Memória do Grão-Rabi Jonathan Sacks

Construir um lar que nos integre a todos

| 22 Abr 2024

Jonathan Sacks. Foto DR

Grão-Rabino das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth (1991-2013), Jonathan Sacks era escutado e admirado muito para lá das fronteiras do judaísmo. Foto: Direitos reservados.

 

A Biblioteca Nacional de Israel recebeu em 16 de Abril cerca de 50 caixas dos arquivos pessoais de Jonathan Sacks (1948-2020). Grão-Rabino das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth (1991-2013), Sacks era escutado e admirado muito para lá das fronteiras do judaísmo. Terá para isso contribuído a sua sensibilidade humana, formação filosófica e vasta cultura. “Embora tenha passado grande parte da minha vida adulta como líder religioso,” confessa no prefácio de uma das suas últimas publicações, Morality: Restoring the Common Good in Divided Times (2020), “o meu primeiro amor, muito antes de vir a ser rabino, foi a filosofia moral, que estudei tanto em Cambridge como em Oxford”.

Preocupava-o a deriva das sociedades europeias após a II Guerra Mundial – o que explica os inúmeros convites para conferências, as cerca de quatro dezenas de livros publicados, e por fim a nomeação, em 2009, para a Câmara dos Lordes.

Sacks batia-se por uma ordem social radicada na Dignidade da Diferença (2002, Gradiva, 2006). Via na dinâmica “universalizante” das democracias liberais uma tendência para relativizar o “particularismo” das tradições culturais e religiosas – entre as quais, naturalmente, a sua. Recorrendo a distinções rabínicas, contrastava a Chokmah – Sabedoria que vamos descobrindo pela ciência e a reflexão – com a Torah – não propriamente a Lei, como habitualmente traduzimos, mas antes o Ensino que recebemos por tradição. Entre as duas, deve respeitar-se a relação dinâmica, pois “a Chokmah diz-nos o que é”, enquanto “a Torah nos indica o que deve ser”. Enfrentamos hoje a ilusão de uma liberdade que se arrogue o direito de ir descobrindo ou falsificando valores, como que prolongando na ética a metodologia delineada por Popper para a ciência. Ela conduzirá inexoravelmente a uma sociedade fragmentada, e porventura mesmo à dissolução do consenso social que sustenta a democracia. A ciência, recorda Sacks, visa a descoberta do que na ordem natural desconhecemos. Os valores e a ética estão noutro patamar: em última análise, dizem respeito à dignidade humana, e nesse campo as grandes opções encontram-se há muito assinaladas nesse património espiritual da humanidade que são as grandes tradições religiosas e filosóficas. Por alguma razão lemos ainda a Ética de Aristóteles mas pouco ligamos ao que ele nos diz da ciência.

Já no que diz respeito à organização da sociedade, e perante o contínuo braço de ferro que opõe a liberalização da economia à tutela apertada do estado, Sacks defende que valorizemos um “terceiro sector”. Entre o estado – que na democracia parlamentar encontrou uma estabilidade avançada – e o mercado – hoje regulamentado, para não resvalar para a lei da selva –, há de facto um terceiro setor, secundarizado pelos demais nos média e na disputa política. Trata-se da “sociedade civil”, ou seja a instância da vida pessoal, familiar e comunitária. E contudo é esse o sector que, em última análise, dá sentido aos outros dois. Para que servem o poder político e económico, se for só para se autopromoverem, ou disputarem o domínio da sociedade? Esse “terceiro sector”, que é fundamental para a humanização da sociedade, é o do dom, do cuidado, do afeto, da pertença.

