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Programa Eco Igrejas Portugal. Foto DR
No website Eco Igrejas Portugal, há recursos, textos explicativos, módulos de formação e muito mais. Foto: Direitos reservados

Eco Igrejas já existe

Comunidades cristãs ficam sem desculpas para adiar conversão ecológica

| 24/10/2025

A partir desta segunda-feira, 27 de outubro, deixa de haver desculpas. As pessoas e as comunidades que quiserem iniciar um processo para adotar um estilo de vida centrado no cuidado com a criação têm agora um instrumento precioso para se pôr a caminho. É o Eco Igrejas, um website aberto onde podem encontrar tudo aquilo de que precisam: clarificação de conceitos, notícias sobre o que outros fizeram e sobre eventos futuros, ferramentas para realizar diagnósticos e conselhos para reduzir a sua pegada carbónica.

O Programa Eco Igrejas Portugal é apresentado este sábado, 25 de outubro, em Lisboa, com o objetivo de “envolver igrejas e comunidades de fé no caminho da sustentabilidade e do cuidado com a criação”. Oferece recursos, propõe textos explicativos, tem módulos de formação, mapa dos aderentes, agenda de eventos, informações sobre a ecoteologia, um consultório para tirar dúvidas e tudo mais que for preciso para a tomada de consciência comunitária sobre o que em cada uma será preciso mudar para se tornar verdadeira amiga do ambiente.

Às comunidades que vierem a cumprir determinados critérios e boas práticas de sustentabilidade, eficiência energética, gestão de recursos e minimização de impactos ambientais será entregue uma “certificação Eco Igrejas”, selo que reconhece o percurso feito e atesta os progressos realizados.

“O sítio apresenta orientações e oferece ferramentas para as comunidades se tornarem mais conscientes dos desafios que o cuidado da criação lhes coloca. Mas não vai transformar nada. Terão de ser as pessoas e as comunidades a percorrer o seu caminho de mudança. No sítio apenas encontrarão sugestões e utensílios para alterarem os seus comportamentos”, diz ao 7MARGENS Marcial Felgueiras, coordenador de A Rocha — Associação Cristã de Estudos e Defesa do Ambiente, uma das instituições mais ativas no consórcio que construiu o Eco Igrejas.

O programa levou quatro anos a ser montado, não só porque “a equipa era pequena”, mas também porque “foi preciso integrar as sensibilidades de todas as comunidades cristãs envolvidas, amadurecer e polir todos os documentos para que respeitassem a linguagem e a abordagem própria das várias confissões”, explica Felgueiras.

Foram precisos “quatro anos de trabalho muito profissional” dos sete membros da equipa mais permanente, com muitos contributos de duas dezenas de outros voluntários e muitas consultas à comunidade académica para concretizar tudo . A estes recursos, foi preciso juntar 15.000 euros e manter os promotores, ou seja, A Rocha — Associação Cristã de Estudos e Defesa do Ambiente, a Aliança Evangélica Portuguesa, o COPIC – Conselho Português de Igrejas Cristãs, a Conferência Episcopal Portuguesa e a REDE Cuidar da Casa Comum, sempre alinhados e contentes com os avanços do projeto.

 

De lento a explosivo

Iniciativa do Programa Eco Igrejas no Reino Unido. Foto DR

Iniciativa do Programa Eco Igrejas no Reino Unido, em que foram plantadas 1.200 árvores, uma por cada residente naquela localidade. Foto: Direitos reservados

E agora que o projeto vem a público que expectativas sobre o seu impacte? Marcial Felgueiras está confiante: “Isto vai crescer como cresceu nos outros países onde foi lançado e que nos serviram de modelo: lentamente no início, seguido de uma explosão nos anos seguintes. O que é bom: assim temos tempo para melhorar e manter a capacidade de responder a todas as questões que nos sejam colocadas pelas comunidades que aderirem”.

O Eco Igrejas foi lançado no Reino Unido em 2016 e hoje são mais de 3.000 as comunidades que continuam a progredir em consciência ambiental e comportamentos sustentáveis. Disponível em finais de 2017 em França, o programa conta atualmente com um milhar de comunidades envolvidas. Durante os primeiros dois anos a proposta não cativou mais de 50 comunidades na Nova Zelândia, mas agora são mais de 500 participantes. Quarto país a disponibilizar o programa, Portugal pode ser um bom teste para se perceber até onde a permanente atenção do Papa Francisco a estes temas sensibilizou a opinião católica.

O percurso de certificação que o programa propõe passa pelo uso de uma ferramenta prática de diagnóstico que permite às comunidades interessadas verificarem “onde estão” em termos da sua consciência e prática ecológicas. Em simultâneo são feitas propostas de gestão ambiental, é oferecida formação e sugestões de melhoria contínua. É um caminho que Marcial Felgueiras estima poder ser “percorrido em três anos” para “dar espaço ao amadurecimento da comunidade”.

