Conferências de Maio virtuais do CRC: a tragédia descarnada e a igreja vazia, visível na rua

| 26 Mai 20

Centro de Reflexão Cristã. Conferências de Maio.

O debate sobre “Tempo de Lázaro”: Carla Madeira (moderadora), Inês Espada Vieira (CRC), fr. Fabrizio Bordin, Guilherme d’Oliveira Martins e Isabel Jonet

 

A pandemia obrigou a Igreja e os crentes a sair à rua, através dos centros sociais e outras instituições, deixando vazios os lugares de culto, mas assumindo a sua missão. A ideia é defendida por frei Fabrizio Bordin, franciscano, num de dois debates gravados em vídeo que este ano substituem as tradicionais Conferências de Maio do Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa.

Os debates, a cujo conteúdo o 7MARGENS teve acesso em primeira mão, inauguram também o canal do CRC na rede social de vídeos YouTube. Gravada no passado dia 20, a conversa sobre “Tempo de Lázaro”, em que participa Fabrizio Bordin, conta também com as intervenções de Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, e Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian e presidente do Centro Nacional de Cultura (e que tem uma crónica regular no 7MARGENS).

O padre Fabrizio, que trabalha nas paróquias que englobam o bairro de Chelas, em Lisboa, diz que a situação de pandemia levou muita gente a “bater à porta” da paróquia, por causa do desemprego ou da perda de rendimentos. “Os centros não fecharam, ficaram abertos”, diz, e todos os serviços de apoio domiciliário, banco alimentar, centro de dia, apoios à saúde aos idosos que estão sozinhos foram activados. “A comunidade paroquial tornou-se visível na rua, enquanto a igreja ficou vazia”, afirma frei Fabrizio no debate.

Isabel Jonet, que há 27 anos trabalha no Banco Alimentar Contra a Fome, confirma o aumento do número de pedidos de ajuda nas instituições com as quais o BACF trabalha. Admitindo que “ninguém antecipou as consequências sociais e económicas”, Jonet acrescenta que “não haveria alternativas”.

“Pela primeira vez em Portugal, o sector social correu o risco de soçobrar”, acrescenta Isabel Jonet. E foi essa situação, a par do crescente número de pedidos de ajuda, que levou mesmo o Banco Alimentar a alterar um critério de acção que manteve ao longo destes anos: “Entendíamos que política e assistência não se deveriam misturar” e por isso o Banco Alimentar trabalhava praticamente só com instituições de solidariedade social. Perante o quadro devastador do que está a acontecer, o BACF decidiu avançar para uma rede de emergência alimentar, alargada às autarquias.

“É preciso neste momento tomarmos consciência de que o outro e os outros precisam de nós da forma mais próxima e mais inteligente”, diz, a propósito, Guilherme d’Oliveira Martins. Neste “tempo de Lázaro, tempo de confinamento da morte e de regresso à vida, tem de se “encontrar para esta crise a ideia de co-imunidade” – não como a imunidade de grupo de que se tem falado. Ou seja, é preciso “não cair na indiferença, precisamos de solidariedade”, compreendendo que a relação é fundamental.

Oliveira Martins cita o exemplo da educação para dizer que várias actividades não se podem fazer à distância: “A educação pressupõe aprendizagem” do conhecimento e esse processo só se consegue com proximidade. O responsável da Gulbenkian acrescenta que os últimos anos já “foram anos de agravamento das desigualdades” e que “quem está hoje na linha da frente não são os que considerávamos os de sucesso ou a elite”, e que deve prevalecer a ideia “do amor, de ir ao encontro de quem precisa de nós”.

 

Números retiraram espaço de humanidade

Centro de Reflexão Cristã. Conferências de Maio.

José Leitão (CRC), Miguel Raimundo (moderador), p. Nélio Pita, Alfredo Teixeira e Helena Marujo no debate sobre “o cuidado do outro em tempo de pandemia”.

 

Com o título genérico A esperança e o amor em tempo de covid-19, as duas Conferências de Maio virtuais ocorrem no ano em que o CRC celebra os seus 45 anos. No outro debate, gravado a 19 de Maio, com o tema “O cuidado do outro em tempo de pandemia”, participam o antropólogo Alfredo Teixeira, professor na Universidade Católica, a psicóloga Helena Marujo e o padre Nélio Pita, provincial dos padres vicentinos (Congregação da Missão).

Helena Marujo começa por referir a “tragédia descarnada” que estamos a viver: os números diários oriundos de todos os cantos do mundo “retiraram-nos um espaço de humanidade”, diz, citando uma frase de um filme: “As lágrimas humanas devem ser contadas uma a uma.”

A psicóloga, que tem investigado as questões da felicidade individual e colectiva, num mundo preocupado com o tema, diz que o cuidado pelo outro passa por olhar para a organização da economia. Isso deve ajudar-nos a “reflectir como podemos alimentar modelos de maior fraternidade, que a ciência tem mostrado que é o que nos dá mais felicidade”, defende.

Alfredo Teixeira defende, na sua intervenção, que a distância é “o lugar de maior densidade” com que nos podemos confrontar. “Temo que a distância social não seja a expressão adequada para o que tivemos de viver: confundir distanciamento físico com distância social parece-me um pouco abusivo”, afirma.

O antropólogo recorda: “No passado, estas experiências construíram medos e formas de exclusão bastante agressivas”. E argumentando que “o inimigo não é o outro, o inimigo é o vírus”, acrescenta que o “distanciamento físico reconstrói novas formas de aproximação social”.

Nélio Pita centra parte da sua intervenção no que há de especial no universo religioso que permite resistir a adversidades como a pandemia. E enumera três factores, sendo o primeiro deles a experiência comunitária, com a “dimensão do corpo, de pertença a uma comunidade”.

O segundo factor, muito presente no discurso cristão, é o da “valorização da vida: a vida com sentido, mesmo apesar das dificuldades”. Para os cristãos, a vida tem sempre valor, seja criança, seja idoso e deve-se lutar “contra a emergência de sentimentos de morte e negativos”. Finalmente, a experiência de um “Deus presente, que vive ao nosso lado” também é um elemento importante, acrescenta.

As actividades do CRC podem ser acompanhadas, além do novo canal YouTube, também na rede Facebook e no blogue da associação.

 

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