Contemplação deve ser cultivada na universidade, defende cardeal Tolentino Mendonça

| 2 Mar 21

Universidade de Coimbra, Tolentino Mendonça,

Sessão comemorativa dos 731 anos da Universidade de Coimbra, durante a qual foi entregue o Prémio Universidade de Coimbra ao cardeal Tolentino Mendonça. Foto © UC/Paulo Amaral, via Ecclesia.

 

Para fazer frente à “mudança epocal” requerida pela pandemia, vai ser necessário criar um “vocabulário do futuro” que passa por duas palavras a que a Universidade terá de prestar atenção: contemplação e cuidado. A proposta vem do professor universitário e cardeal José Tolentino Mendonça, no discurso proferido no ato de receção do Prémio Universidade de Coimbra, com que esta instituição o quis homenagear.

Na cerimónia que evocou também os 731 anos da mais antiga escola superior do país, Tolentino Mendonça começou por convocar “uma história aparentemente longínqua”, ligada à Biblioteca Apostólica do Vaticano, de que é atualmente responsável. Essa história tem a ver com o facto de nela se conservar um dos 12 códices pré-colombianos que sobreviveram e nos falam das origens da civilização azteca, suas crenças, epopeias e transumâncias, traçando, ao mesmo tempo “a cartografia ancestral dos seus saberes ou a beleza dos seus cancioneiros”. Os conhecimentos e beleza contidos em tal documento terão servido, de resto, para argumentar junto do papado que quem era capaz de realizar tão excelsas obras só poderia ser considerado um ser humano (um reconhecimento que viria a ganhar forma através da bula Sublimis Deus do Papa Paulo III, em 1537, que Tolentino considerou “um dos textos basilares da cultura moderna”).

Foi na sequência desta evocação histórica que o responsável da Biblioteca do Vaticano passou a uma reflexão sobre o papel da ciência e da Universidade para a construção da comum humanidade. “Em vez de encapsular ou confiscar – observou – o saber universitário devolve conhecimento, interroga as fronteiras da linguagem e da experiência, reforça o ethos comunitário, alargando e multiplicando as perspetivas, colocando-se ao serviço da humanidade de todos”.

E prosseguiu: “Muitas vezes se ouve interrogar (…) para que servem a filosofia, as humanidades, as artes ou o pensamento; para que servem físicos ou filólogos, para que servem as ciências, as carreiras de investigação, as bibliotecas ou as universidades. Servem para isto: para atestar e persuadir, como na história do códice [já referido] de que somos humanos; para salvaguardar esse bem frágil que é sempre a humanidade contra aquilo que incessantemente a ameaça; para aprofundar o sentido da nossa própria humanidade tanto em termos coletivos como na ardente singularidade de cada sujeito.”

Tolentino citou, depois, Fernando Pessoa que escreveu, um dia, que o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. “E tinha razão”, concluiu o cardeal, “ambos são um documento humano, uma hipótese de conhecimento erguida contra a ignorância e a barbárie”.

A presente pandemia, que obrigou, de resto, a que na cerimónia estivessem apenas presentes alguns dos responsáveis da Universidade e o homenageado a intervir por teleconferência, “marca uma mudança epocal”. “E não tenhamos ilusão, não voltaremos para trás; a normalidade pela qual tanto ansiamos não é um lugar já conhecido a que se torna, mas uma construção nova, na qual nos temos de nos empenhar. Por distópica que possa ser, a pandemia empurra-nos para o futuro.”

 

Contemplação e cuidado, as palavras do futuro
Universidade de Coimbra, Tolentino Mendonça,

Tolentino Mendonça: cabe às universidades “a antecipação daquelas palavras que se tornarão decisivas para a construção do futuro”. Foto © UC/Paulo Amaral, via Ecclesia.

 

O responsável da Biblioteca do Vaticano sublinhou, depois, como decorrência destes tempos pandémicos, que “as sociedades do futuro terão de valorizar sempre mais a importância e a centralidade do conhecimento, porventura recorrendo a paradigmas mais interdisciplinares e colaborativos” e apoiando-se na internacionalização e no trabalho em rede. Mas cabe às universidades, na sua opinião, “a antecipação daquelas palavras que se tornarão decisivas para a construção do futuro”. Destacou duas, desse “vocabulário do futuro”: contemplação e cuidado.

Sobre a primeira, recordou as “críticas veementes” de Nietzsche, no século XIX, contra o modelo das universidades modernas, acerca do facto de se ter perdido a dimensão contemplativa – “essa liberdade para o aprofundamento não utilitarista da ciência”. “O que nos dissocia do mundo e da vida é, antes, uma erudição apressada”, disse, citando o filósofo oitocentista. Criticou, neste contexto, os “ditames da produtividade”, do “controlo utilitarista”, do “imediatismo imposto às universidades, em vez dos tempos necessariamente abertos e longos que o conhecimento e a investigação científicos requerem”. O resultado é, numa expressão que bebeu em George Steiner, “uma sociedade de logocratas e comentadores, em vez de …criadores, interrogantes, exploradores e intérpretes do real”. E concluiu, sobre este ponto: “A contemplação é a arte de nos aproximarmos de nós próprios e do mundo e não de nos afastarmos”.

Acerca da outra “palavra futurante”, o cuidado, Tolentino Mendonça sustentou que as nossas sociedades “precisam de colocar no âmago da vida, com maior decisão e empenhamento, a noção de bem comum”. Isto porque “a acentuação do individualismo conduziu-nos a uma dramática fragmentação da experiência social”. O caminho a percorrer deverá ser o de cuidar de todos, “sem deixar ninguém para trás.” Servir o bem comum deve “tornar-se o objetivo mobilizador como comunidade”, traduzido no serviço à pessoa humana, “a sua dignidade singular e inviolável, e servir a harmonia com toda a criação”. E também aí as universidades deveriam estar na linha da frente.

No discurso que fez na sessão dos 731 anos da Universidade de Coimbra, o reitor, Amílcar Falcão, além de uma mensagem de esperança, deixou também um alerta: “Espero – disse ele – que a sociedade perceba quão efémera é a situação que vivemos por comparação com aquilo que será a pandemia das pandemias, caso não encaremos de forma responsável a problemática das alterações climáticas.”

O Prémio Universidade de Coimbra, no valor de 25 mil euros, foi, pela primeira vez, dividido em duas partes, 10 mil euros para o vencedor e 15 mil euros para uma bolsa de investigação numa área que será escolhida pelo galardoado.

A intervenção do cardeal Tolentino pode ser vista e ouvida na íntegra no vídeo a seguir, que regista toda a sessão comemorativa.

 

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