O objetivo central é apoiar as igrejas, numa interação entre elas e delas com a equipa permanente, a integrar práticas sustentáveis em três dimensões fundamentais: ambiental, social e espiritual. E, por outro lado, permitir que os princípios ecoteológicos sejam integrados na vida comunitária, através da disponibilização de ferramentas para monitorizar a pegada carbónica, do acompanhamento contínuo e da promoção do reconhecimento público das organizações participantes.

Para retirar proveito de tudo quanto o sítio oferece é preciso ser cristão? “Bem – responde Felgueiras –, qualquer grupo ou associação pode sempre encontrar algo de útil e interessante para si, mas, na verdade, a plataforma foi construída a pensar nas instituições cristãs e o acompanhamento espiritual é para nós uma questão muito relevante”. Para ele, o que está em causa é “como toda a vida de fé está atenta ao cuidar da casa comum, como a pregação e a educação cristã fomenta o respeito e o amor pela criação” de tal forma que determinem práticas, não só individuais como comunitárias, amigas do ambiente.

É com essa intencionalidade que o programa se dá sete objetivos: promover a ética da sustentabilidade contida nos princípios ecoteológicos do cristianismo na prática concreta das comunidades cristãs; oferecer formação e recursos que ajudem a compreender o papel de cada um na proteção da criação; divulgar boas práticas ambientais; aproximar as igrejas de especialistas em ecologia, promovendo recomendações práticas para uma transição sustentável; valorizar o compromisso ambiental das igrejas; gerar impacte positivo, envolvendo igrejas e sociedade em ações concretas e mensuráveis que cuidem do ambiente; e incentivar estilos de vida mais simples e sustentáveis, alinhados com a ecologia integral.

 

Esperança? O mundo já foi salvo

planeta, casa comum, Miguel Veiga

Criação de alunos do Colégio Sagrado Coração de Maria (Lisboa) para o encontro “Também somos Terra”, Almada, 2018. Foto © Miguel Veiga

 

Lançado duas semanas antes do início da cimeira do clima, o Eco Igrejas surge num tempo em que a causa do ambiente é desprezada pela Administração Trump e por outros líderes. Felgueiras está consciente destas dificuldades a nível global. “Há Chefes de Estado que estão nos antípodas do cuidado com a criação… não há, de facto, razões para estar otimista”, mas – confessa Felgueiras – “isso não mata a minha esperança. Ela continua enorme, porque não se baseia na nossa capacidade de mudança, está em Cristo que mantém e suporta todo o universo. Por Ele o mundo já foi salvo”.

A esperança que alimenta a disponibilidade diária de Marcial Felgueiras não descarta a exigência de transformação dos nossos costumes: “Temos todos a responsabilidade de moldar os nossos comportamentos de forma a sermos cooperantes com o Deus que criou tudo por amor.” Mas o que o anima é “o louvor ao Criador e a certeza de que o mundo e a humanidade estão em boas mãos: as Suas”.

Para todos os outros que não partilham desta convicção espiritual, os desígnios da ecologia integral podem ser “não uma missão a cumprir”, mas o simples reconhecimento de que “sempre que fazemos algo em prol do ambiente, fazemos também algo que beneficia as nossas finanças, por gastarmos menos, e, ao mesmo tempo, melhoramos as relações interpessoais e comunitárias”.

Para aqui chegar, os patrocinadores deste projeto inspiraram-se “nos apelos e reflexões de várias tradições cristãs e de muitos líderes mundiais, como o Conselho Mundial das Igrejas, o patriarca ortodoxo Bartolomeu, o [anterior] arcebispo de Cantuária (primaz anglicano) Justin Welby, a Aliança Evangélica Mundial, o Papa Francisco com as encíclicas Laudato Si’ (2015) e Fratelli Tutti (2020), sem esquecer os documentos da assembleia ecuménica de Basileia de 1989, sobre Justiça, Paz e Integridade da Criação, e a Charta Oecumenica de 2001”.

Coerente com estes princípios, o programa só entregará o seu “Certificado Eco Igrejas” àquelas comunidades que, para além de terem alcançado uma importante redução da sua pegada carbónica e tenham progredido no respeito pelo ambiente, assumam também seis compromissos para o seu presente e futuro.

Compromissos a começar por “reconhecer que o cuidado com a criação faz parte integrante da identidade cristã e responde ao chamamento bíblico ao cuidado, ao amor ao próximo e à justiça” e a acabar no ser capaz de “integrar os princípios de sustentabilidade na vida comunitária, no ensino e nas práticas de gestão, alinhando a ação da igreja ou comunidade de fé com os princípios espirituais, sociais e ambientais do programa”, passando por “promover a educação e a formação da comunidade de fé nas áreas de ecoteologia, gestão ambiental e sustentabilidade”.

Além destes compromissos gerais, outros três mais concretos são também exigidos: “participar, sempre que possível, em ações de formação, encontros e workshops dinamizados pelo Eco Igrejas Portugal”; “disponibilizar informações e dados relevantes para a monitorização do percurso de certificação, (…) permitindo a avaliação contínua do progresso da comunidade de fé”; e, claro está(!), “divulgar publicamente a adesão ao programa Eco Igrejas Portugal”.

É um caminho para três anos que agora começa…

 

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