Depois da publicação dos dois primeiros textos sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), publicamos hoje o terceiro texto de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião.
Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria

Fra Angelico, Anunciação, Museu do Prado, Madrid.
Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo
Um dos grandes mistérios da Trindade e um dos mais controversos artigos do Credo cristão é sem dúvida a encarnação, a presença única de Deus em Cristo. Jesus, o Filho Unigénito de Deus faz-se carne, é concebido pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1:35). Aquele que é o Deus totalmente transcendente, omnipotente, omnipresente e omnisciente é gerado no seio da santíssima Virgem Maria sem qualquer colaboração humana. No prólogo do evangelho de João, certamente fruto de uma cristologia mais avançada e que dispensa qualquer narrativa da infância de Jesus, ir-se-á mais longe na afirmativa de que o próprio Deus, o Verbo (Καὶ ὁ Λόγος), se fez carne (João 1:14) e habitou (ou fez morada) entre nós.
Esta declaração tem também por fundo a refutação a muitas das ideias gnósticas e maniqueístas já em curso, respetivamente a partir do século II e III. Além da negação de que o Deus totalmente transcendente tenha criado todo este universo material, os gnósticos negavam igualmente qualquer possibilidade de o mesmo encarnar num corpo humano porque, segundo eles, toda a matéria é ontologicamente má. Afirmavam igualmente que o Espírito Santo tinha unicamente descido sobre o homem Jesus por ocasião do seu batismo. Também os maniqueístas dividiam o mundo entre o Bom (ou Deus), e o Mau (ou o Diabo): a matéria é, tal como defendiam os gnósticos, intrinsecamente má.
Surgiram outras propostas cristológicas consideradas heréticas por alguns pais da Igreja, entre elas, a do docetismo – a doutrina antecedente do gnosticismo que surgiu no final do século I e que defendia que o corpo de Jesus era uma aparência, ilusão – foi condenada no concílio de Calcedónia em 451.
Um dos pontos sublimes deste grande mistério da encarnação, é sem dúvida este mergulho de Deus na nossa história. O Deus totalmente Outro, totalmente transcendente, torna-se imanente por intermédio de Jesus. E adensando ainda mais esse mistério, o infinito Deus se esvazia na nossa carne, nas nossas contingências, nos nossos limites: Jesus é homem experimentado em dores e que sabe o que é sofrer, como já havia profetizado Isaías (capítulo 53), e isso, no entender de muitos teólogos, trará contributos para a nossa compreensão do sofrimento humano.
Sem entrarmos em grandes discussões acerca do mistério do mal, tarefa altamente especulativa, podemos afirmar que na incarnação Deus sofre connosco; talvez se deva fazer aqui uma moratória à hermenêutica reformada de Romanos 8:28, onde o apóstolo Paulo afirma: “Sabemos que, para aqueles que amam Deus, todas as coisas funcionam para [o] bem – para aqueles chamados segundo o seu desígnio”. A encarnação de Deus possibilita-nos olhar para Deus como alguém que, movido pela paixão infinita do Seu amor, entende o nosso sofrimento, sofre connosco e por nós, até ao horizonte escatológico em que Ele próprio limpará todas as lágrimas derramadas e eliminará todas as dores sofridas (Apocalipse 21:4).
A teóloga Barbara Taylor afirma que, numa era de informação excessiva como é a nossa, as pessoas necessitam cada vez mais da prática da encarnação e pela qual Deus salva as vidas daqueles cujas convicções intelectuais se têm tornado secos como o pó, para quem o pão da vida quase se esgotou e que desejam ardentemente conhecer mais Deus nos seus corpos. Somos deveras literalmente inundados de informações acerca de Deus, aliás muitas vezes contraditórias e fruto das muitas imagens distorcidas que vamos criando (1 Coríntios 13:12).
Numa linguagem sacramental, podemos afirmar que necessitamos não tanto de conhecimento abstrato acerca de Deus, mas mais do Deus encarnado, o Pão que veio dos Céus repartido por todos nós e que nos é dado a comer (João 6:48-53).
Nasceu da Virgem Maria

Matthias Stomer, Natividade, (à volta de1640).
Muito pouco se afirma acerca da mãe do Senhor nas escrituras. As passagens mais conhecidas são os relatos da natividade de Mateus e de Lucas, o milagre das Bodas de Caná no evangelho de João e outras breves passagens, incluindo a sua presença aos pés da cruz (João 19:25-26) e a passagem onde é mencionada como estando presente com os discípulos e irmãos de Jesus no cenáculo após a ascensão (Atos 1:14).
Talvez uma das passagens mais marcantes seja a da anunciação de Lucas. Maria é uma jovem virgem (parthenos) a quem o anjo Gabriel anuncia que irá dar à luz um filho sem ter qualquer relacionamento com um homem. Tal como nos dias de hoje, não deixa de ser curioso que nas primeiras décadas do cristianismo muitos pusessem em causa eventos desta natureza e que os refutassem. É verdade que nos primeiros escritos do Novo Testamento, as cartas de Paulo, nunca seja referida a virgindade de Maria. Paulo apenas diz que quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher (Gálatas 4.4). Até o próprio evangelho de Marcos, consensualmente o mais antigo de todos, nada diz acerca do nascimento virginal de Jesus. Independentemente das posições que se possam ter acerca deste episódio, a razão humana jamais poderá compreender aquilo que só Deus pode fazer, o de alterar completamente as leis naturais que regem os fenómenos ordinários deste nosso universo físico.
Qualquer mulher, estando noiva e aparecesse grávida de outra pessoa, seria julgada e condenada por adultério, passível de apedrejamento. Mas Maria, a escrava do Senhor (δούλη Κυρίου) e ciente de todos os riscos que corre, entrega-se totalmente nas mãos de Deus e aos Seus desígnios. O testemunho da mais bem-aventurada de todas as mulheres, aliás registado no Magnificat (Lucas 1:46-55), convida-nos a uma profunda reflexão acerca do serviço. Deus prefere sempre os humildes, os insignificantes, os que são rejeitados e abandonados pela sociedade. Maria, pela sua humildade, abandono total nas mãos do Seu criador, torna-se assim um modelo do discipulado de qualquer cristão.







