Confronto entre exclusivismo das instituições religiosas e o Reino anunciado por Jesus

| 12 Jun 2024

“Continuamos, em pleno século XXI, a assistir a uma clara dicotomia entre o “nós” e os “outros”, entre puros e impuros, entre os eleitos e os perdidos.”  Ilustração de Albert Robida (1848-1926), “Jesus come com publicanos e pecadores”.

 

Entre o querigma do Reino anunciado por Jesus e o nascimento da Igreja, passando pela instituição do batismo e da eucaristia, foi-se tornando cada vez mais evidente aquilo que fundamenta qualquer sistema religioso, ou seja, o sentido de pertença e de exclusão, a divisão entre os que estão dentro e os que estão fora. A afirmação atribuída a São Cipriano de Cartago, e muitas vezes repetida pelos Pais da Igreja, de que extra ecclesiam nulla salus (fora da igreja não há salvação), tem contribuído para delimitar as fronteiras da Igreja.

É preciso salientar que não deixa de ser importante o papel da Igreja enquanto instituição. O modelo eclesiológico dos primeiros cristãos, bastante mais simples na sua essência, identificava-se mais como um movimento daqueles que eram conhecidos por “os do Caminho” (Atos dos Apóstolos 9:2;24:13-16). Jesus, antes da Sua partida para o Pai, soprou sobre eles o Espírito enviando-os em missão pelo mundo (Evangelho de João 20:22). Assim, neste seu estilo de vida, os primeiros cristãos, com uma nova vida, entendiam-se a si mesmos como peregrinos espalhando o Reino, sempre em movimento em direção a um novo mundo que idealizavam como melhor. Mas as expetativas goradas de uma escatologia imediata impuseram a necessidade de uma progressiva institucionalização da Igreja, a qual resultaria numa eclesiologia estruturalmente hierárquica e ortodoxa, isto é, bem delimitada no seu corpo doutrinário e dogmático.

Nos inícios do século XX, um teólogo católico e entretanto excomungado pela Igreja, Alfred Loisy, afirmara certa vez que “Jesus anunciava o Reino, mas o que veio foi a igreja”, expondo assim essa tensão entre o movimento de Jesus e o peso da instituição, com todas as consequências que daí advieram. Muito provavelmente, o Jesus histórico jamais terá tido intenção alguma de formar uma igreja, pelo menos no sentido institucional como a entendemos hoje, fortemente fundamentada em hierarquias ou rígidos sistemas dogmáticos. O grande teólogo jesuíta Karl Rahner, que influenciou o Concílio Vaticano II e que é considerado um dos grandes pioneiros da abertura moderna da Igreja ao mundo, declarou, e muito corretamente, que Jesus é o fundamento da Igreja e não o seu fundador. Também o Cardeal Walter Kasper afirmava que, ao longo do seu ministério público, Jesus nunca falou explicitamente acerca da fundação de uma igreja, mas sim proclamou o Reino de Deus, o qual, encarnado na Sua própria pessoa, se manifestava nas suas palavras e atos. Se até ao grande Concílio Vaticano II a Igreja se  apresentava como um grande sistema fechado, monolítico e hostil aos avanços da ciência e ao pensamento crítico, a partir desse momento,  fortemente influenciada pelo contributo progressista do pensamento  da Nouvelle Theologie — sendo Karl Rahner um dos seus principais representantes –, deu finalmente sinais de abertura ao mundo.

Mas o sentido de pertença e exclusão não é apanágio de uma igreja  específica. Os fundamentalismos religiosos, existentes em todos os espectros da vida religiosa, advogam igualmente para si a exclusividade da verdade através de leituras literalistas das escrituras e da alienação das diversas culturas seculares vigentes. Continuamos, em pleno século XXI, a assistir a uma clara dicotomia entre o “nós” e os “outros”, entre puros e impuros, entre os eleitos e os perdidos. Veja-se os recentes fenómenos populistas, nos quais a religião se alia à esfera política, promovendo uma autêntica guerra cultural que recorre, não raramente, a uma retórica de ódio e de exclusão.

Como debater, então, esses limites de pertença e exclusão? Como resolver o confronto entre o dogma exclusivista de certa religião e o Reino preconizado por Jesus, que a todos acolhe e convida à mesa? São notáveis as palavras do Papa Francisco proferidas aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, em Roma, no Angelus, em Setembro de 2021:

“Todo o fechamento, de facto, afasta quem não pensa como nós e isso – sabemos – está na raiz de muitos males da história: do absolutismo que tantas vezes gerou ditaduras e de tantas violências contra  quem é diferente”.

De referir também o papel relevante da pneumatologia nestes últimos tempos e que tem levado alguns teólogos a destacar, não tanto a Igreja visível, institucional, mas a Igreja mística – entendida como aquela que é invisível, conhecida unicamente por Deus, até porque se percebe que o “Espírito sopra onde quer” e fora dele não existe liberdade. Nesse sentido, alertou o Papa Francisco,  “O Espírito Santo não quer fechamentos; quer abertura, comunidades acolhedoras onde haja espaço para todos”. É precisamente isso que Jesus deseja, uma Igreja que, estendida de braços abertos, é local de acolhimento para um mundo tantas vezes alienado do Seu amor infinito por todos nós.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica?

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica? novidade

Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This