Comunidades com sentido: xitíkar, tsimar e cuidar

| 24 Jul 2021

Zuckerberg está certo ao lamentar a desagregação das comunidades humanas. Embora, no séc. XXI, as pessoas possam vir a actualizar-se até se tornarem deuses, em 2018 ainda somos animais da Idade da Pedra. Para florescermos, ainda precisamos de nos ancorar em comunidades íntimas. Durante milhões de anos, os seres humanos adaptaram-se a viver em bandos não muito maiores do que algumas dezenas de pessoas. Mesmo hoje, a maioria de nós não consegue dar-se com mais de 150 pessoas, independentemente do número de amigos no Facebook que nos gabemos de ter. Sem estes grupos, os seres humanos sentem-se sós e alienados. (Yuval Noah Harari, 21 Lições para o Século XXI)

Grupo Blindadas de Muatranca, Xitique realizado nos finais de cada mês em Nacala Porto, Cidade Alta. F

Grupo Blindadas de Muatranca, Xitique realizado nos finais de cada mês em Nacala Porto, Cidade Alta. Foto © Arcenia Chale, cedida pela autora.

 

Dilma, minha aluna, apareceu muito sonolenta numa aula de segunda-feira. Achei muito estranho, por ela ser, normalmente, activa e inquieta. Nesse dia, não fez perguntas e não comentou as intervenções dos colegas. Limitou-se a ouvir e a tomar apontamentos.

Perguntei-lhe o que é que se estava a passar e contou-me que as tias, amigas, irmãs e comadres da mãe tinham saído tarde da sua casa, após um xitíke demorado, dado que as senhoras não se encontravam para os realizar, por causa da pandemia da covid-19, já há muito tempo. Teve o cuidado de referir que as senhoras estavam distantes umas das outras, porque estavam num quintal espaçoso – não fosse a professora mandar um recado à sua mãe.

Também fazia muito tempo que eu não ouvia falar nesses eventos, porque atravessamos uma época na qual os aglomerados sociais têm sido interditados. Resolvi, por causa dessa conversa com a menina, escrever sobre esse evento cultural e disse-lhe que o faria. Ela pediu-me que a citasse. Uma vez que tenho estado a leccionar Técnicas de Expressão, tentando estimulá-la a escrever e a ser metódica, a ela e aos seus colegas, porque esse é também o meu dever, cá está um texto inspirado nessa conversa.

Consultando o Dicionário Changana-Português de Bento Sitoi, verifiquei que, nessa língua, se escreve xìtikì. E, por esta língua e o ronga serem inteligíveis, fui também ver se a mesma palavra existia nessa língua. Então, verifiquei que, no Dicionário Ronga-Português, ela vem grafada xitíki. Em ambas línguas significa “quota em dinheiro com que contribuem os membros de um grupo em benefício de um desses membros, de maneira rotativa”. Entretanto, tenho ouvido a mesma ser aplicada em contextos que não envolvem dinheiro. Por causa disso, decidi contactar alguns machanganas e rongas, para conhecer outros significados ligados à etimologia da palavra.

Disse-me um machangana, que na região na qual nasceu, há alguns anos, porque não havia moeda, fazia-se uma espécie de xitíke, a que se chamava tsima. E, compulsando os dicionários acabados de referir, verifiquei que essa palavra só consta do Dicionário Ronga-Português, com o sentido de “trabalho agrícola, ou outro, em moldes de apoio mútuo, executado em grupo (geralmente acaba em festa custeada pelo anfitrião; o trabalho também pode ser feito em troca de comida ou bebida)”.

Há, portanto, nas palavras xìtikì, xitíki e tsima um sentido de apoio ou de interajuda. Elas acabam, significando o mesmo, com a diferença de que numa há envolvimento de valores monetários e na outra, não. Subsiste nelas a ética do cuidado pelo outro, acima de tudo, do compromisso com o outro. É uma questão de honra e de cidadania.

 

Xitíkis pré-definidos
Xitique. Moçambique

“Uma vez que ‘a união faz a força’, tem sido possível utilizar-se esses valores para fazer várias coisas que sozinho, um indivíduo não consegue alcançar.” Foto: retirada do vídeo “Xitique, a nossa poupança“, Félix Mambucho, Comundos /Youtube, creative commons

 

O sentido do xitíki referido por Dilma é um grupo de mulheres juntar valores monetários, em igual quota. Definem uma periodicidade para que cada um dos seus membros receba o valor acumulado; e o exercício se repete em igual período, no mesmo montante, para que um outro membro receba o valor e assim sucessivamente se repete o exercício, a fim de que todos os membros sejam contemplados. Em alguns grupos, no dia da entrega do valor, as pessoas juntam-se e fazem uma refeição juntas. Utiliza-se parte desse dinheiro para o efeito. A outra é guardada por quem a recebeu, para os fins que desejar.

