A Igreja Católica em Portugal continua a ser marcada por “assimetrias de poder, perceções distorcidas sobre a figura sacerdotal e resistências culturais que dificultam a denúncia e a proteção efetiva de crianças, adultos vulneráveis e sobreviventes” de situações de abuso sexual no seu seio, pelo que a continuidade do Grupo Vita “revela‑se essencial”. Esta é uma das principais conclusões do IV Relatório de Atividades daquele organismo, apresentado na tarde desta terça-feira, 27 de janeiro, no Seminário de Alfragide (Amadora).
Criado pela Conferência Episcopal Portuguesa em abril de 2023, o Grupo Vita (Grupo de acompanhamento das situações de violência sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal) apresentou-se desde o início como “um grupo temporário”, cujas ações seriam “gradualmente assumidas pelas estruturas eclesiásticas”.
No entanto, passados quase três anos da sua criação, o quarto relatório do grupo indica que “a ausência de estruturas uniformizadas, a falta de mecanismos consistentes de prestação de contas e as fragilidades na articulação entre e com Comissões Diocesanas e Institutos Religiosos demonstram que o sistema de proteção ainda não atingiu a maturidade necessária para funcionar de forma autónoma e plenamente eficaz”.
Além disso, assinala ainda o documento, a “lentidão nas respostas, a necessidade de clarificação conceptual e a urgência de reforçar uma abordagem centrada na prevenção — frequentemente comprometida por equívocos e narrativas que minimizam a atualidade dos abusos — evidenciam que o acompanhamento técnico especializado do Grupo Vita continua a ser indispensável”, pode ler-se neste quarto relatório de atividades.
Para a equipa liderada pela psicóloga Rute Agulhas, não restam dúvidas de que o Grupo Vita desempenha, neste momento, “um papel estruturante na promoção de práticas uniformes, na capacitação das equipas locais, na credibilização das vítimas e sobreviventes e na consolidação de uma cultura de transparência e responsabilidade”.
Deste modo, “a continuidade do Grupo Vita não é apenas recomendável”, conclui o relatório que acaba de ser apresentado. “É uma condição necessária para assegurar coerência, rigor e compromisso efetivo com a proteção e a prevenção.”
Após a apresentação do relatório, o bispo José Ornelas, presidente da CEP, anunciou que a continuidade do Grupo Vita será analisada na assembleia plenária de abril.
“Estamos disponíveis para continuar este processo se entenderem”, adiantou por seu lado Rute Agulhas, embora salientando que, “a haver alguma continuidade, é preciso reformular os objetivos” do grupo e reconfigurá-lo para “trabalhar de forma mais próxima” das comissões diocesanas e das ordens religiosas.
Padres “idealizados”, vítimas “descredibilizadas” e processos que ficam pelo caminho

Desde que entrou em funcionamento e até dezembro de 2025, o Grupo Vita recebeu 850 chamadas telefónicas, sendo que a partir delas foram identificadas 154 vítimas e sobreviventes de violência sexual. Foto © Agência Ecclesia/OC
Se há ideia que este novo relatório pretende deixar clara é que os abusos “não são coisa do passado” e que há registos de casos recentes, ocorridos já depois de o tema estar na agenda pública.
Desde que entrou em funcionamento e até dezembro de 2025, o Grupo Vita recebeu 850 chamadas telefónicas, sendo que a partir delas foram identificadas 154 vítimas e sobreviventes de violência sexual (69 em 2023, 49 em 2024 e 36 em 2025) e uma pessoa (leigo) que cometeu crimes sexuais no contexto da Igreja.
Apesar de os números indicarem uma redução progressiva de pedidos de ajuda e sem deixar de reconhecer que, ao longo dos dois últimos anos e meio, “tem sido trilhado um percurso positivo” na Igreja Católica em Portugal, com uma “abertura progressiva ao diálogo, à formação e à adoção de boas práticas de prevenção e resposta à violência sexual”, o Grupo Vita alerta no entanto que “persistem metas por concretizar e objetivos por atingir”.
E detalha as principais dificuldades e desafios que se têm colocado à continuidade desse caminho, a começar pelo facto de os padres continuarem a ser percebidos como “figuras divinas ou moralmente superiores”, o que “reforça a desigualdade de poder e dificulta a denúncia de comportamentos abusivos”. “Esta visão sacralizada pode levar fiéis — especialmente crianças e adultos vulneráveis — a acreditar que o sacerdote ‘não pode falhar’, criando um ambiente onde o questionamento é visto como desrespeito”, explica o relatório, acrescentando que “esta idealização contribui para a perpetuação do silêncio e para a invisibilidade da violência”.
