Contas, Natal, eutanásia, populismos e crise pandémica – as preocupações dos bispos católicos

| 13 Out 20

D. José Ornelas (com o cardeal António Marto): os bispos têm vontade de divulgar as contas; falta resolver dúvidas fiscais da aplicação da Concordata. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e bispo de Setúbal, José Ornelas, disse que há “vontade” dos bispos em tornar públicas as contas do Santuário de Fátima, mas considera que devem ser resolvidas as dúvidas ligadas à interpretação das normas fiscais na aplicação da Concordata entre Portugal e a Santa Sé.

Na conferência de imprensa que antecedeu o início oficial da peregrinação de Outubro no santuário, nesta segunda-feira, 12, o bispo defendeu que tem havido “clareza e transparência” com a prestação de contas nos “órgãos próprios” – o Conselho Nacional do Santuário de Fátima (CNSF), que congrega os bispos de Leiria-Fátima, Lisboa, Braga, Évora e Setúbal, além do reitor do santuário. Além disso, elas têm sido auditadas por uma empresa externa, acrescenta.

Também o cardeal António Marto reiterou que “não falta vontade” para divulgar as contas, “mas é preciso” clarificar as dúvidas existentes. Já o reitor do santuário garante que o CNSF “tem esta questão na agenda” há “muito” tempo e que tomará “as decisões mais oportunas, a cada momento”. “Se o Conselho Nacional assim o entender”, haverá contas divulgadas publicamente, garantiu.

Desde 2006, as contas, cujo resumo tinha sido divulgado durante alguns anos, deixaram de ser conhecidas publicamente e passaram a ser auditadas por uma entidade externa, com a justificação das dúvidas sobre a fiscalidade concordatária – uma questão que deve ser resolvida pela Comissão Paritária entre o Estado Português e a Santa Sé.

Na reunião do conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que decorreu na manhã de segunda-feira, 12, também em Fátima, os bispos debateram também várias outras questões. A eutanásia foi um dos temas, com os bispos a reafirmar a sua oposição à legalização. Ao mesmo tempo, manifestaram-se favoráveis à realização de um referendo, como uma “oportunidade para a sociedade pensar sobre o assunto”.

Na mesma ocasião, foi decidido que a assembleia da CEP irá debater na sua assembleia plenária de Novembro um documento sobre os “desafios pastorais” provocados pela situação criada pela pandemia de covid-19, além de novas orientações sobre protecção de menores.

 

Cemitérios com decisões diferentes, Natal não pode repetir a Páscoa

Uma peregrinação e procissão das velas reduzida a 4500 peregrinos, “confinados” em círculos. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

A pandemia obriga, aliás, a várias decisões. Já nos próximos 1 e 2 de Novembro, pode haver interdição da tradicional romagem aos cemitérios. Os responsáveis da CEP admitem que haja orientações diferentes consoantes as realidades locais.

Já quanto ao Natal, o cardeal Marto – naquilo que pareceu uma alusão indirecta às afirmações do Presidente da República – afirmou: “No Natal, não podemos repetir o que aconteceu na Páscoa e isso depende de nós, do nosso comportamento. É a nossa escolha, é a nossa responsabilidade de cidadãos e de cristãos.”

O bispo de Leiria considera, no entanto, que os cristãos e a Igreja no seu conjunto têm tido um comportamento “exemplar”, dando uma “lição de responsabilidade”: “Estamos a viver um novo momento de provação e de escolha”, afirmou, mas a pandemia “põe em causa muitos dos paradigmas” actuais.

D. António Marto referiu também o impacto que a situação está a provocar nas populações mais frágeis: “Esta crise repercutiu-se com muita seriedade na vida das famílias e das pessoas que vivem com maior dificuldade”. O bispo de Setúbal acrescentou que há já uma “subida exponencial” de pedidos de ajuda às instituições católicas que trabalham nesta área desde o início da crise pandémica.

“Tem aumentando o número de pessoas e famílias que batem à porta da Cáritas, sobretudo para as necessidades mais básicas”, confirmou o cardeal Marto, acrescentando que esta instituição tem menos receitas, uma vez que este ano não realizou o peditório anual que costuma acontecer em Março.

As instituições sociais católicas, além das paróquias, são um “barómetro social” do que se passa no país, disse D. José Ornelas. Mas a situação, acrescentou, é sobretudo grave para os imigrantes que chegaram recentemente a Portugal e se viram “sem nada, de repente”. Há situações “realmente dramáticas”, afirmou.

Para ter uma radiografia, quer da situação económica, quer da prática religiosa nas 20 dioceses do país, a CEP irá promover em breve uma reunião dos vigários-gerais.

Já à noite na homilia da missa da peregrinação, o bispo de Setúbal criticou as atitudes “manipuladoras e populistas” de alguns líderes políticos perante a pandemia.

Perante cerca de 4500 peregrinos que estariam o recinto, de acordo com os números do santuário (menos do que os seis mil que o recinto poderia comportar, depois das novas regras estabelecidas para cumprir as normas de distanciamento físico), D. José Ornelas afirmou: “Durante esta pandemia, a par da mais heroica abnegação e generosidade de tanta gente, têm-se manifestado também muitas e poderosas atitudes manipuladoras, populistas, interesseiras e egoístas, sem remorso de usar o sofrimento, o desconcerto, a desorientação, para daí tirar dividendos políticos e económicos, criando mesmo conflitos.”

Na mesma ocasião, o bispo manifestou o desejo de que “possa nascer uma humanidade que habite uma terra que seja casa comum, que seja terra para todos”, não permitindo “que os mais débeis fiquem esquecidos”, mas antes crescendo “na solidariedade, na criatividade, na busca de caminhos novos para um mundo novo.

O bispo, que presidia às cerimónias, destacou ainda o exemplo de quem tem dado apoio aos mais necessitados ou doentes: “Pensemos, por exemplo, naqueles e naquelas que estão a fazer esforços incríveis, em condições dramáticas, para socorrer as pessoas atingidas pela pandemia, nos hospitais, nos lares, nas casas onde se vive em solidão, nos campos de refugiados sem condições, na busca soluções para todos e não apenas para alguns”, dizendo que os cristãos devem “cuidar dos mais frágeis e dos descartados, [ter] a coragem de partilhar a sorte dos condenados, dos excluídos, dos incómodos”.

 

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