Confissões religiosas “ansiosas por reabrir portas”, mas conscientes de que “nada será como dantes”

| 21 Abr 20

Patriarca de Lisboa. Manuel Clemente.

O patriarca de Lisboa, cardeal Manuel Clemente, na celebração da Vigília Pascal, numa sé vazia: a reabertura das igrejas e espaços de culto terá de ser feita com muitas cautelas, coincidem todos os responsáveis religiosos. Foto © Diana Quintela, cedida pela autora.

 

O comportamento foi, salvo raras exceções, exemplar: dos católicos aos hindus, dos judeus aos protestantes, passando por muçulmanos e testemunhas de jeová, as comunidades religiosas em Portugal têm seguido à risca as orientações do Governo durante o estado de emergência, chegando até a antecipar-se às mesmas, em alguns casos. Nesta terça-feira, 21, o conselho permanente dos bispos católicos reúne em videoconferência, disse ao 7MARGENS o porta-voz do episcopado, padre Manuel Barbosa. Na conversa, será ponderado o que os bispos irão dizer ao Governo, depois de, na segunda, 20 de abril, o primeiro-ministro António Costa se ter reunido com o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Manuel Clemente.

“As nossas portas não chegaram a fechar totalmente, pois quem quisesse podia vir fazer a sua oração individual, sempre cumprindo as devidas regras de distanciamento”, explica António Calaim, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), um dos líderes religiosos ouvido pelo 7MARGENS sobre como o modo como pode ser feito o levantamento das restrições a partir de maio. Para todos eles, “cautela” será a palavra de ordem.

“Estamos ansiosos por reabri-las completamente”, confessa o líder da AEP, a segunda confissão mais representativa em Portugal, depois dos católicos. Calaim salvaguarda, no entanto, que só o farão “quando tal for permitido, seguindo as orientações que forem dadas” e tomando precauções que antes não existiam. Uma das medidas já pensada para os cultos coletivos e outras atividades em grupo é a de “condicionar o número de pessoas em função da capacidade das salas”, refere. “Teremos também uma particular atenção às condições de participação dos mais idosos nas celebrações”, afirma.

 

A vontade de ir à mesquita no Ramadão

Painel de azujelos na Mesquita Central de Lisboa, com os nomes de Deus.

Painel de azujelos na Mesquita Central de Lisboa, com os nomes de Deus. Foto © António Marujo

 

Problema adicional estará criado para os muçulmanos, que entram no mês de Ramadão na próxima sexta, 24 de abril. O xeque David Munir, responsável religioso da Mesquita Central de Lisboa, diz que, no domingo, houve uma reunião entre responsáveis de várias mesquitas muçulmanas.

A maior parte inclina-se para a possibilidade de manter as mesquitas fechadas durante o mês mais sagrado do islão, mesmo para lá do fim do estado de emergência, embora aguardem as orientações do Governo. Mas foi consensual a ideia que, abrindo alguma coisa com o fim do estado de emergência, as medidas de prevenção terão de ser muitas: “A ablução teria de passar a ser obrigatoriamente feita em casa, nas mesquitas as casas de banho estarão fechadas e teria de haver gel, máscaras e aparelhos para medir a temperatura”, afirma.

Os riscos de uma reabertura sem constrangimentos, diz Munir, são vários: no Ramadão, os muçulmanos querem rezar nas mesquitas, onde é suposto estar-se próximo uns dos outros. Por isso, pessoalmente, considera que é preferível manter as orações em casa e continuar a fazer palestras e os ensinamentos próprios deste mês sagrado recorrendo a meios tecnológicos.

Na hora da quebra do jejum (que irá durar entre as 5h09 e as 20h25), há a ideia de fazer uma prece coletiva transmitida através de vídeo.