O documento destaca também o facto de persistir uma perceção de que as vítimas e sobreviventes “mentem ou exageram” nos seus relatos. Há “falta de formação específica sobre trauma e memória”, o que contribui para interpretações erradas dos relatos das vítimas e “fragiliza a escuta ativa e o reconhecimento das suas experiências traumáticas”. Esta postura, aponta o Grupo Vita, “além de revitimizar, desencoraja outras pessoas a denunciar, perpetuando ciclos de silêncio”.
Mas os desafios não ficam por aqui. A inexistência de centros de escuta, códigos de conduta e respostas especializadas implementadas de forma uniforme nas dioceses e congregações religiosas “gera desigualdades significativas na proteção e no acompanhamento”, assinala o Grupo Vita. Além disso, muitas entidades “continuam sem apresentar relatórios claros, dados atualizados ou mecanismos de accountability [prestação de contas]”. Uma ausência de transparência que “compromete a confiança no sistema e impede a avaliação rigorosa das medidas implementadas”, lamenta o Grupo Vita.
O organismo criado pela CEP afirma ainda que persistem “constrangimentos na articulação com algumas Comissões Diocesanas, que continuam a atuar de forma pouco integrada e com níveis distintos de maturidade organizacional”, o que gera “inconsistências no acompanhamento das vítimas e sobreviventes”.
Quanto aos tempos de resposta às vítimas e sobreviventes, bem como ao próprio Grupo Vita, “revelam-se frequentemente longos, gerando frustração e comprometendo a eficácia do apoio”. Uma demora que resulta de “falta de recursos, burocracia excessiva ou ausência de procedimentos claros” e que gera nas vítimas um sentimento de “desvalorização do sofrimento” e um desencorajamento da continuidade do processo.
Novos recursos e propostas para o futuro

O grupo deixa, nas últimas páginas do relatório, um conjunto de mais de 30 “propostas para o futuro”, que deseja contribuir para implementar, caso a CEP dê continuidade à sua existência. Foto © Agência Ecclesia/OC
Estes e outros problemas são identificados ao longo do documento. Mas as mais de 80 páginas deste quarto relatório de atividades centram-se também, e sobretudo, em soluções e propostas, incluindo dois novos “recursos” que foram também apresentados.
O primeiro, intitulado A Igreja que Escuta, é um conjunto de diretrizes para encontros entre vítimas e sobreviventes e representantes da Igreja. O objetivo é garantir que estes encontros, descritos como oportunidades de “justiça restaurativa”, decorram com “empatia, segurança e responsabilidade”, promovendo “o reconhecimento do dano, os pedidos privados de desculpa e a reparação simbólica”, sem substituir a preparação individualizada de cada caso.
O segundo é o Guia de Apoio e Escuta, destinado a familiares e amigos de vítimas e sobreviventes de violência sexual no contexto da Igreja Católica em Portugal, porque “os familiares e amigos nem sempre sabem como reagir perante estas situações, podendo também sentir diversas emoções — como choque, tristeza, raiva, impotência ou confusão”, explica o Grupo Vita, que propõe este guia como ferramenta de orientação prática e emocional.
Estas ferramentas são já fruto do projeto Sobre.VIVER, uma iniciativa também ela pioneira, lançada pelo Grupo Vita em outubro do ano passado, que procura dar voz às vítimas e sobreviventes de violência sexual no contexto da Igreja Católica em Portugal, oferecendo sessões mensais, online e dinamizadas por dois elementos do Grupo, para abordar em conjunto temas como estratégias de proteção e prevenção, apoio a familiares, reparação e reconstrução pessoal. Até ao momento, o projeto conta com a participação de 24 vítimas e sobreviventes, dos quais dez colaboram individualmente e 14 em grupos online.
O grupo deixa ainda, nas últimas páginas do relatório, um conjunto de mais de 30 “propostas para o futuro”, que deseja contribuir para implementar, caso a CEP dê continuidade à sua existência. Desde “garantir a continuidade da linha de atendimento telefónico e do acompanhamento psicoterapêutico especializado” e avaliar sistematicamente o impacto e satisfação com esses processos a “criar um sistema de acompanhamento pós-compensação financeira”, passando por expandir as ações formativas que já vêm sendo desenvolvidas a todas as dioceses e institutos religiosos ou por tornar a formação obrigatória em seminários e noviciados, o Grupo Vita considera que é preciso “um esforço coordenado, persistente e multidisciplinar” para que na Igreja Católica em Portugal os ambientes se tornem “verdadeiramente seguros”.
“Mais do que um conjunto de medidas, trata‑se de construir uma cultura de proteção que só se torna possível quando todos os atores trabalham de forma articulada, colaborativa e orientada para o bem comum”, conclui o documento.










