AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Congregação das Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre
A Congregação das Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre nasceu em 1898, associada ao surgimento da Basílica do Sacré-Coeur, em Paris. Foto: DR

Relatório sobre abusos acaba de sair

Congregação religiosa com uma tirana como superiora andou décadas em roda livre

| 16/01/2026

Era uma vez uma congregação religiosa, em França, que viveu várias décadas sob a alçada de uma tirana disfarçada de prioresa. Depois de muito sofrimento e de muitos estragos, sem que altos responsáveis eclesiásticos, cientes do que se passava, tivessem atuado, uma visita canónica desencadeada pelo Vaticano conseguiu, finalmente, provocar um abanão no interior da comunidade que está a procurar novos caminhos. Um relatório publicado esta semana põe em evidência a envergadura de um sistema de abuso sistemático de poder.

Em causa está a Congregação das Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre, nascida em 1898, associada ao surgimento da Basílica do Sacré-Coeur, em Paris, e com a vocação de animar este e outros santuários para os quais as dioceses a chamam, através da oração e do canto. No centro da triste história que quase determinava a dissolução deste instituto está uma prioresa, Marie-Agnès de seu nome de religiosa, que foi eleita superiora geral em 1969, quando tinha 33 anos, depois de anos em que, reconhecidamente, deu um enorme contributo para revitalizar a Congregação.

Uma vez à frente da instituição, e apoiada na aura que a dedicação lhe conferiu, montou um sistema de controlo baseado na manipulação, chantagem emocional e mentiras, que lhe permitiu ficar no poder por praticamente 30 anos.

O controlo da vida quotidiana ia a um nível tal que, em nome da obediência e em nome de Deus, pisava a liberdade fundamental de cada religiosa: pressão sobre candidatas à congregação, atropelando regras de bom senso; idas ao médico só acompanhadas; impedimento de falar com a família de origem, mormente em matérias relevantes como uma operação cirúrgica; antidepressivos impostos a algumas das irmãs – são apenas alguns exemplos.

Marie-Agnès só deixou o poder porque estatutariamente já não podia voltar a renovar mandatos de seis anos. Mas concebeu e conseguiu concretizar uma forma de continuar a reinar: escolheu como sucessora a irmã Marie-Vianney, que não tinha ainda completado 30 anos, impondo-se, de imediato, como sua assistente-geral.

Não demorou muito tempo que Marie-Vianney começasse a perceber que estava agora submetida a um controlo muito mais sistemático do que antes de ser prioresa, com a agravante de que o poder simbólico e efetivo entre as duas era, naturalmente, muito assimétrico. Ainda assim, aproveitou uma saída para escrever à Cúria Romana uma carta a solicitar uma visita apostólica, invocando a situação em que a Congregação se encontrava.

Quando a sua iniciativa foi conhecida e apareceram os visitadores, em 2004, foi montada uma tal operação de encenação e desencadeada uma tal ostracização da prioresa, que ela se viu obrigada a abandonar a Congregação, exigindo fazê-lo perante os visitadores e em documentos formais, a fim de evitar que até essa decisão fosse desviada no caminho.

A visitação, que terá deixado muito a desejar, não produziu resultados e a Congregação entrou numa fase de degenerescência que se prolongou pelos dez anos seguintes. Uma nova visita apostólica, em 2012, curiosamente solicitada por um bispo francês não diretamente relacionado com a Congregação, mas que teve conhecimento do que se passava, permitiu criar o ambiente propício à mudança. Em reuniões gerais realizadas em 2021 e 2023, procuraram, com a ajuda de profissionais, “rever a sua história, a fim de melhor identificar e compreender os fenómenos de controlo e abuso que tinham ocorrido nas suas fileiras”. Por esse caminho, procuraram igualmente explorar as condições e os desafios de uma nova etapa, assente na conversão, auscultação de todas e práticas efetivamente participativas.

 

Um relatório que diagnostica e faz recomendações

Congregação das Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre relatorio

O estudo baseia-se em 159 entrevistas com as 86 religiosas atualmente membros da Congregação. Foto: DR

A antiga prioresa Marie-Agnès foi penalizada com o recolhimento numa instituição não pertencente à Congregação. Ela desrespeitou essa pena e, com religiosas que lhe foram sempre fieis, foi viver para um apartamento que tinha em seu nome, comprado com dinheiro que se suspeita ser da Congregação. Além disso, ofereceu secretamente telemóveis a algumas religiosas, para poder continuar a alimentar a sua ação e instigar divisões entre as freiras. Acabou por falecer em 2016, sem nunca ter reconhecido o mal que causou.

