basta olhar para o mapa: entre os dois grandes países, existe um oceano a meio”.

Mario Giro reconhece, no entanto, que, no estado atual das coisas, nenhuma das partes diretamente envolvidas na guerra se quer sentar à mesa das negociações, já que isso pressuporia disposição para fazer cedências. Mas esse facto não deveria impedir que as instâncias internacionais inscrevessem a busca da paz na agenda dos encontros.

Voltando à entrevista de Andrea Riccardi, é preciso “trabalhar nessa direção. É preciso uma imaginação criativa para sair deste conflito. Parece impossível agora, mas a paz nunca é impossível. Devemos alcançar o inatingível. Perante a ameaça atómica, é necessária uma política de paz”.

“A paz é urgente e necessária”, reconhecia também, há dias, o Presidente da República italiano, Sergio Mattarella. Mas passa, a seu ver, por “um restabelecimento da verdade, do direito internacional, da liberdade do povo ucraniano”.

 

(Os três últimos parágrafos da versão inicial desta notícia foram cortados: por erro, repetiam texto já publicado nesta versão.) 

 

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