Comunidade de Taizé “divide-se” em oito e reza com milhares na internet

| 23 Mar 20

A comunidade reinventou-se para remediar a ausência de jovens e cumprir as regras do distanciamento social, com as orações transmitidas pela internet e seguidas em todo o mundo. Entretanto, os irmãos anunciaram outra “notícia triste”…

Taizé

Imagem da transmissão via Facebook, da oração de um dos grupos de irmãos em Taizé, neste domingo, 22 de Março.

A comunidade monástica ecuménica de Taizé (Borgonha, França) está actualmente dividida em oito lugares de residência diferentes da aldeia, com poucos irmãos a residir e trabalhar, bem como a rezar em sítios diferentes. Uma das orações diárias da comunidade é transmitida pela internet, diariamente, às 19h30 de Lisboa, a partir da página de Taizé na rede social Facebook.

Medidas de confinamento e de proibição de aglomerações de pessoas foram decretadas também em França por causa da pandemia do novo coronavírus. Na sequência disso, os irmãos decidiram passar a residir em pequenos núcleos, separados uns dos outros, evitando ao máximo os contactos entre eles. Ao mesmo tempo, o acolhimento de jovens foi suspenso pelo menos até 13 de Abril.

Os irmãos que estão neste momento em Taizé – há vários outros espalhados em diferentes lugares do mundo –repartiram-se por oito casas e espaços da aldeia, em função dos trabalhos de cada um: olaria, esmaltes, cozinha, funções administrativas, havendo também sete irmãos que estão em quarentena, por terem chegado de fora.

A oração diária, cuja emissão em directo começou segunda-feira passada, 16, é animada por um dos grupos da comunidade, mas todos estão ligados através de redes digitais. Os textos da Bíblia usados na oração estão disponíveis na página de Taizé na internet, e quem o deseje também pode enviar intenções de oração.

“Gostaríamos de expressar a nossa solidariedade espiritual com todos aqueles que estão em solidão”, dizem os irmãos, justificando a importância de abrir este espaço. Aliás, muitos comentários na página do Facebook indicam a adesão e gratidão das pessoas de lugares distantes como Istambul, Estados Unidos, Brasil, Portugal ou Hong Kong. Os cânticos utilizados são também colocados na mesma página.

 

Uma Páscoa sem peregrinos em Taizé

Taizé Uma oração com o irmão David, de Taizé, no Fundão, no final de Outubro de 2019: pelo menos até Abril, quem quiser rezar com os irmãos terá de fazê-lo através da internet. Foto © Cristina Santos Pinto

“Em Taizé, as circunstâncias fazem-nos antecipar pela primeira vez uma Semana Santa e uma celebração da Páscoa sem peregrinos”, escrevia o irmão Aloïs, prior de Taizé, numa mensagem sobre a vivência da Quaresma, neste contexto particular. “Continuamos a nossa vida de oração e trabalho, ‘separados de todos, mas unidos a todos’. Estamos conscientes de que a intercessão nos mantém unidos com tantas outras pessoas através do mundo”, acrescentava.

Esta crise, diz ainda o irmão Aloïs, faz sentir, em primeiro lugar, “o sofrimento e a angústia das vítimas, dos doentes, das suas famílias, de todos os que são duramente atingidos pelas suas consequências económicas”. E também leva a exprimir gratidão e admiração por todos os envolvidos no atendimento às vítimas e na organização dos serviços públicos. “Há tantas testemunhas de generosidade criativa, solidariedade, resistência à passividade e desânimo”, nota o prior de Taizé.

No texto, o irmão Aloïs recorda o tempo de Quaresma que os cristãos estão a viver, que deve levar “a viver a conversão” na esperança da “luz do Ressuscitado”. E pede: “Não nos deixemos desviar por medos, irritação, arrependimentos, confusão, pelas trevas que pretendem cobrir toda a terra e monopolizar toda a nossa atenção… Mas permaneçamos unidos, no mais profundo dos nossos corações, na fonte de paz que permanece acima de tudo. (…) estejamos atentos ao tesouro das relações humanas.” Manter o contacto – com um telefonema ou uma mensagem – “com os mais isolados e, acima de tudo, os de mais idade, os mais frágeis e os que já estão afectados por outra doença ou outra provação” é uma das sugestões.

 

Outra “notícia triste”

Na sexta-feira, 20 de Março, a comunidade informou, entretanto, que o irmão ainda vivo que tinha sido acusado de agressões sexuais deixou a comunidade, depois de terem chegado “outros testemunhos envolvendo o mesmo irmão, relatando também agressões sexuais a menores, sob a forma de carícias”.

O irmão em causa foi convidado a deixar a comunidade, está já a viver noutro lugar” e, tendo em conta a sua idade, outro membro da comunidade viverá com ele enquanto outros ajudarão no acompanhamento. Na comunicação, o prior de Taizé acrescenta: “Sei tudo o que com os meus irmãos recebemos dele e estamos profundamente tristes. Espero que esta decisão, cujo impacto e gravidade eu compreendo, nos ajude – e a ele também – a avançar neste caminho de verdade.

Esta nova informação da comunidade surge na sequência da notícia de Junho passado, de cinco casos de agressões de carácter sexual cometidas sobre menores, nos anos 1950 a 1980, por três irmãos diferentes, dois dos quais morreram há mais de quinze anos.

Em Outubro, na sequência de novas denúncias, o irmão Aloïs avisou as autoridades, que detiveram o visado, que ficou em prisão preventiva e foi convidado a deixar a comunidade, tal como neste novo caso.

Taizé - Ir. David O irmão David, de Taizé, em Outubro de 2019, no Fundão: “É preciso dar nomes ao que se passou.” Foto © António Marujo/7MARGENS

Fazem estas situações com que os irmãos se sintam traídos de alguma forma? “Sim, é uma traição ao que queremos viver juntos”, diz o irmão David, o único português da comunidade, numa entrevista ao 7MARGENS. “Não podemos tirar conclusões precipitadas, há que esperar que haja luz sobre as diversas situações, como o irmão Aloïs insistiu, saber o que se passou e esperar que a Justiça se pronuncie.”

É preciso dar nomes ao que se passou, acrescenta o irmão David. “Se as acusações se confirmarem, isso é uma traição muito clara à confiança que, entre irmãos, temos uns nos outros, que têm aqueles que vêm a Taizé e os que compreendem a vocação de Taizé”, acrescenta, manifestando a mesma perplexidade que muitas pessoas tiveram em relação a estes casos: “Colocamos a mesma pergunta e não temos resposta; ao fazermos a pergunta, podemos também tornar-nos mais despertos e estar mais atentos a estas situações.”

Estes casos podem acontecer também com pessoas que vão a Taizé, admite o irmão David. “Não somos nós que podemos controlar tudo – e controlámos muito mal, como se vê”, admite. “Precisamos do apoio de todos e que as pessoas não sejam ingénuas. Em qualquer ser humano há coisas muito boas, mas também menos boas e também pode haver coisas más e muito más. Devemos perceber que o mal pode surgir de onde menos se espera”, conclui.

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