Com uma nova prioresa, eleita em 2020, e novos órgãos de participação a funcionar, a Congregação decidiu escrever uma carta pública a reconhecer os abusos e a pedir perdão às irmãs que mais sofreram com todo o longo processo, quer as que se mantiveram no ativo quer as que abandonaram, bem como às respetivas famílias.

Decidiram também encomendar a uma comissão independente um estudo sobre o que se passou, escutando todas as pessoas que puderam e quiseram testemunhar. Essa comissão multidisciplinar trabalhou ao longo de 18 meses, desde agosto de 2024, e entregou na última quarta-feira o relatório final, um documento de mais de 140 páginas, intitulado Les abus spirituels et les emprises psychologiques au sein des Bénédictines du Sacré-Cœur de Montmartre (“Abusos espirituais e influência psicológica nas Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre”).

O estudo baseia-se em 159 entrevistas com as 86 religiosas que atualmente integram a Congregação, 28 ex-irmãs e 45 outras testemunhas (bispos, padres, freiras, leigos). Todas as casas da instituição foram visitadas e foram igualmente analisadas cerca de dez mil respostas a um questionário anónimo.

Estas análises permitiram concluir pela “existência de abusos espirituais, controlo psicológico, abuso de poder e, em alguns casos, mesmo violência física, que gradualmente se tornaram sistémicos desde a década de 1970”. Isso traduziu-se em práticas de isolamento, vigilância, silêncio imposto, hiperatividade, recurso repetido a tratamentos com drogas para algumas irmãs.

“Esses abusos – refere um comunicado da comissão – tiveram sérias consequências nos planos psicológico, físico, espiritual e social”. A responsabilidade por esses abusos é atribuída ao governo da Congregação, naquela época, sendo agravadas pelas “deficiências do controlo interno, bem como as insuficiências do controlo exercido por certas autoridades eclesiásticas e profissionais de saúde”.

 

Hierarquia da Igreja ‘assobiou para o lado’

A Comissão, que cita o Papa Francisco quando diz que “a misericórdia não nos isenta do dever de reparação”, propõe várias medidas para remediar os males causados, como o reconhecimento público dos abusos e a cobertura adicional de cuidados com irmãs que saíram da Congregação, entre outras. Formula ainda várias dezenas de recomendações que dizem respeito ao governo, vida comunitária, formação, saúde, finanças e papel de órgãos externos.

Reconhecendo que a instituição tem empreendido, em particular nos últimos anos, “um verdadeiro trabalho de reforma”, os autores do estudo consideram estar-se ainda perante um caminho “frágil”. Por isso disponibilizam-se para voltar a examinar a situação na primavera de 2027, visitando as várias casas da Congregação e a casa-mãe, com o objetivo de avaliar a aplicação das recomendações e publicar um relatório complementar.

Um ponto importante a reter diz respeito ao facto de ter sido possível uma situação tão prolongada de abuso físico, espiritual e psicológico. As congregações devem ser acompanhadas de perto pelos bispos que superintendem nas dioceses onde as casas religiosas estão implantadas. Por outro lado, essas instituições devem fazer anualmente um relatório (relatio) sobre a vida, as atividades e as finanças, dirigindo-o ao dicastério respetivo da Cúria Romana.

As informações recolhidas pela comissão independente põem em evidência que, tanto num aspeto como noutro, a Congregação das Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre andou em roda livre, sem que ninguém se atravessasse no caminho da superiora geral. Isto significa que há neste processo uma responsabilidade inquestionável da parte de padres e bispos que tinham responsabilidades nessa matéria – com a agravante de vários terem tido conhecimento de graves problemas internos e não terem tomado medidas.

Era, assim, uma vez uma instituição religiosa que pelo abuso consentido e sistémico do poder esteve à beira do abismo e destruiu vidas em lugar de ser um espaço de construção e realização de vidas e da Vida. Um caso que, com mais ou menos condimentos, poderia ser a de outras instituições, inclusivamente em Portugal, que por falta de força anímica e de acompanhamento externo, se deixaram enquistar. Esta é também a história de uma Congregação que, chegando ao ponto da quase dissolução, foi capaz de dar a volta e redescobrir um caminho de saída do abismo. Que só agora está a dar passos nessa direcção.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This