Uma vez que “a união faz a força”, tem sido possível utilizar-se esses valores para fazer várias coisas que sozinho, um indivíduo não consegue alcançar. Há quem compre materiais de construção para conseguir construir uma casa, há quem compre louça, carro, faça uma viagem, etc. Cada um adquire o que precisa, mas verdade seja dita, há xitíkis realizados com pré-definição ou seja, uma condição que não pode ser alterada. Se o xitíki tem a condição de ser para comprar louça, só pode ser para esse fim. Se for para comprar um carro ou materiais de construção, que esse seja o fim. Se for para construir uma casa, também só pode ser para isso. E implicitamente, o membro do grupo é controlado pelos restantes membros, para que cumpra com a finalidade destinada ao valor. Tem sido uma boa forma de crescimento para alguns. Mas, também deve dizer-se, há quem não goste de participar desses grupos, por não confiar que lhe chegue a vez, sem ter havido problemas de incumprimento por parte de alguém ou porque, simplesmente, tem como acumular dinheiro pessoalmente.

Tenho também visto esta palavra a ser utilizada em outros contextos como casamentos e óbitos. Os casamentos e os funerais, nas culturas africanas, são cerimónias que envolvem mais do que a família directa do nubente ou do defunto. Por comportarem muita gente, nem sempre é fácil fazer a gestão do evento sem apoio de familiares. Então, alguns fazem um xitíki para suportar as despesas decorrentes disso.

Já ouvi a palavra a ser extrapolada do sentido original de contribuição. Ouvi-a utilizada para significar a chegada da vez de algo acontecer, como a morte e necessidade de apoio, para custear as despesas de funeral. Certa vez, tendo falecido alguém num bairro, os residentes solicitaram o contributo de vizinhos, tendo alguns recusado e outros aceite. Nesse contexto, disse-se que o xitíke da morte era rotativo, em alusão ao facto de que quem não tivesse contribuído iria precisar do contributo dos outros, em devido tempo, quando um infortúnio lhe batesse à porta, porque, certamente, um dia, algum ente querido dessa pessoa faleceria. Neste caso, trata-se de um xitíki compulsivo ou automático, ou seja, sem ser necessária uma mão humana, a morte acaba chegando à casa de qualquer um. E quem não se tiver predisposto a ajudar aos outros em situação similar, também não é ajudado.

 

Comer carne na feitiçaria

Essa palavra já foi também empregue em contextos como na feitiçaria, na qual se acredita que os feiticeiros “comem carne” em grupo. Caso um deles arranje uma vítima à qual sugar para lhe deglutir a carne, deverá partilhá-la com os outros feiticeiros, seus colegas. Quem não o faça, sofre represálias. Carne é uma metáfora, porque se acredita que os feiticeiros se apossam do corpo de alguém e o consomem. Mas ingestão não é de carne física. A vítima adoece e é o seu espírito que é consumido. Quem conhece essa filosofia, acredita que assim seja. Um outro feiticeiro que, também encontre uma outra carne, deverá consumi-la com os seus colegas, sob pena de que, sabendo que se alimenta sozinho, é banido da comunidade.

A mim me parece que na academia, os professores passam pelo mesmo processo que o dos feiticeiros. Isto, porque os decanos devem, em devido tempo, ir passando saberes aos docentes mais novos. Devem passar-lhes as fórmulas para fazerem o feitiço. É uma espécie de xitíki no qual chega a vez dos mais novos de serem eles os feiticeiros, de ocuparem os lugares dos professores mais conhecedores ou dos decanos. E eles, estes últimos, também deverão fazer o mesmo que os seus antecessores, quando chegar a vez aos seus sucessores. Mas vale lembrar que existem os feiticeiros ou os decanos que “não largam o osso”, tal como no xitíki há quem não pague a quota. Esta coisa da cidadania tem muito o que se lhe diga!

Nestes dias, tenho estado a ler 21 lições para o século XXI, de Yuval Noah Harari. Num dos capítulos do livro, contrariamente ao que eu supunha (que cada vez mais as pessoas no mundo se vão desagregando de grupos, porque suportar relações humanas é difícil), leio, com alguma simpatia que, afinal, ainda temos necessidade de nos agregar, o que é bom. É humano.

Nesse livro, do qual retirei o excerto que constitui epígrafe do presente texto, Zuckerbeg fala de gregariedade, sobretudo em ambiente virtual, mas destaca necessidades essenciais aos seres humanos: estar juntos e partilhar. Faltará aliarmos a este movimento de encontro entre pessoas, a possibilidade de colocá-las em “comunidades com sentido”, incluindo-se os ciber-analfabetos e os info-excluídos. Só assim é que, juntamente com Zuckerberg estaremos a xitíkar e a tsimar plenamente; já que alguns de nós, os info-incluídos, por aderirmos à plataforma de Zuckerberg, já estamos a cumprir parte desse xitíke. E estamos gratos a Zuckerberg por ter salvo parte da humanidade, permitindo vender, encontrar pessoas, teletrabalhar, sobretudo em tempos da pandemia da covid-19 e outros tempos. Mas, como dizia Almada Negreiros, “ainda nos falta salvar a humanidade”; pois o info-excluídos são a maioria. Cuidar e incluir continuam a ser desafios urgentes.

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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