
A visita do Papa Francisco a Kiev é, por enquanto, impossível devido a questões de segurança e também pela desconfiança que muitos ucranianos sentem em relação ao Papa por causa de alguns dos seus atos e comentários públicos disse Vitaliy Krivitskiy, bispo de Kiev do rito latino (católico) em entrevista ao Avvenire de 17 de junho.
Sem especificar a que se referia, Krivitskiy foi muito claro na entrevista concedida ao jornalista Giacomo Gambassi, do jornal oficial do episcopado italiano: “(..) em comparação com o início do conflito, uma parte da população não acolheu algumas das palavras do Papa que considerou erradas. Portanto, também é necessário reconstruir um ‘consenso’ em torno da sua jornada [a Kiev]. Tudo isso me faz dizer que levará tempo [até tal visita ser possível]”.
Francisco tem criticado o comércio de armas por incentivar a guerra, o que alguns observadores tomaram como oposição ao fornecimento de armas à Ucrânia pelas democracias ocidentais. Por outro lado, também o gesto de solicitar a famílias de duas mulheres, uma russa e uma ucraniana, para transportarem a cruz de Cristo numa das estações da via-sacra da última Sexta-feira Santa foi muito mal recebida pelos ucranianos [ver 7MARGENS].
Na sua entrevista ao Avvenire, Vitaliy Krivitskiy classificou a intenção do papa de “estar no meio de um povo que sofre” como sendo “um motivo de grande esperança” que “daria mais coragem” ao povo ucraniano que “sente a sua proximidade” manifesta “nos seus repetidos pedidos de cessar-fogo” e nos “gestos concretos de múltiplos envios de ajuda humanitária”.
“A Santa Sé pode desempenhar um papel fundamental como mediadora entre nós e a Rússia. As negociações precisam de ‘conciliadores’ e o Papa é ‘super pares’, embora alguns aqui já não o considerem como tal” – considerou o bispo de Kiev, que se afirmou convicto de que “o Pontífice e toda a diplomacia vaticana estão a lançar as sementes para criar um ambiente de diálogo que é pré-requisito para a abertura das negociações”.
As reflexões de Francisco que magoaram os ucranianos
As declarações do Bispo Krivitskiy sobre a não oportunidade da visita de Francisco corroboram as críticas do arcebispo Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica na Ucrânia, que num vídeo recente afirmou: “as causas desta guerra estão dentro da própria Rússia. (…) “A agressão da Rússia contra a Ucrânia é completamente voluntária. Qualquer pessoa que pense existir alguma causa externa que tenha provocado a agressão militar da Rússia ou está nas garras da propaganda russa ou está simples e deliberadamente a enganar o mundo.”
Shevchuk reagia à conversa de Francisco com os editores do jornal jesuíta La Civiltà Cattolica publicada nesta revista a 14 de junho e em que o Papa afirmou: “Alguns meses antes do início da guerra, conheci um chefe de Estado, um homem sábio, que fala muito pouco, muito sábio mesmo. (…) disse-me que estava muito preocupado com a forma como a NATO se estava a mover. Perguntei-lhe porquê, e ele respondeu: ‘Eles estão a ladrar às portas da Rússia. E não compreendem que os russos são imperiais e não permitem que nenhuma potência estrangeira se aproxime deles’. E concluiu: ‘Esta situação poderá levar à guerra’. Esta era a sua opinião. A 24 de fevereiro, a guerra começou. Aquele chefe de Estado foi capaz de ler os sinais do que estava para acontecer.”
Nessa mesma conversa, Francisco acrescentou: “Aquilo a que estamos a assistir são a brutalidade e a ferocidade com que esta guerra está a ser levada a cabo pelas tropas, geralmente mercenárias, utilizadas pelos russos. (…) Mas o perigo é que só vemos isto, o que é monstruoso, e não vemos todo o drama que se está a desenrolar por detrás desta guerra, que talvez tenha sido de alguma forma provocada ou não impedida. E registo ainda o interesse em testar e vender armas. É muito triste, mas, no fundo, é mesmo isto que está em jogo.”
Prevendo o que poderia ser comentado sobre estas suas provocações, o Papa adiantou: “Alguém poderia dizer neste momento: mas o Papa é pró-Putin! Não, não sou. Seria simplista e errado dizer uma coisa desse género. Sou simplesmente contra a redução da complexidade à distinção entre os bons e os maus sem raciocínio sobre as raízes e interesses, que são muito complexos. Enquanto assistimos à ferocidade, à crueldade das tropas russas, não devemos esquecer os problemas, a fim de tentar resolvê-los.”
Já em maio, o Papa recusou, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, opinar sobre se era apropriado que outras nações armassem a Ucrânia, dizendo: “Não posso responder; estou muito longe. (…) Claro é que as armas estão a ser testadas naquela terra. (…) As guerras são feitas para isso: testar as armas que produzimos. O comércio de armas é um escândalo; poucos lutam contra isso.”