A experiência primordial de “pertença” serve a Jonathan Sacks de chave para uma comparação clarificadora do desafio hoje colocado às sociedades ocidentais pela mobilidade humana. Imaginemos, propõe Sacks, as nossas sociedades multiculturais primeiro como um grande solar no campo. Na fase da colonização, os “convidados” que acorriam às metrópoles deviam adotar as práticas, regimes alimentares e gostos culturais dos seus anfitriões. Com o aumento dos migrantes em virtude dos processos de descolonização, esse modelo tornou-se incomportável. Surgiu então o modelo do hotel. Cada indivíduo, casal, família ou comunidade étnica é como um hóspede temporário que aluga um quarto, e aí segue os costumes que lhe são familiares; dentro das regras genéricas do hotel, o quarto é como que uma pequena extensão da sua terra de origem. É uma solução prática para o viajante cosmopolita, mas um hotel ou hospedaria torna-se, a prazo, claustrofóbico se com o tempo se transformar em residência permanente. Falta-lhe a dimensão fundamental de “pertença” (belonging) associada a uma pátria ou um lar. A solução, propõe Sacks, é construirmos juntos um lar que nos integre a todos – The Home We Build Together. Recreating Society (2007). Com efeito, “há mais vida para lá da política”.

Livros de Jonathan Sacks na Biblioteca Nacional de Israel. Foto DR

Alguns livros da autoria de Jonathan Sacks no hall da Biblioteca Nacional de Israel. Foto: Direitos Reservados.

 

Nas democracias ocidentais encontramos hoje dois paradigmas possíveis para esse trabalho de construção: o que emergiu da guerra civil inglesa, e o que resultou, um pouco mais tarde, da Revolução Francesa. A visão napoleónica, ao jeito da Grécia Antiga, enaltece a virtude cívica e encara as instâncias da sociedade civil como complemento ou concessão da polis, ou res publica. A tradição britânica e norte-americana, remotamente radicada nas reivindicações da Magna Charta, tende a valorizar perante o estado a originalidade da sociedade civil. Ela é composta de grupos e associações nascidos de alianças de valores, ao jeito do povo bíblico no Sinai, séculos antes da instituição de uma monarquia. Com efeito:

“A aliança (covenant) complementa as duas grandes instituições contractuais: o estado e o mercado. No estado e no mercado entramos como indivíduos movidos por interesses. Na aliança entramos como indivíduos altruístas que visam o bem comum.”[1]

Para “recriar a sociedade”, e integrar a multiplicidade das suas etnias e mundividências culturais num lar para todos, há que investir na conversação de todos com todos, criar instâncias “onde académicos e políticos, líderes religiosos e dirigentes de organizações não governamentais, gente das profissões e dos média se juntem numa deliberação partilhada sobre o nosso futuro coletivo.”

Um sector da sociedade radicado na aliança de valores e não nos interesses do mercado, nas ideologias partidárias, ou na dependência do estado, há-de surgir daqueles momentos e instâncias da vida coletiva:

“em que pomos de lado todas as considerações de riqueza e poder e damos valor às pessoas por aquilo que são e por aquilo que dão; onde Judeu e Cristão, Muçulmano e Hindu, Budista e Sikh se podem encontrar, ligados pelo que têm em comum (communalities) e engrandecidos pelas respetivas diferenças; onde nos juntamos para uma conversação marcada pelo respeito sobre o género de sociedade que gostaríamos de criar para benefício dos netos ainda por nascer; onde partilhamos uma mesma identidade abrangente (overarching) e uma primeira língua de cidadania comum, apesar das nossas diferentes línguas segundas de etnia ou de fé. É onde desconhecidos se tornam amigos. […] A sociedade [a esse nível] é o lar que construímos juntos quando consagramos a diversidade dos nossos dons à construção do bem comum.”[2]

 

Peter Stilwell é padre católico. Foi professor da Faculdade de Teologia e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e é ex-reitor da Universidade de São José, de Macau. Coordena a Comissão para as Relações Ecuménicas e Diálogo Inter-religioso do Patriarcado de Lisboa.

 

Notas:
[1] The Home We Build Together. Continuum, Londres 2007, p. 234.
[2] The Home We Build Together. Continuum, Londres 2007, p. 240

 

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