Confissões minoritárias à espera do telefonema do primeiro-ministro

| 8 Mai 20

Templo Radha Krishna, em Lisboa: as confissões minoritárias querem também ser ouvidas pelo Governo sobre a reabertura dos lugares de culto. Foto © Comunidade Hindu de Portugal

 

Alguns já escreveram cartas, outros lamentam a espera em que estão ou a confusão em que ainda se sentem. As confissões religiosas minoritárias querem também falar com o primeiro-ministro acerca do regresso dos cultos comunitários. Do gabinete de António Costa ainda não há resposta.

 

“Infelizmente não tivemos nenhum contacto do Estado por parte de ninguém, nem do primeiro-ministro nem de outra entidade”, diz ao 7MARGENS o presidente da Comunidade Hindu de Portugal, Kirit Bachu, a propósito da possibilidade de reabertura de celebrações religiosas comunitárias no fim-de-semana de 30-31 deste mês.

Também na Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), o seu presidente, António Calaím, percebe que António Costa esteja muito ocupado, mas dentro da federação de igrejas e comunidades evangélicas “há quem ache uma desconsideração” o facto de a AEP ainda não ter sido chamada e ouvida sobre o assunto.

“Não houve nenhum contacto até agora, temos estado à espera”, confirmou o presidente da Aliança, nesta quinta-feira, ao final da tarde, ao 7MARGENS, apesar de ter seguido uma carta para o gabinete de António Costa.

No país, 3,5 a quatro por cento da população identifica-se como evangélica. E, na região de Lisboa, essa percentagem atinge os cinco por cento, conforme os dados do último inquérito sobre prática religiosa, conduzido por uma equipa da Universidade Católica. Na zona da capital, os evangélicos são, mesmo, o grupo religioso que mais cresceu nos últimos anos.

“Temos mais de mil lugares de culto em todo o país, o que significa menos atenção” a um grupo religioso importante, defende o presidente da AEP, que calcula em cerca de 200 mil o número de crentes representados pela Aliança – a maior minoria religiosa de Portugal.

 

A primeira vez com mesquitas fechadas no Ramadão

“Continuamos confusos, pois não sabemos se podemos abrir o nosso templo no dia 31”, acrescenta o hindu Kirit Bachu. Isto apesar de o Governo ter anunciado que, no plano de abertura progressiva de espaços, os lugares de culto poderão, em princípio, e dependendo da evolução da pandemia de covid-19 em Portugal, reabrir a partir de 30-31 de Maio.

A questão é que há muitos pormenores práticos e regras de segurança a estabelecer e sem essa conversa inicial os hindus não sabem o que fazer. “Gostaríamos de ter sido contactados, tal como foram outras religiões.”

Entre os grupos religiosos minoritários em Portugal, os evangélicos, hindus e muçulmanos são os mais importantes, numericamente falando. E desses, apenas o presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Abdool Vakil, foi ouvido pelo primeiro-ministro, no dia 24 de Abril.

Este responsável muçulmano conta que na conversa, feita através de vídeo, referiu ao primeiro-ministro ser a primeira vez que durante o Ramadão, o mês mais sagrado do islão, os muçulmanos não podem frequentar as mesquitas – tal como foi a primeira vez que os cristãos não celebraram a Páscoa nas suas igrejas.

“Infelizmente tem de ser assim, nem sequer há peregrinações nos lugares santos”, lamenta agora, ao 7MARGENS. “Muitos muçulmanos estão desejosos de poder voltar, mas temos de ter cuidado para ver como fazemos. Não podemos fazer entradas selectivas, porque não é possível restringir quem entra.”

Quatro dias antes da conversa com Vakil, António Costa abordara o mesmo assunto com o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, em representação da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), num encontro em que se falou muito do adiamento da Jornada Mundial da Juventude. Aliás, foi no final dessa reunião que António Costa garantiu que iria encontrar-se com outras confissões religiosas.

No âmbito do conselho permanente da CEP, começaram já a ser preparadas, em articulação com a Direcção-Geral da Saúde (DGS), várias orientações práticas para as celebrações comunitárias católicas.

 

“Urgência” de orientações

Os grupos minoritários reivindicam também a “urgência” e a possibilidade de ter orientações. Pelo menos, foi isso que, numa carta enviada precisamente esta quinta-feira ao primeiro-ministro, manifestou o presidente do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic).

Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), lidera esta federação das igrejas do cristianismo protestante histórico – Metodista, Presbiteriana e Lusitana – e lamenta que até agora tenha havido apenas “a promessa”, como diz ao 7MARGENS.

“Nem da DGS tivemos notícias, apesar de termos urgência em saber como fazer e ter orientações”, diz. O presidente do Copic acrescenta, no entanto, que faz sentido serem também recebidos pelo primeiro-ministro.

O presidente da Aliança Evangélica, que é médico, assegura que as comunidades e igrejas que integram aquela federação estão “prontas para abrir a 31 de Maio”. António Calaím elogia mesmo a estratégia do Governo de ir acabando aos poucos com o confinamento. “Vejo a progressividade como algo benéfico e aceitável”, diz o especialista em Medicina Familiar.

A direcção da AEP está mesmo a pensar se desafia os cristãos evangélicos “a reunir-se em lugares significativos das cidades para uma oração, com distanciamento, ao ar livre”, até por ser a véspera do dia de Pentecostes, uma das festas mais importantes do calendário cristão, depois do Natal e Páscoa.

Todos os anos a AEP organiza nessa altura a “Marcha por Jesus”. Este ano, por vontade do seu presidente, a manifestação seria substituída por uma concentração de algumas pessoas, mantendo as regras de segurança necessárias. Mas António Calaím diz que depende dos outros líderes.

Além das comunidades e religiões referidas, há outros grupos importantes, mas que não integram qualquer federação; na área do cristianismo, por exemplo, destacam-se as Igrejas Maná e Universal do Reino de Deus, além das Testemunhas de Jeová. Qualquer dos três congrega dezenas de milhar de crentes. De outras religiões podem citar-se as diferentes comunidades judaicas existentes no país (Lisboa, Porto, Belmonte…).

O 7MARGENS perguntou ao gabinete do primeiro-ministro se está previsto algum calendário ou audiência com as confissões religiosas, além das que já foram ouvidas. Para já, não há resposta.

Artigos relacionados

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habitou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega novidade

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Vaticano transformado em colónia de férias no mês de julho

A pensar nos funcionários da Santa Sé que têm filhos pequenos, o Papa Francisco decidiu abrir aos portas do Vaticano para receber as crianças durante o mês de julho. A organização da colónia de férias ficou a cargo do Governatorato e será animada pela comunidade de Salesianos do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha novidade

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Violência contra as Mulheres: origens novidade

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Credo novidade

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja

Em abril de 2013, nas Jornadas de Teologia da Caridade, subordinadas ao Tema “A força evangelizadora da caridade”, promovidas pela Cáritas Espanhola, em Salamanca, conheci, ao tempo, o arcebispo de Tânger, Santiago Agrelo Martínez. Fiquei fascinado pela profundidade do seu pensamento, pela simplicidade no trato e pela suas coragem e clarividência pastorais.

Cultura e artes

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco