Francisco para Biden, segundo Biden

“Continue a ser um bom católico e a comungar”

| 30 Out 2021

papa francisco com joe biden foto vatican news (1200 x 900 px)

A proteção e o cuidado do planeta, a luta contra a pandemia, a situação dos refugiados e a assistência aos migrantes, assim como a proteção dos direitos humanos, foram os temas “oficiais” do encontro de Joe Biden com Francisco. Foto © Vatican News.

 

O assunto mais mediático do encontro de sexta, 29 de outubro, do Presidente Biden com o Papa Francisco não foi abordado nos comunicados oficiais de ambas as partes, mas sim pelo próprio Presidente americano quando afirmou aos jornalistas que o Papa lhe tinha dito que ele devia continuar a receber a comunhão.

Falando numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, que antecedia a reunião do G-20 em Roma, Joe Biden revelou: “Abordámos o facto de ele [Francisco] estar muito feliz por eu ser um bom católico e por continuar a receber a comunhão.” Questionado diretamente por um jornalista se o Papa dissera que ele deveria continuar a receber a comunhão, o Presidente respondeu: “Sim”.

O diálogo, citado, entre outros, pelo Religion News Service veio dar razão aos piores receios com que os sectores mais conservadores da Igreja Católica norte-americana olhavam para este encontro do Papa com um Presidente católico que se tem oposto à revogação da legislação descriminalizando o aborto. Na perspetiva daqueles sectores liderados por vários bispos, esta posição de Joe Biden deve acarretar a sua excomunhão real e prática, isto é, impedir que ele comungue.

A questão de se saber se o Papa Francisco partilhava, ou não, da excomunhão do Presidente americano, constituía o tema “não dito”, o assunto delicado fora da agenda do encontro de ontem, mas era, contudo, a questão mediática mais relevante.

O tema ganhou particular acuidade depois de ser conhecida a intenção da Conferência Episcopal dos EUA de, na sua próxima assembleia plenária de meados de novembro, emitir instruções para a recusa da comunhão a personalidades públicas católicas defensoras de legislação permitindo o recurso ao aborto.

 

Pastores e não políticos

Francisco tem classificado de modo claro e inequívoco, na linha da tradição católica, o aborto como homicídio. Mas, inquirido a 15 de setembro, no regresso da visita à Hungria e Eslováquia, sobre a eventual instrução dos bispos americanos, o Papa não apoiou a recusa da comunhão dizendo que “o problema não é teológico, é pastoral” e que “se os bispos não administram um problema como pastores, posicionam-se do lado político”.

Apesar desta chamada de atenção para o primado da atitude pastoral e para o cuidado para não interferirem diretamente no jogo político-partidário nacional, o Papa parece não ter conseguido convencer alguns dos prelados americanos que frequentemente o têm enfrentado em outras matérias pastorais [ver 7MARGENS], pelo que era possível que a assembleia plenária dos bispos dos EUA pudesse votar já em meados de novembro uma orientação reforçando a excomunhão prática do Presidente Joe Biden. Com a declaração feita aos jornalistas, e embora os serviços de Imprensa do Vaticano não a tenham confirmado, o Presidente americano coloca a eventual iniciativa dos bispos do seu país em flagrante confronto com a indicação por ele recebida diretamente do Papa.

Biden tem várias vezes repetido que é contra o aborto e que o vê como um ato condenável, mas tem-se recusado a impor a sua visão à maioria dos americanos que não professam a sua fé ou que não partilham as suas convicções. O conflito entre o católico Joe Biden e a hierarquia católica do seu país agudizou-se em meados de outubro, depois de a Administração Biden ter anunciado que iria lançar mão de todos os recursos legais contra a revogação pelo Estado do Texas da legislação estadual que descriminalizava a prática do aborto até às 24 semanas.

O ambiente favorável à revogação de tais leis começou muito antes da era Trump, mas conheceu um forte progresso durante os quatro anos em que Donald Trump ocupou a Casa Branca, sendo em boa parte liderado por movimentos pró-vida próximos da Igreja Católica.

Nas várias batalhas jurídicas que as leis relativas ao aborto têm conhecido nos últimos anos, o Supremo Tribunal de Justiça tem-se recusado a intervir, apesar de em 1973 ter tido um papel fundamental ao reconhecer o direito das mulheres a solicitarem o aborto até às 22 semanas. Mas agora foi chamado, pela Administração Biden, a pronunciar-se sobre a constitucionalidade da legislação votada pelo Estado do Texas. Atendendo à sua maioria conservadora (6-3), nada garante que o Supremo venha a tomar posição favorável à declaração de anticonstitucionalidade solicitada pela Departamento de Justiça.

Ambiente, pandemia e pobreza

Do lado oficial, a proteção e o cuidado do planeta, a luta contra a pandemia, a situação dos refugiados e a assistência aos migrantes, assim como a proteção dos direitos humanos, incluindo o direito à liberdade religiosa e de consciência foram, segundo um comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano, os temas abordados durante a audiência que o Papa concedeu ao Presidente Biden.

A Sala de Imprensa do Vaticano classificou como “cordiais” as conversações entre os dois chefes de Estado, enquanto os jornalistas creditados junto da Santa Sé referiram a “duração recorde da audiência”, provavelmente a mais longa de sempre entre um Papa e um Presidente americano. A nota de imprensa difundida pelo Vaticano sublinha que “as conversações permitiram uma troca de opiniões sobre algumas questões internacionais atuais, inclusive no contexto da próxima cimeira do G20 em Roma, e sobre a promoção da paz no mundo através da negociação política”, numa referência implícita ao agudizar da tensão entre Washington e Moscovo e, sobretudo, entre os EUA e a China.

Por seu turno, a Casa Branca emitiu um comunicado, logo após a saída de Biden do Vaticano, afirmando que o Presidente dos EUA “agradeceu a Sua Santidade o apoio prestado aos pobres e aos que passam fome, sofrem com a guerra e a perseguição no mundo”. A nota refere ainda que Biden “elogiou a liderança do Papa Francisco no combate à crise climática, bem como a sua defesa do fim da pandemia para todos, através de vacinas para todos e de uma recuperação económica global justa”.

Apesar de já antes se terem encontrado oficialmente três vezes, esta foi a primeira reunião do Papa com o Presidente Joe Biden depois de este ter sido empossado no cargo. O encontro de ontem teve como pano de fundo as próximas cimeiras do G-20 (em Roma, 30 e 31 de outubro) e do clima (em Glasgow, de 31 de outubro a 12 de novembro), bem como a persistente pressão de novas vagas de imigrantes na fronteira Sul dos EUA, pressão em relação à qual a Administração Biden tem mantido uma política de ziguezague sem grande consistência, mas fortemente criticada pelo Partido Republicano.

 

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