Confinar o medo?

e | 21 Out 2021

pandemia; confinamento, quarentena, idosos, jardim,

“Muito do que eram os nossos apoios pré-covid eram de toque, do estar perto e do ir sem qualquer restrição, fosse quando fosse. Não somos dos que achamos que a sociedade ficou menos fraterna ou solidária.” Foto © Miguel Veiga

 

Todos sentimos o impacto da pandemia, seja por conhecermos alguma vítima ou algum familiar ter sido afetado, por termos ouvido dezenas de reportagens nos media sobre a crise económica ou até por, mais de um ano depois, ainda detestarmos as máscaras. Após quase dois anos de distanciamento, continua o receio de estar perto do outro, a tentação de evitar um café com alguém porque “não tem cuidado nenhum”, de nos afastarmos porque temos receio de levar o vírus para dentro das nossas casas. Que efeitos terá tudo isto na nossa dinâmica de socialização? E no dever e desejo de ajudar?

Começámos o que chamam a “melhor altura das nossas vidas” no pior cenário. A entrada na faculdade é uma etapa marcante na vida de qualquer jovem adulto. No nosso caso, com espírito académico a menos e Zoom a mais. Online não deveria ser a palavra que mais utilizaremos para descrever este acontecimento aos nossos netos. Mas assim será. Mesmo através de pixels, não nos podemos queixar da adaptação ao ensino remoto. Uma das implicações de ser Geração X é ter nascido com uma veia de informático. No entanto, o confinamento só veio provar que mesmo com o gene tecnológico sentimos a falta do calor humano. Foi ao perceber que a normalidade era digital que nos caiu a ficha. A pandemia veio para ficar, não vão ser só alguns meses de fim de semana prolongado, vamos ter de nos adaptar. Conhecemos os nossos colegas através do ecrã, criámos laços, memorizámos nomes… Mas não nos sentimos enquadrados no ambiente universitário. O ano passado pareceu uma simulação do que ainda está para vir. E foi dentro do Matrix que amadurecemos. Tornou-se uma anáfora dizer que a pandemia nos envelheceu, mas de facto é verdade. Física e mentalmente envelhecemos, mas privados de tardes a conviver, sessões de estudo na biblioteca e cafés entre aulas. Vivemos muito o “quando a pandemia acabar combinamos” e pouco o “a seguir a esta aula vamos…”

Não estivemos tão presentes como idealizámos, não ajudámos com o calor do abraço, não fizemos a diferença como imaginámos. Muito do que eram os nossos apoios pré-covid eram de toque, do estar perto e do ir sem qualquer restrição, fosse quando fosse. Não somos dos que achamos que a sociedade ficou menos fraterna ou solidária. Bem pelo contrário. Desde o início da pandemia que se tornou evidente que o ser humano é capaz de se mobilizar das formas mais inesperadas possíveis, desde sessões Zoom a concertos de Natal pela janela, passando ainda por entrega de alimentos à porta e mobilização através de fotografias nas redes sociais. Na luta pela qualidade da democracia, pelo desenvolvimento sustentável, na resposta aos apelos mediáticos de voluntariado em lares, a doar sangue – e aqui também a lutar contra a discriminação –, a doar alimentos, o ser humano mostrou-se capaz de aliar diferentes gerações, de questionar preconceitos, de trazer ao de cima a sua faceta mais solidária, mesmo numa situação que trouxe o medo para o centro das atenções.

O que aqui defendemos é que todo este vigor seja utilizado para quebrar a corrente de insegurança que ainda hoje nos faz recear sair para as ruas para ajudar quem vive nelas, que nos faz sentir claustrofóbicos num grupo de dez pessoas e que nos faz fugir do toque e do calor de ajudar.

Não estará na hora de confinar o medo?

 

Alexandre Abrantes Neves e Evelina Ungureanu são estudantes do 2.º ano de Comunicação Social e Cultural na Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) e membros da comissão promotora da Jornada Memória e Esperança, que acontece de 22 a 24 de Outubro em todo o país.

 

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