Contra as trincheiras, o riso

| 17 Jun 2024

Humor. Berlim

Imagem: Abdul Kader Chahin e Shahak Shapira © Marvin Ruppert | Moritz Künster. Direitos Reservados

Por estes dias, decorre em Berlim a iniciativa “Reflexos e Reflexões”, que Saba-Nur Cheema e Meron Mendel, dois autores e activistas do diálogo entre judeus e muçulmanos, começaram a programar já em janeiro de 2024, no âmbito dos Berliner Festspiele. O objectivo é proporcionar debates com espaço para nuances, como forma de resistir ao processo de entrincheiramento que o 7 de Outubro e a guerra de Gaza estão a provocar na sociedade alemã. Os autores contextualizam: entre o ruído de uns e o silêncio de muitos, desde o massacre do Hamas assiste-se na Alemanha a uma crescente violência verbal, psicológica e física tanto contra judeus como contra muçulmanos. Os antigos preconceitos estão a regressar com a insídia de sempre, e a eles se juntam preconceitos novos, igualmente destrutivos.

Para mais informações sobre esta iniciativa, em inglês, podem seguir este link: Reflexos e Reflexões. Ontem à noite, tive a sorte de assistir à sessão de stand-up comedy de Abdul Kader Chahin e Shahak Shapira, numa sala esgotada, com um público muito diversificado que ia desde a jovem checa com keffiyeh, na primeira fila, aos maduros burgueses de Charlottenburg – como eu.

Abdul Kader Chahin, que nasceu na Alemanha, numa família de refugiados palestinianos, é o primeiro a subir ao palco. Faz de conta que está aflito com as câmaras da ARTE, “temos trezentas câmaras nesta sala, é desta que vou ser cancelado”.

Conta da primeira vez que foi a um talk show importante na TV alemã. No final, não ligou logo o telemóvel, porque temia a reacção dos pais. Quando finalmente conseguiu coragem para o ligar, recebeu um telefonema do irmão mais novo: “Abdul, fantástico! Falaste como um leão! Só não percebemos uma palavra que disseste muitas vezes, parecida com Pandora…” “Diáspora!”, pensa Abdul, e conclui: “Estou tramado”.

É provavelmente o fio condutor desse serão: ninguém me entende, nem sequer os “meus”. E ali temos um palestiniano e um judeu israelita, que mantêm um público berlinense a rir durante hora e meia com comentários e relatos de incidentes sobre esta tragédia do nosso tempo: ninguém se ouve, ninguém se entende.

Abdul conta que nas redes sociais lhe exigem repetidamente: “libertem os reféns!” Telefona ao pai, em Duisburg:

– Pai, tens alguns reféns para libertar?
– De que nacionalidade? – Israelitas.
– Deixa cá ver… não, israelitas não temos nenhum. Temos de esperar que os teus primos nos visitem de novo, nessa altura já te arranjava dois.

Por sorte, tem o Sahak ali na sala. E a organização até lhes arranjou um back stage na cave, dá imenso jeito para fazer os túneis do costume e esconder o judeu. Continua, fala da extrema-direita: “Dizem que não é possível falar com pessoas da extrema-direita. Eu acho que se deve falar, e amanhã até tenho um segundo encontro com aquele tipo com quem falei há dias. Vou visitá-lo ao hospital.”

(Não sei se Shahak se riu nesta parte. Ele, a quem já cuspiram na cara. Ele, cujo irmão teve de ser operado de urgência, vítima de “diferenças de opinião” por causa do 7 de Outubro e da guerra de Gaza. Mas num debate com nuances também tem de haver espaço para encaixar contradições.)

Abdul chama Shahak para o palco. Procura-o com o olhar na parte da sala onde estavam ambos antes de começar a sessão, mas Shahak já está no lado oposto, junto ao bar. Sobe ao palco a rir:
– Caramba, Abdul, és o mais incompetente de vocês todos! Até nesta sala consegues perder um refém!

Se Abdul é quem guarda os reféns, Shahak é o assassino de bebés. É assim que lhe chamam nas redes sociais. E logo a ele, que vive na Alemanha desde os 14 anos, que se diz meio árabe (um avô iraquiano, uma avó palestiniana) mas é loiro e tem olhos azuis. “A minha cara é igual à dos que mataram o meu bisavô em Auschwitz”. Como não há-de uma pessoa sofrer de problemas de identidade?

O humor de Shahak desinstala-nos. Fala de Israel, “uma jovem start-up, em permanente expansão”, diz, e aponta para nós: “graças a vocês.” Ri-se do embaraço do público.

Fala da dona de um alojamento local em Brooklin, que lhe pediu 200 dólares por noite.

