Confesso que morro…

| 18 Nov 21

“Morri no abandono das crenças, nos desencantos e desenganos à procura de luz na superfície do breu.” Foto © Kat Smith / Pexels

 

Confesso que morro.
Morro em semblantes irresgatáveis,
gestos pardos em quedas sinistramente abruptas.
Morri nas entranhas da minha mãe
quando fui cuspida ao mundo
e hei de morrer no louco abismo desse voo.

Confesso que morro
para sobreviver às horas de tristeza.
Estilhaços meus jogados em campas esquecem-se de ser,
desmemoriando gotas volúveis em bocadinhos de resto dissipados.

Morri no abandono das crenças,
nos desencantos e desenganos à procura de luz na superfície do breu.
Lágrimas minhas urgem a inexistência como alicerce dos alívios
e, ao menos, eu morro.
Ao menos aprendi a morrer para silenciar a matéria egóica em porção humana,
para abraçar o divino e recair em tentações.
Na condição da morte,
morro porque sei que a abstração é o absoluto e se desprove de ilusões sólidas.

Confesso que morro sem medo nem angústia
porque o único desassossego é estar vivo.
Morro todos os dias a cada instante
e morrer, ao menos, alegra-me;
traz-me de volta o amor, as flores, o odor da divindade, a fraternidade e os mistérios celestiais.

Confesso que morro, confesso.

 

Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

 

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