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Contra todas as teocracias

| 02/09/2020

Por princípio sou contra todas as formas de teocracia, incluindo as cristãs. Esses ideais estribam-se em equívocos teológicos, em erros de interpretação histórica ou, em muitos casos, em inconfessáveis aspirações de poder.

 

Demasiados líderes cristãos das Américas andam equivocadamente a viver em tempos anteriores ao séc. XVIII, quando ainda não se havia implantado o conceito de estado laico e a religião vivia amancebada com o poder político. A Modernidade trouxe esse separar de águas que se tornou inovador então em termos de dinâmica histórica.

Como tenho dito recorrentemente, o conceito procede do próprio Jesus Cristo quando afirmou: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:25). Isto não tem apenas que ver com os impostos cobrados na província da Judeia e devidos ou não a Roma. Tem que ver com uma visão do que é o reino de Deus, que não coincide com a sociedade em geral, em suma, com a distinção clara entre o religioso e o secular.

Em nenhum texto bíblico se defende a mais pálida ideia de que os religiosos devem dirigir os destinos de toda uma sociedade. Se olharmos para o Antigo Testamento verificamos que a teocracia hebraica constituiu um caso único na história da Revelação dada a natureza da aliança estabelecida entre Iavé e Abraão, extensível à sua descendência. Nunca foi nem é um modelo para as demais sociedades. Pelo contrário, trata-se da excepção que confirma a regra.

Por outro lado, se nos concentramos no Novo Testamento observamos como Jesus Cristo, os seus discípulos e apóstolos, nunca consideraram sequer por um momento qualquer forma teocrática de governo. Pelo contrário posicionaram-se sempre à parte dos poderes públicos, pedindo a Deus pelos agentes políticos e autoridade em geral.

De onde virá então essa quimera da teocracia cristã, quando toda a gente sabe o que aconteceu na Idade Média, quando o papa punha e depunha reis numa Europa de cruzadas, inquisições, abusos de toda a espécie e perseguições? Santo Agostinho idealizou a “Cidade de Deus”, em termos teóricos, mas Calvino tentou criar uma teocracia em Genebra e deu mau resultado.

A sede de poder – invocando embora pretextos morais – é que parece realmente animar as actuais lideranças, que se esforçam por criar partidos políticos ou por militarem neles, por se apresentarem a cargos políticos electivos, e a quererem impor agendas de inspiração religiosa. Faz lembrar os monarcas do mundo antigo que governavam em nome dum suposto direito divino, quando não se consideravam a si mesmos como divindades.

Vamos ser claros. Isto só acontece porque as igrejas estão a falhar a sua vocação.

Damares Alves – provavelmente o elemento mais alucinado do governo brasileiro – afirmou: “É o momento da igreja governar”. Pergunto: qual delas? Com que mandato? Com que legitimidade? Com que objectivo?

Os cristãos são chamados a outra tarefa, que é influenciar o mundo e nunca a governá-lo: “Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16). Parece que já não lhes basta pregarem a Palavra, pastorearem o seu rebanho, ainda querem o poder e as benesses que normalmente lhe estão associadas, incluindo a notoriedade.

As preocupações dos cristãos conscientes da sua missão e que pretendem ser fiéis à sua vocação são outras, reflectir ao mundo a imagem de Jesus Cristo: “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor (…)” (2 Coríntios 3:18). Este é o único “caminho do meio” de que fala o teólogo Tomás Halík: “Não existe nada mais importante no nosso mundo de hoje, do que encontrar um caminho entre o fundamentalismo religioso, por um lado, e o secularismo fanático, por outro.” Se o secularismo fanático ou laicismo é uma praga, o fundamentalismo religioso não o é menos.

O que se passa em boa parte das igrejas nos EUA, Brasil e América Latina é altamente preocupante. Em vez de serem o sal que tempera e preserva a sociedade estão a ser a malagueta que a afasta e desregula. Um pastor anglicano do Brasil afirma mesmo que o movimento evangélico é hoje um dos maiores perigos para a sociedade brasileira e o estado laico devido ao seu potencial fundamentalista: “Malafaia, Feliciano, Rodovalho, Macedo, R.R. Soares e outros nomes menores que estão despontando (e outros que ainda despontarão) são a pior espécie de fanatismo religioso possível. A única diferença entre esse grupo e o fundamentalismo islâmico está nos referenciais religiosos nos quais se apoiam.”

Que Deus nos livre!

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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