América Latina

Conferência eclesial é “laboratório” da via sinodal de Francisco

| 22 Nov 21

Está a decorrer deste este domingo e durante toda a semana, na capital do México, aquela que é, provavelmente, a primeira grande concretização da Igreja sinodal sonhada e desejada pelo Papa Francisco – a I Assembleia Eclesial da América Latina e das Caraíbas (AEALC), com a participação de perto de 1200 participantes.

Foto © Direitos Reservados

 

Por detrás destes representantes estão muitos milhares de outros cristãos e outras pessoas que participaram na fase de escuta que se desenrolou entre Abril e Agosto deste ano. Quase 70 mil, segundo afirmou na sessão de abertura o presidente da CELAM – Conselho Episcopal Latino-Americano, que é diretamente responsável pela organização deste mega-processo. Desse número, 47 mil fizeram-no no âmbito de grupos e comunidades de igrejas locais, 14 mil em fóruns temáticos organizados localmente e 8.500 em iniciativas ou contactos individuais.

Factos dignos de registo: a esmagadora maioria (93 por cento) encontram-se nos seus países, devido ao contexto pandémico, tendo os organizadores construído um complexo sistema de participação a distância, pensando sobretudo nos trabalhos de grupos. Um outro aspeto significativo refere-se à condição e qualidade desses participantes: 40 por cento são leigos, 21 por cento são padres e diáconos, 20 por cento são religiosos e religiosas e outros tantos são bispos. Membros de outras confissões religiosas são em número residual – cerca de uma dezena de representantes. Numa análise de outros dados sociodemográficos entretanto divulgados, percebe-se que a presença de jovens, com 6 por cento, é bastante limitada. Perto de dois terços dos membros da Assembleia (64,7%) tem mais de 50 anos.

A Assembleia cujos trabalhos se iniciaram nesta segunda-feira, dia 22, culminam um processo que teve início em Janeiro deste ano, quando, em resposta à sugestão que lhe foi feita de uma nova conferência geral do episcopado latino-americano, o Papa Francisco respondeu apontando o caminho de uma via sinodal – uma conferência de todo o Povo de Deus.

Essa via, no entanto, tinha marcos fortes nas últimas décadas: para não ir mais atrás, a Conferência da Aparecida, em 2007, cujo documento programático tem a mão do então cardeal Jorge Mario Bergoglio, e, em 2018, o Sínodo extraordinário da Amazónia foram caminhos que traduzem a marca de Francisco, mas exprimem também o prólogo dos preparativos do atual Sínodo que envolve todo o povo de Deus.

Esta influência da Igreja Católica da América Latina na Igreja universal é salientada em vários setores da Igreja, como dá conta o jornalista inglês e biógrafo do Papa Austen Ivereigh, numa entrevista dada ao site do Instituto Humanitas da Unisinos e publicado também, no essencial, pelo site do Vaticano.

Para ele, que está também a participar presencialmente na Assembleia no México, e na esteira de declarações de alguns teólogos, “a Igreja latino-americana hoje é a Igreja fonte da Igreja universal, no sentido de que o resto da Igreja reflete este dinamismo em certa medida”.

Esta ideia de fonte inspiradora ou laboratório está a concitar as atenções de figuras da Igreja como o cardeal Mario Grech ou o cardeal Hollerich, que vieram expressamente participar e aprender com a longa experiência de escuta alargada e de colegialidade, que a Igreja desta parte do mundo há bastante tempo desenvolve.

Numa mensagem enviada à Conferencia, o Papa Francisco voltou a realçar a importância da escuta, desejando que, no intercâmbio que ela permite se possa “escutar a voz de Deus  até escutar, com Ele, o clamor do povo, e escutar a vos do povo até respirar nele a vontade a que Deus nos chama”.

 

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