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Praça de S. Pedro, multidão Ângelus. Foto © Vatican Media

Do Sínodo ao Jubileu (4)

Construindo comunidade em diálogo: A Praça da Esperança

O 7MARGENS publicou nas últimas três semanas um ensaio da teóloga Cristina Inogés Sanz, com o título Do Sínodo ao Jubileu: construir a comunidade em diálogo.

Nele, a autora faz uma reflexão sobre o que pode ser o futuro próximo da Igreja Católica na sequência do Sínodo sobre a Sinodalidade e da celebração do Jubileu convocado pelo Papa Francisco para o próximo ano. O percurso analisa o caminho de Jorge Mario Bergoglio desde a sua eleição – e mesmo antes, na Conferência de Aparecida, em 2007 – até à convocação do sínodo de 2021-24, a sua “aposta mais forte”. O sentido da sinodalidade, a teologia de uma Igreja de inclusão (enunciada na segunda parte do texto), o enunciado de uma Igreja verdadeiramente ao encontro das Samarias contemporâneas (terceira parte do texto) e a importância da escuta e o lugar da esperança são algumas etapas do caminho proposto por Cristina Inogés. Esta é a última pate do ensaio.

padres, clero, clérigos,

“O clericalismo galopante que se vem sentindo da parte daqueles de quem se espera proximidade e entrega, é hoje uma importante chamada de atenção.” . Foto: Direitos reservados.

 

O clericalismo galopante que se vem sentindo da parte daqueles de quem se espera proximidade e entrega, é hoje uma importante chamada de atenção. Por isso, Francisco oferece-nos este encontro, para fazer realidade todo o vivido. E, a partir deste encontro, para nos lançar a um mundo que não sabe o que nos espera, mas que nos irá descobrindo.

 

Na Igreja, somos todos terreno sagrado e, portanto, devemo-nos aceitar. Aceitarmo-nos é reconhecermo-nos como tal, como terra sagrada, com a mesma dignidade e com os mesmos direitos e deveres que o batismo nos concede. Se somos todos terra sagrada, por que há pessoas que se sentem marginalizadas na Igreja? Nós, cristãos católicos, somos os que frequentemente marginalizamos. Há quem viva em margens e em periferias que não estão definidas.

Desde há três anos que aprendemos a andar juntos e não podemos abandonar essa prática agora! É neste momento que teremos de transformar em realidade tudo o que vivemos, partilhando, sonhando. Acreditar que tudo acabou e que o sínodo da sinodalidade é já história da Igreja – e, portanto, nossa – seria mais do que um erro.

Francisco, que pensa em tudo e que caminhou ao nosso lado durante todo esse tempo, sabe que os corredores de fundo – e o Sínodo foi e continuará sendo uma corrida de fundo – não podem parar de correr repentinamente, mas precisam de um pouco de espaço para parar. Por isso, para não travarmos a seco, quis dar-nos um pouco de espaço, para percebermos o que foi este tempo; e oferece-nos a maravilha da “Praça da Esperança” na forma de um Jubileu, para que continuemos usufruindo da reconstrução dessa Igreja que tão bem projetou o Concílio Vaticano II, embora rapidamente ele foi deixando de ser reconhecido, terminando por ficar irreconhecível e, muitas vezes, contrária ao próprio Concílio.

 

Até à praça

Peregrinos a caminho de Jerusalém. Foto Golan Rice

‘A chave está em “ser com”, para que o caminho partilhado seja já um encontro.’ Foto Golan Rice

 

A chave está em “ser com”, para que o caminho partilhado seja já um encontro. Vivemos na ditadura do politicamente correto, um caminho que não deixa lugar para o diferente, para o criativo e que dá origem a todo o tipo de disparates que constituem um padrão de comportamento praticamente único e, portanto, pobre.

O caminho para a praça mostrou-nos a riqueza de todo o tipo de diversidade, o colorido isso traz e que nos permitiu descobrir que as opiniões são fechadas e que as ideias são abertas e estão abertas a outras – e assim se cresce. Durante esse caminho até à Praça da Esperança, descobrimos que o Sínodo da Sinodalidade pode ser – de facto, será – o grande testamento de Francisco.

Descobrimos que a sinodalidade, além de caminharmos juntos em direção a Cristo – que é objetivo e caminho – é também uma forma de governo eclesial certamente impactante, uma forma de entender e fazer a pastoral, de estar no mundo, em diálogo com todos, no respeito pelas diferenças e com a intenção verdadeira de não deixar ninguém de fora. Escutar aqueles que estão dentro e os que estão fora, como diz Francisco. Vermo-nos, estarmos e fazer coisas juntos, marginalizados, pobres cheios de nada; todos transbordando de esperança.

 

Na Praça da Esperança

Semana Laudato Si 2024

“Defender a vida é tarefa de todos e, entre todos, nesse encontro esperançoso, podemos combinar esforços para alcançá-la. Crentes, não-crentes, pessoas sem religião …” Imagem retirada do Vídeo de apresentação.

 

Reunirmo-nos na Praça da Esperança não é reunir apenas os cristãos católicos. É abrir o espaço para todos, porque também foi isso o que descobrimos no caminho anterior.

Algumas pessoas perguntam como construir uma ponte entre aqueles com quem nos vamos encontrar nesta praça. Não será complicado. Por exemplo, Fratelli Tutti, que não é um texto confessional, é dirigido a todos. Com este texto, a comunhão eclesial, que já não terá de ser uma pura uniformidade, pode passar a ser a comum-união de que a sociedade necessita. Uma sociedade que tem os mesmos problemas em todas as partes do mundo e a mesma ânsia de esperança.

Laudato Si’ e Laudato Deum são um marco de referência do grito da terra e da humanidade oprimida. Não são ecologia “verde”, são ecologia humana que também nos afeta a todos. As limitações autoimpostas, bem estabelecidas com a formação-deformação recebida, fazem-nos viver marcados pela geografia do pecado, cujo limite está marcado a norte pelo umbigo e pelos joelhos ao sul. E não percebemos que todo o pecado é cometido do pescoço para cima.

Também na Praça da Esperança, podemos ajudar-nos todos a superar essas limitações, que nos libertarão de muito lastro sem sentido. Defender a vida é tarefa de todos e, entre todos, nesse encontro esperançoso, podemos combinar esforços para alcançá-la. Crentes, não-crentes, pessoas sem religião …

É chegado o tempo de começar a dar forma ao sonho conciliar do Vaticano II. A geração que protagonizou esse concílio está vivendo os seus últimos dias. Se perdemos a sua memória, perderemos na verdade a nossa memória e podemos repetir os erros cometidos. Quantas experiências religiosas não continuam com a marca de arrogância e prepotência que as fazem decidir quem é digno de amor e quem é digno de condenação?

Por isso, encontrarmo-nos na Praça da Esperança permitir-nos-á enfrentar o futuro juntos, em igualdade de condições,  e continuar a reafirmar que a diversidade cultural faz parte da riqueza da humanidade, porque todas as manifestações humanas e religiosas são portadoras de verdade. Todas as tradições espirituais são fragmentos de verdade e da disposição do amor de Deus na sua autorrevelação. A diversidade torna-se um lugar de encontro a partir do qual se anuncia Deus e Deus se anuncia. A hospitalidade é um valor espiritual e uma bênção. Receber outros é receber Deus.

 

Indicações para chegar à praça

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro

Concílio Vaticano II: 2023 foi um ano de preparação do ano jubilar

 

Há dois sinais que, como uma bússola, nos guiam até ao nosso encontro na Praça da Esperança.

O primeiro foi o ano dedicado ao Concílio Vaticano II. Ao longo do ano de 2023, tivemos a oportunidade de nos preparar. As comunidades cristãs em todo o mundo propuseram itinerários e momentos de reflexão sobre as quatro constituições conciliares: Dei Verbum, Sacrosanctum Concilium, Lumen Gentium y Gaudium et Spes.

O segundo é o ano dedicado à oração. Na carta já citada ao bispo Fisichella, diz o Papa Francisco: “Alegra-me pensar que o ano de 2024, que precede o evento do Jubileu, pode-se dedicar a uma grande ‘sinfonia’ de oração; antes de tudo, recuperar o desejo de estar na presença do Senhor, de escutá-lo e adorá-lo.” Portanto, na preparação para o Jubileu, as dioceses são convidadas a “promover a centralidade da oração individual e comunitária”. (1)

Ambos são sinais importantes que indicam que o Jubileu está intimamente ligado ao Sínodo da sinodalidade, que é um processo espiritual de grande profundidade.

 

A partir da Praça da Esperança

Praça de S. Pedro, multidão Ângelus. Foto © Vatican Media

“A partir desta praça, devemos sair para o mundo mais unidos, mais capazes de enfrentarmos os desafios sob a forma de vida de Jesus de Nazaré.” Praça de S. Pedro, Ângelus. Foto © Vatican Media

Na carta que o Papa Francisco escreveu ao bispo Fisichella, encarregado da preparação do Jubileu, diz:

“Devemos manter acesa a chama de esperança que nos foi dada e fazer todo o possível para que cada um recupere a força e a certeza de olhar para o futuro com uma mente aberta, coração confiante e vistas desafogadas. O próximo Jubileu pode ajudar muito a restaurar um clima de esperança e confiança, como um sinal de um novo renascimento que todos consideramos urgente. Por esse motivo, escolhi o tema Peregrinos da Esperança. Tudo isso será possível se formos capazes de recuperar o sentido da fraternidade universal, se não fecharmos os olhos perante a tragédia da pobreza galopante que impede milhões de homens, mulheres, jovens e crianças de viver de maneira humanamente digna. Penso especialmente nos numerosos refugiados que se veem forçados a abandonar as suas terras. Oxalá que as vozes dos pobres sejam escutadas neste momento de preparação para o Jubileu que, de acordo com o mandato bíblico, devolve a cada um o acesso aos frutos da terra: “Poderão comer tudo o que a terra produza durante o seu descanso, tu, o teu escravo, a tua escrava e o teu trabalhador, bem como o hóspede que resida contigo; e também o gado e animais que estão na terra, podem comer todos os seus produtos» (Levítico 25,6-7). Portanto, a dimensão espiritual do Jubileu, que nos convida à conversão, deve unir-se a estes aspetos fundamentais da vida social, para formar um conjunto coerente. Sentindo-nos todos peregrinos na terra em que o Senhor nos colocou para que a cultivemos e a cuidemos (cf. Génesis 2,15), não negligenciemos, ao longo do caminho, a contemplação da beleza da criação e o cuidado da nossa casa comum. Espero que o próximo Ano Jubilar se celebre e se viva também com esta intenção. De facto, um número cada vez maior de pessoas, incluindo muitos jovens e adolescentes, reconhece que o cuidado da criação é uma expressão essencial de fé em Deus e obediência à sua vontade.” (2)

A partir desta praça, devemos sair para o mundo mais unidos, mais capazes de enfrentarmos os desafios sob a forma de vida de Jesus de Nazaré. Para Jesus, a verdade era o amor; fora do amor, não há verdade. O amor é sempre libertador. Se nos deixarmos guiar, veremos que Deus não é estático nem manipulador de destinos.

Considerando a tradição bíblica e a trajetória de Jesus de Nazaré, a experiência dos oprimidos é a maneira mais segura de captar o movimento de Deus na história.

Existencialmente, também o Jubileu da Esperança nos pode ajudar a pensar que o ser humano está em movimento permanente de mudança em busca da plenitude de vida, da melhor expressão de sua criatividade, de seu ser mais real e íntimo.

 

Na solenidade da Epifania do Senhor do ano de 2022, disse Francisco:

Ícone da Epifania

“Mas esta saudável inquietação, que os levou a peregrinar, donde nasce? Nasce do desejo. Eis o seu segredo interior: saber desejar. Meditemos nisto. Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. Desejar é acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. […] Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6).

E procedendo assim, cada dia, como os Magos, teremos a certeza de que, mesmo nas noites mais escuras, brilha uma estrela. É a estrela do Senhor, que vem cuidar da nossa frágil humanidade. Ponhamo-nos a caminho rumo a Ele. Não demos à apatia e à resignação a força de nos cravar na tristeza duma vida medíocre. Abramo-nos à inquietude do Espírito, corações inquietos. O mundo espera dos crentes um renovado ímpeto para o Céu. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós. E como indagadores inquietos, permaneçamos abertos às surpresas de Deus. Irmãos e irmãs, sonhemos, procuremos, adoremos.” (3)

Haverá que fazer mudanças no fundo do nosso ser individual e comunitário. Haverá que mudar formas, linguagens, símbolos, formas de olhar. Haverá que mudar por amor os homens e a Igreja. Haverá que mudar porque, neste momento, somos solicitados a permanecer mudando. Apenas isso.

Para terminar, expresso um desejo. Ajuda-nos, Senhor, a aprender a ser uma Igreja de pessoas num mundo de pessoas, com pessoas, para pessoas. Com todos sem nenhuma exceção. Oxalá que na nossa confissão de fé possamos dizer: «Acredito numa Igreja santa, católica, apostólica, e para todos, todos, todos. Amém.”

 

Notas

(1) Para obter mais informações, consulte https://www.iubilaeum2025.va/pt/giubileo-2025/verso-il-giubileo/2023-anno-del-concilio.html 
(2) Para mais informações, ver https://www.iubilaeum2025.va/es/giubileo-2025/lettera-di-papa-francesco.html
(3) Para mais informações, consultar: https://www.vatican.va/content/francesco/es/homilies/2022/documents/20220106_omelia-epifania.html  

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado nos Cadernos Cristianisme i Justícia (Barcelona) e cedido ao 7MARGENS pela editora e pela autora.

 

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