Abusos sexuais do clero 

Congregações religiosas de França nomeiam Comissão Independente

| 19 Nov 21

Juiz Antoine Garapon preside Comissão Independente de Reconhecimento e Reparação. Foto: Direitos reservados.

 

O magistrado Antoine Garapon acaba de ser designado para presidir à comissão independente que vai estudar os abusos sexuais nas ordens religiosas que desenvolvem em França a sua atividade.

A revelação foi feita esta sexta-feira, 19 de novembro, pela teóloga dominicana Véronique Margron e resulta de votação unânime de cerca de 300 superioras e superiores da Corref – Conferência das Religiosas e Religiosos de França. O órgão, que esteve reunido desde segunda-feira em Lourdes, fez aquilo que fizeram os bispos do país, ao longo da semana anterior: analisar os resultados do estudo da CIASE (Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja) e tomar as medidas correspondentes.

A Comissão Independente de Reconhecimento e Reparação (CIRR) — é o nome que lhe foi dado — assume que há que dar continuidade à investigação subjacente ao estudo da CIASE. Fará, assim, um trabalho de complemento e desenvolvimento do da CIASE, também conhecido por Relatório Sauvé, do nome do seu presidente.

De resto o agora designado presidente da CIRR integrou a outra Comissão, na qual coordenou a equipa da escuta das vítimas e assegura, agora, a continuidade do trabalho. Garapon é um respeitado juiz que trabalhou, ao longo de boa parte da sua vida profissional, em tribunais que lidam com “menores”. Atualmente é secretário-geral do Instituto de Altos Estudos sobre a Justiça, co-diretor da revista Esprit, fundada por Emmanuel Mounier e diretor de uma coleção na editora Michalon. Tem também um programa semanal na estação France Culture.

Em entrevista à rádio France Inter, mal se soube da sua nomeação, o juiz e presidente da CIRR disse que a missão do grupo que vai coordenar “é oferecer um acolhimento às vítimas, uma garantia de contacto com as congregações, eventualmente substituir as congregações — com o seu acordo — em caso de bloqueio”. Visa ainda  “instalar um centro de recursos que permita compreender melhor as necessidades das congregações e das vítimas e as disfunções das comunidades religiosas, colocando-se à disposição de umas e de outras para que esses abusos não voltem a acontecer”.

Para além do reconhecimento e da indemnização das vítimas, o trabalho a desenvolver agora visa “encontrar a relação com o agressor ou o instituto incriminado, numa balança invertida de poder: uma posição de humildade do agressor que destruiu uma vida, e uma posição de requerente por parte da vítima”.

Bispos espanhóis não querem estudo sobre os abusos

Entretanto, no início de dezembro, o presidente da CIASE, Jean Marc Sauvé, irá ao Vaticano reunir-se com o Papa Francisco. O encontro irá permitir uma apresentação de viva voz ao Papa do estudo feito sobre a realidade dos abusos em França, em particular os aspetos das recomendações feitas pela Comissão Independente que são dirigidas a Roma.

Estudo é algo que não vai com os bispos espanhóis. Na conferência de imprensa no final da assembleia da Conferência Episcopal do país vizinho, o porta-voz, Luis Argüello, declarou que os bispos “não têm a função de conduzir pesquisas sociológicas ou estatísticas” sobre casos de abuso sexual de menores”, ocorridos no seio da Igreja Católica em Espanha.

“O caminho escolhido é o de atender às vítimas específicas. É o caminho pelo qual optamos: conhecimento personalizado, face a face”.- acrescentou o também bispo auxiliar de Valladolid.

 

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