– Pelo apartamento todo?
– Não. Por um quarto no meu apartamento.
Fecharam negócio. Passados uns dias, ela escreve-lhe, ele lê-nos a mensagem: “Andei a ver o seu perfil, vi que é israelita. A sua start-up comedy é engraçada, mas quero deixar claro que critico veementemente a guerra de Gaza. Tinha de o informar sobre isso.” Shahak está furioso: é preciso fazer muita questão de fechar os olhos para não reparar que ele também critica o que está a acontecer em Gaza. Diz-lhe isso, e acrescenta:
– Sabe que mais? Entre nós os dois, o verdadeiro crime de guerra é 200 dólares por noite num quarto em Brooklin!
– Eu estou à vontade para falar!, diz ela. O meu avô era judeu!
– Ah, agora percebo os 200 dólares!, responde Shahak.

Passa para um outro episódio, que aconteceu num dos seus espectáculos: cria-se grande confusão, porque uma mulher do público insiste que não tem espaço suficiente, e o homem ao seu lado tem de se afastar. O homem protesta: “já me afastei três vezes, e ainda não está satisfeita!” Ao descobrir que a mulher é de Telavive, Sahak faz uma piada do género “ah, está tudo explicado!”, e a sala inteira desata a rir. Mais tarde, conta esse episódio no instagram, e os comentários enchem-se de gargalhadas. Até que, ao fim de alguns dias, o ambiente muda. Repentinamente, os comentários tornam-se cada vez mais odiosos, estão a chegar perigosamente ao “era preciso matá-los a todos!” Sahak pergunta-se: “devo metê-los na ordem, ou deixar que isto se torne viral?” – e depois olha para o público, sorri, diz: “sete milhões”.

Conta que foi com um amigo comer um burrito, e quando se preparava para escolher entre carne de porco e carne de galinha, o amigo avisou que se escolhesse as duas ficava com 30% mais carne. O que lhe deu uma inspiração para resolver de vez os problemas entre israelitas e palestinianos: juntar todos, israelitas e palestinianos, o porco daqui e a galinha dali, e no fim vão conseguir ter mais 30%… do Egipto.

Os vinte minutos do seu show chegam rapidamente ao fim. Abdul Kader Chahin, Saba-Nur Cheema e Meron Mendel sobem ao palco para conversarem a sério. Shahak não consegue parar de dizer piadas, Abdul diz-lhe amigavelmente “chill down, bro“.

Meron pede a Saba-Nur que seja a pessoa adulta na sala, ela pega no microfone e lança a pergunta:
– Como é que vocês se sentem?
Elementar num diálogo para a paz: olhar nos olhos, e perguntar “e tu, como estás?”

Mas eles desatam a rir. Shahak responde: “Bem, obrigado. E tu?”

Está difícil. Meron tenta de novo:
– Agora, a sério: vocês têm linhas de fronteira que decidiram não ultrapassar?
– Eu tenho! – responde imediatamente Abdul. As fronteiras são mesmo o problema maior que temos.
Shahak responde à pergunta:
– Eu tenho, mas são móveis. A palavra N* é a única sobre a qual me recuso a fazer piadas. Talvez algum dia abra uma excepção, mas tinha de haver um motivo realmente muito bom, e até agora ainda não encontrei nenhum.

A conversa flui. Shahak comenta que os dois alemães de nascimento ali presentes são a filha de refugiados paquistaneses e o filho de refugiados palestinianos. Os outros dois alemães vieram de Israel. O que é ser alemão? E que significado tem a frase “vai para a tua terra” no caso de cada um deles?

Falam dos primeiros dias após o massacre do Hamas. De como Abdul sentiu que tinha de dizer alguma coisa, e usou o seu instagram para se demarcar daquele horror. Ri: “Fui lá de propósito afirmar que queria ficar calado, e desde então não param de me pedir para dar entrevistas!”

Criticam o debate que se seguiu na Alemanha: horas intermináveis de discussão em painéis onde se falava de, em vez de falar com. Com uma única excepção: Omid Nouripour, o político dos Verdes que nasceu no Irão e veio para a Alemanha aos 14 anos.

Shahak alerta para a questão da representação: não é por se ser judeu que se é automaticamente um especialista. E muito menos um responsável pelo que está a acontecer em Israel. Fala da complexidade do que está a viver, reivindica para si o direito a ficar contente por haver quatro reféns que regressaram a casa, e ao mesmo tempo chocado pelo insuportável número de pessoas que foram mortas nessa operação.

No final, Abdul menciona a importância daquele momento na Haus der Berliner Festspiele:
– Podíamos odiar-nos uns aos outros, as probabilidades de isso acontecer são tão grandes, mas estivemos esta noite lado a lado, a rir em conjunto. Neste tempo em que uma esquerda radical faz imenso barulho e ocupa todo o palco, é fundamental perceber que há uma enorme massa de pessoas moderadas, que buscam soluções para resolver este problema. Uma parte do caminho passa por este sermos capazes de passar uma noite a rir uns com os outros.
Shahak remata:
– Merecemos isso!

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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