A ortodoxia perante a guerra

Conselho Mundial das Igrejas não quer romper com Moscovo

| 12 Abr 2022

patriarca cirilo igreja ortodoxa russa. Foto_ Oleg Varov_Igreja Ortodoxa Russa

Patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa. Foto © Oleg Varov/Igreja Ortodoxa Russa.

 

As pressões de igrejas cristãs para expulsar a Igreja Ortodoxa Russa e o patriarca Cirilo do Conselho Mundial das Igrejas (CMI), devido ao apoio que tem dado à invasão da Ucrânia e às políticas de Putin estão a deparar com a resistência do secretário-geral da organização, Ioan Sauca.

Ioan Sauca, padre ortodoxo que ocupa o cargo na CMI em regime de interinidade, foi diretamente contactado pela agência católica italiana SIR, tendo reconhecido, numa entrevista publicada esta segunda-feira, 11, que as posições de Cirilo têm levado “todos” a sentirem-se “sem esperança, com raiva, frustrados, desapontados”.

Na mais recente intervenção pública, o patriarca de Moscovo apelou às forças armadas russas a combater os “inimigos internos e externos” do país e à união de todos “mesmo em torno do poder, neste período difícil para a pátria”.

Perante a situação, que tem provocado reações em cadeia, dentro e fora do campo ortodoxo, “humana e emocionalmente, a reação seria tomar decisões imediatas e radicais”, confessa o responsável do Conselho Mundial das Igrejas. “No entanto, acrescenta, como seguidores de Cristo, a nós foi-nos confiado o ministério da reconciliação”. 

O secretário-geral adianta ainda: “Seria muito fácil usar a linguagem dos políticos, mas somos chamados a usar a linguagem da fé, da nossa fé. É fácil excluir, excomungar, demonizar; mas somos chamados, enquanto CMI, a ser uma plataforma de encontro, diálogo e escuta, mesmo se e quando discordamos. Isso sempre foi o CMI e eu sofreria muito se essa vocação se perdesse e a natureza do CMI mudasse.”

Ioan Sauca esclareceu ainda que, a ser tomada, a decisão de suspender um membro caberia ao Comité Central do CMI, que é o órgão de governo, e apenas na sequência de discernimento, audiências, visitas e diálogos com as igrejas envolvidas e discussões.

Um desses casos foi o da Igreja Reformada Holandesa na África do Sul que apoiou, mesmo teologicamente, o apartheid. “Isso criou fortes debates e condenações de outras igrejas membros do CMI”, recorda Sauca. Contudo, no final foi essa igreja que “se excluiu” do CMI.

Já mais próximo de nós, a guerra do Golfo, em 1991, tornou-se um foco de divisão na Assembleia do CMI, realizada em Camberra. Embora se tenha aceitado maioritariamente que a guerra “não é santa nem justa”, as igrejas americanas e a Igreja da Inglaterra opuseram-se ao apelo por um cessar-fogo imediato e incondicional. Perante a questão “Igrejas que defendem abertamente uma guerra podem ser membros da nossa comunhão”. Houve quem pedisse a exclusão dos “belicistas”. Mas a maioria pronunciou-se pela não exclusão e pela continuação do diálogo.

Na altura, conta também o responsável da CMI, ficou célebre a resposta do secretário-geral do Conselho de Igrejas do Médio Oriente. Quando perguntado de que lado da guerra está Deus, a resposta foi: “Deus está do lado dos que sofrem.”

Voltando ao caso de Cirilo, a agência SIR perguntou ao secretário-geral qual a sua opinião pessoal sobre o Patriarcado de Moscovo e se a polémica sobre as posições que tem tomado seria matéria da agenda da próxima reunião do Comité Central do CMI, em Junho próximo.

Para o entrevistado, o assunto será certamente “dos mais quentes sobre a mesa”. E quanto à sua opinião pessoal, não deixou dúvidas: “Sofro, particularmente como padre ortodoxo. Os eventos trágicos, o grande sofrimento, morte e destruição estão em profunda contradição com a teologia e a espiritualidade ortodoxas”. E considerou ter feito o que devia: condenou a agressão russa à Ucrânia, apoiando a declaração do metropolita Onufry (da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, sufragânea de Moscovo) que lhe chamou ‘guerra fratricida’; escrevi ao patriarca Cirilo, telefonou aos dois presidentes para pararem a guerra; e uma delegação do CMI visitou as fronteiras da Ucrânia, da Hungria e da Roménia para se encontrar com os refugiados”. Mas, apesar de “sem esperança”, diz continuar em busca da reconciliação.

Mais de 300 padres ortodoxos ucranianos acusam Cirilo de heresia

As posições críticas da atuação do patriarca de Moscovo e “primaz de todas as Rússias” têm-se vindo a multiplicar nas últimas semanas. Porém, uma das mais contundentes, que foi lançada nos últimos dias, vem de mais de 300 padres da Igreja Ortodoxa da Ucrânia dependente do patriarcado de Cirilo e faz graves acusações ao titular do cargo, exigindo que ele seja apeado da posição que ocupa.

Numa petição dirigida no último domingo, 10, ao Conselho dos Patriarcas Orientais, os membros do clero acusam Cirilo de crimes morais, por abençoar as tropas russas e a invasão da Ucrânia, e de heresia, por pregar a ideologia do “mundo russo”. Por estas razões, instam os altos responsáveis das Igrejas ortodoxas a submetê-lo a um tribunal eclesiástico internacional.

Os subscritores sublinham os esforços do metropolita Onufriy de Kiev para levar Cirilo a condenar a guerra, mas o fracasso de tais diligências resultou em “indignação em massa entre clérigos e fiéis”.

Cirilo, que reivindica para si um rebanho de fiéis que cobre a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia, hoje “abençoa diretamente a destruição física de seu rebanho pelas tropas russas”, denuncia o texto da petição. Nela é ainda sugerido que o patriarca de Moscovo está a chamar clérigos para animar e “reunir tropas russas desmoralizadas”.

Os padres insurgentes afirmam que, por um imperativo da sua consciência, não podem “continuar com qualquer forma de subordinação canónica ao patriarca de Moscovo”.

Como explica o site da revista católica britânica The Tablet, o Conselho dos Patriarcas Orientais a quem a petição é dirigida é “o órgão histórico que considera as alegações contra os dignitários da Igreja Ortodoxa. É composto pelos chefes das Igrejas autocéfalas que compõem a comunhão ortodoxa”.

A ideologia do “Mundo Russo”, denunciada na tomada de posição, e considerada “não ortodoxa” e herética por uma recente declaração de teólogos daquela confissão cristã, afirma que russos, ucranianos e bielorrussos são um único povo e uma única Igreja.

 

 

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