A saúde, a educação e a segurança alimentar não devem ser sacrificadas em favor do aumento dos gastos militares. O apelo foi deixado pelo arcebispo Christophe Zakhia El-Kassis, observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, durante a 81.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, a decorrer em Nova Iorque, na qual condenou ainda o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa, incluindo nos espaços digitais.
Numa intervenção perante a Segunda Comissão, dedicada às questões económicas e financeiras, o representante da Santa Sé advertiu que o crescimento das despesas militares está a reduzir os recursos disponíveis nos países em desenvolvimento para áreas essenciais à construção de sociedades pacíficas e resilientes, como a saúde, a educação, o trabalho digno e a ação climática.
El-Kassis defendeu, segundo o Vatican News, uma reorientação das prioridades financeiras internacionais, com a construção de “uma arquitetura financeira internacional mais justa e inclusiva”, que permita aos países em desenvolvimento participar nas decisões que condicionam a sua capacidade de investimento.
O arcebispo chamou também a atenção para “o peso da dívida insustentável que recai sobre tantos países em desenvolvimento”. Embora possa ser um instrumento de desenvolvimento, quando permite investir nas populações, a dívida torna-se um obstáculo quando absorve os recursos necessários para financiar serviços essenciais. A Santa Sé defende, por isso, mecanismos mais justos que permitam aos países endividados investir nas suas populações e concretizar as suas prioridades de desenvolvimento.
Recordando que restam apenas quatro anos até à conclusão do prazo estabelecido para a concretização da Agenda 2030 das Nações Unidas, El-Kassis considerou que os progressos continuam desiguais, devido à persistente falta de recursos para os países e comunidades que mais deles necessitam. No final da intervenção, apelou a uma distribuição dos recursos que “dê a devida prioridade à paz, à prosperidade e ao desenvolvimento autênticos e duradouros”.
Educação, família e proteção das crianças
Nas intervenções perante a Terceira Comissão da Assembleia Geral, El-Kassis da Santa Sé abordou também o desenvolvimento social, a promoção das mulheres e a proteção das crianças, insistindo na necessidade de colocar as pessoas no centro das políticas públicas.
Recorrendo à encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV, El-Kassis defendeu que o desenvolvimento só é verdadeiramente humano quando privilegia as pessoas, e não a acumulação de riqueza. A luta contra a pobreza, acrescentou, exige que as populações mais vulneráveis sejam “participantes ativos e protagonistas” da sua própria redenção.
Neste processo, destacou a importância da educação, que deve ajudar as pessoas a “ser” mais, e não simplesmente a “ter” mais. Também a família ocupa um lugar central, uma vez que o seu enfraquecimento compromete compromete “o crescimento autêntico de todo o corpo social”.
Na intervenção sobre a promoção das mulheres, El-Kassis defendeu que a igualdade se traduza em medidas concretas, nomeadamente através do acesso ao emprego e à educação. Denunciou ainda a persistência do tráfico de seres humanos e da violência contra as mulheres, bem como a maternidade de substituição, que, segundo a posição expressa pela Santa Sé, transforma a gestação num serviço negociável e reduz a criança a um produto.
A proteção das crianças foi outro dos temas abordados, com o representante do Vaticano a condenar o trabalho infantil, os casamentos precoces e os conflitos armados, nos quais os menores estão entre as principais vítimas. A intervenção reafirmou igualmente a posição da Santa Sé sobre a defesa da vida desde a conceção.
“Ideologias materialistas e nacionalistas” comprometem unidade
Ainda perante a Terceira Comissão, dedicada à eliminação do racismo, da discriminação racial, da xenofobia e de outras formas de intolerância, El-Kassis alertou para a persistência de práticas discriminatórias, apesar dos progressos alcançados.
De acordo com os média do Vaticano, o arcebispo advertiu para as “ideologias materialistas e nacionalistas” que comprometem a unidade da família humana e dificultam a construção de uma verdadeira comunidade internacional.
O representante da Santa Sé chamou particularmente a atenção para a situação dos migrantes, refugiados e requerentes de asilo, que, em vez de encontrarem segurança e melhores condições de vida, se deparam frequentemente com a indiferença e o estigma da discriminação.
A preocupação estende-se aos ambientes digitais, onde novas formas de exclusão e preconceito amplificam o ódio e a polarização. “Na era digital, a justiça social exige que os dados e as tecnologias sejam utilizados para promover a dignidade humana e o bem comum”, afirmou.
El-Kassis condenou igualmente a intolerância religiosa, incluindo o antissemitismo, a cristianofobia e a islamofobia, considerando que todas as formas de hostilidade motivadas por preconceitos antirreligiosos devem ser firmemente rejeitadas.
A declaração terminou com um apelo ao reforço do respeito pela dignidade inalienável de cada pessoa e à promoção de uma cultura de encontro e abertura aos outros, assente no respeito mútuo.
A dignidade comum a todo ser humano, “concedida por Deus” e “fundamental para a construção de uma verdadeira comunidade internacional” é hoje ameaçada por formas de discriminação que se espalham por esferas cada vez mais amplas, lamentou.
Nas diferentes intervenções desta terça e quinta-feira, 6 e 8 de outubro, a Santa Sé defendeu, assim, que a dignidade humana seja o critério orientador das decisões internacionais, tanto na distribuição dos recursos económicos como no combate ao racismo, à xenofobia e à intolerância.










