Consultório, lugar de contrastes improváveis 

| 28 Jul 2022

Hipócrates (na imagem) dizia algo como “a vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é passageira, a experiência é enganosa e o julgamento é difícil”.

Hipócrates (na imagem) dizia algo como “a vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é passageira, a experiência é enganosa e o julgamento é difícil”.

 

Pela profissão que tenho deparo-me frequentemente com contrastes improváveis que só o não são porque já espero que não me procurem profissionalmente para me levar boas notícias, contar histórias alegres ou mesmo partilhar encontros gratificantes e vivências coerentes. Um destes dias, alguém me disse: “Levanto-me, tomo banho, tomo o pequeno-almoço que a minha empregada prepara e volto para a cama para que a manhã se gaste sem eu saber bem como… Não. Não faço nada. Limito-me a olhar para o teto sem imaginar coisa nenhuma. É mesmo à espera que o dia, que nunca começou para mim, se disponha a acabar. A tarde é só outro pedaço indiferenciado de tempo que apenas percebo que emerge porque há uma refeição pelo meio… Nada me interessa. Fazem-me o que há para fazer e eu desperdiço as horas e os minutos como se não ousasse dizer a mim mesmo que desperdiçar esta abstração não tem como não ser desperdiçar a vida.”

Noutro momento, outro alguém chegou e, rindo com aparente boa disposição, comentou: “Sou uma pessoa bem-disposta, gosto do que faço, pratico desporto, divirto-me sem limites… Sim. A minha vida é mesmo boa. Tenho dinheiro, ganho bastante bem, o meu ambiente de trabalho é fantástico. Tenho quem quero, mas, realmente, não gosto de ninguém. É verdade, falta-me empatia. Não consigo senti-la por quem quer que seja. Não tenho paciência para as histórias dos outros, para as dificuldades deles, para as queixas, para as rotinas insuportáveis que toleram ou apreciam. Às vezes caio em envolvimentos fugazes e as pessoas querem continuar caminho para uma relação, mas eu não concedo. Nem pensar nisso. Não me interessa nada. Estou mesmo bem como estou. Faço o que me apetece, como me apetece, quando me apetece… Profissionalmente sou responsável. Acho que posso dizer isso. Ainda assim prefiro que não me chateiem muito…”

Chamei contrastes, mas podia ter chamado retalhos a estes pedaços de narrativa que alguém levou recentemente até mim. 

É propositadamente que não comento prováveis diagnósticos nem planos de intervenção. Não é lugar para o fazer. No entanto parece fundamental assumir que há tantas formas de pensar e de sentir quantas as pessoas que habitam o planeta. Umas mais sustentadas. Outras mais insustentáveis. Umas mais sãs. Outras mais patológicas. Contudo, a riqueza que advém de poder trabalhar com e para pessoas dá-nos isto – uma perspetiva da existência que, muito mais do que conhecimento, obriga à sabedoria, ao respeito mútuo, à construção de uma motivação acrescida para que os enganos mais óbvios desta peregrinação chamada vida humana sejam evitados, dentro do possível, e para que cada um tente mesmo desistir de se auto-enganar. 

Não. Não procuramos apenas o sentido. Buscamos superação e equilíbrio, antes de tudo, no pensar. Procuramos ajudar a abandonar as ilusões de que se pode viver à espera que o tempo passe ou, no polo oposto, sem valorizar o ser humano, mas tendo-o como instrumento único de prazer. 

Nisto que é a procura de equilíbrio e que deve conseguir-se em todas as fases da vida, constata-se que, em cada etapa de nós, é fundamental perceber e assumir que temos de ser maduros na nossa relação com o passado, com o presente e com o futuro e que estas mudam em função da idade que temos.

Encontrei uma citação atribuída a Silvana Duboc, que diz assim: “Pior do que morrer é viver sem fazer a diferença.” E de facto, se acreditamos nisto, então precisamos de ser testemunhas, com as nossas atitudes e comportamentos. Não com os desfiles de virtualidades que apenas servem para exibir certo protagonismo, tantas vezes perverso, em busca de idolatria do eu.

Hipócrates dizia algo como “a vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é passageira, a experiência é enganosa e o julgamento é difícil”. Eu diria que, a partir destas fontes de sabedoria, poderemos tornar-nos alguém transformador, porquanto bom gestor das nossas escolhas e prioridades.  

Não vale a pena fugir da evidência de quem somos; não vale a pena desistir antes de tentar; não vale a pena negar o tempo nem o mundo em que vivemos. É, isso sim, fundamental não alimentar quimeras, não viver de ilusões, não idealizar o que nunca nos coube viver.

É verdade que muitos não sabem parar. Caminham de ter em ter como se isso garantisse a qualidade da sua perenidade. Esquecem-se do que são, confundindo-o e confundindo-se com o que têm. 

Deste modo, aqueles que já despertámos para o essencial da existência, julgamos nós, somos responsáveis por sugerir caminhos, por lançar sementes de sabedoria ou por replicar o eco dos sábios que já desvendaram quase tudo. Assim, termino com um pequeno texto atribuído ao poeta brasileiro Mário Quintana que, em meu entender, foi um homem que soube ler de forma única a vida, pelo menos no tempo em que a idade já lhe mostrava que era velho.

De facto, a velhice é uma etapa da existência que não desejamos, mas que todos, mesmo os mais novos, temos de tentar entender, porque, a bem dizer, todos queremos alcançar, pois desejamos continuar por aqui. Dizia assim, tal como encontrei: “De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem. As opiniões dos outros são realmente dos outros e, mesmo que sejam sobre nós, não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos a certeza de nada e isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado, mas sim a vida que cada um escolheu experimentar. Por fim entendemos que tudo o que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento. E só.” Afinal, talvez isto se possa aplicar, com jeitinho, a todas as etapas da vida e pena é se não pudermos aprender tão profunda mensagem o mais precocemente possível.


Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: 
m.cordo@conforsaumen.com.pt.

 

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