
Olá./ Podemos ser amigos? / Esta árvore é o meu freixo./ E esta é o meu teixo. Gravura: Alberto Teixeira.
A dimensão actual da violência no mundo exige que se reconstrua a realidade fundada na fraternidade. A esperança parece ceder lugar ao desespero, transformada em indiferença generalizada, muitas vezes encapuçada por ideologias políticas, onde ser pessoa não passa de ocupar um espaço e um tempo incerto.
A face do ser humano desaparece, para dar lugar a uma zombificação social, onde a pessoa não é mais que uma máscara. “Onde está o teu irmão”? – perguntou Deus a Caim. (Génesis 4,9).
Esta pergunta leva-nos a uma multiplicidade de questões: Podemos torturar e matar um irmão, se no seu rosto vemos a luz da nossa própria humanidade? Podemos profanar os mortos, exibindo-os, se amanhã seremos como eles? Podemos conquistar o mundo sobre o sangue dos outros? O outro não é um tesouro indispensável para uma melhor compreensão e expressão de si?
Na tradição judaica, a ideia de contemplar a imagem de Deus no outro está profundamente enraizada na crença de que todos os seres humanos foram criados à imagem de Deus (Génesis 1:27). Isso implica reconhecer a divindade inerente em cada pessoa e tratá-la com respeito e dignidade.
Para a ortodoxia cristã, contemplar a imagem de Deus no outro está ligado à crença de que Jesus Cristo é a imagem perfeita de Deus (Colossenses 1:15), e que os seres humanos refletem essa imagem de forma imperfeita. Portanto, ao interagir com os outros, os cristãos são chamados a ver neles a presença de Deus e agir com amor e compaixão.
No catolicismo, a doutrina da imagem de Deus no outro é uma extensão do ensinamento de que todos os seres humanos são filhos de Deus e têm uma dignidade intrínseca. Isso implica tratar cada pessoa com respeito e empatia, reconhecendo nelas a presença divina e agindo em conformidade com os princípios éticos e morais da fé católica.
Para os ateus, a ideia de contemplar a imagem de Deus no outro pode ser interpretada de forma mais secular, enfatizando a importância de reconhecer a humanidade compartilhada e a igualdade de todos os seres humanos, independentemente de crenças religiosas. Isso pode manifestar-se no respeito pelos direitos humanos, na promoção da justiça social e na valorização da diversidade.
Independentemente das crenças religiosas ou da falta delas, contemplar a imagem de Deus no outro envolve reconhecer a sacralidade e a dignidade de cada ser humano, e agir de acordo com esse reconhecimento nas nossas interações e relações pessoais.
Alberto Teixeira é cristão ortodoxo