Também a responsável pelo Templo Radha Krishna (Lisboa) da Comunidade Hindu de Portugal, Pinky Hiral, assegura que, mesmo havendo autorização do Governo para retomar as celebrações coletivas, irão continuar a “impor algumas restrições” às mesmas. “Prevemos adiar todos os eventos que puderem ser adiados e, no caso das festas que habitualmente incluem oferendas e convívio com partilha de alimentos, continuarão a ser realizadas à porta fechada na presença de muito poucas pessoas e com transmissão online, como temos feito ultimamente”, explicou.

 

“Muitas coisas terão de ser reconfiguradas”

Para o bispo da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), Jorge Pina Cabral, “não podemos criar expectativas de que tudo voltará a ser como dantes”, pois “muitas coisas terão de ser reconfiguradas”. O também presidente do Conselho Português das Igrejas Cristãs (Copic) considera que é tempo de todos pensarmos “não só no que temos de mudar no nosso estilo de vida, mas também na forma de ser Igreja”.

O bispo anglicano considera que o “regresso à normalidade” tem de ser “faseado” e que implicará ainda, durante algum tempo, medidas de precaução e distanciamento na forma de vivenciar a fé. O que “numa dinâmica celebrativa levanta diversas questões, porque a presença é algo central”. Ainda assim, pensa que a necessidade de confinamento trouxe, quase que paradoxalmente, algo de muito positivo consigo: “O facto de as pessoas terem percebido a riqueza de pertencerem a uma comunidade e, neste caso, a uma Igreja.”

O sentimento é partilhado por Pedro Candeias, porta-voz das Testemunhas de Jeová em Portugal, para quem “a fé cristã neste período de confinamento tem sido vivida com intensidade, apesar das novas circunstâncias”. “As Testemunhas de Jeová consideram fundamental a salvaguarda da saúde pessoal e comunitária”. Por isso, decidiram suspender logo no dia 10 de março a realização das assembleias regulares, nas quais se reúnem em média, ao fim de semana, entre mil e 1.200 pessoas.

“Em relação às nossas reuniões nas comunidades locais, conhecidas como congregações (espalhadas por todo o território, incluindo Açores e Madeira), foram suspensas a partir do dia 12 de março”, salienta Pedro Candeias. E garante: “Iremos continuar atentos às recomendações das autoridades competentes e agir em conformidade.”

À saída da reunião com o cardeal-patriarca de Lisboa, António Costa confirmou aos jornalistas que está previsto, “a partir de maio, começar a encontrar um maior ponto de normalidade nas celebrações religiosas”. O regresso deverá ser feito “gradualmente e com todos os cuidados sanitários” que permitam aliviar as atuais medidas de contenção, assegurou o primeiro-ministro, que não quis comentar a forma como será retomada a celebração comunitária das missas católicas, suspensas pela CEP desde o dia 13 de março.

“É uma decisão que caberá, sobretudo, à Igreja Católica e aquilo que me foi transmitido é que a Igreja continuará a ser um exemplo e uma referência na forma de celebração da fé, mantendo naturalmente as regras que podem contribuir positivamente para a saúde pública”, acrescentou o chefe do Executivo, que prevê reunir-se em breve com os responsáveis das restantes confissões religiosas.

 

“Sentido de cidadania e responsabilidade”

Também nesta segunda-feira o Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR) divulgou um comunicado em que elogia a atitude das diversas confissões religiosas perante a pandemia.

O OLR, sediado na área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, regista a “forma madura” como os grupos religiosos se adaptaram ao momento, com “um elevado sentido de cidadania e responsabilidade, das lideranças às comunidades”.

“Foram semanas de provação para todas as comunidades religiosas”, diz o texto, em particular no “caso das comunidades cristã e judaica, que atravessaram o calendário muito sensível da Quaresma e da Páscoa” e não esquecendo os muçulmanos que iniciarão o Ramadão, “que convoca a oração comunitária”.

Face à perspetiva de levantamento das restrições, o OLR sugere também medidas de limitação e salvaguarda que evitem o risco de contágio, e a disponibilização, por parte das autoridades de saúde, de máscaras comunitárias e meios de higienização.

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