A empresa, a sua organização e alguns contágios

ContrEconomia (2) – O alfabeto da subsidiariedade

| 28 Mai 2023

Com o passar do milénio, passámos rapidamente do humanismo da imperfeição para o da busca da felicidade e do sucesso. A fragilidade, que marcava a luta das gerações anteriores contra o sofrimento, chegou à grande empresa e ultrapassou um limiar crítico. Os consultores chegaram às empresas, após os empresários e os gestores e a crise do universo moral tornou-se uma crise do universo produtivo. Depois de O Mercado e o Templo, o 7MARGENS publica agora uma nova e importante série de textos de Luigino Bruni, coordenador da iniciativa A Economia de Francisco. Nestes textos, o investigador fala sobre a empresa e a sua organização, e as interpelações que a situação contemporânea coloca à consciência religiosa e cristã. 

 

Deus é o Deus do silêncio, porque só o silêncio de Deus é a condição do risco e da liberdade.
(Andrè Neher, O Exílio da Palavra)

 

“Deus é o Deus do silêncio, porque só o silêncio de Deus é a condição do risco e da liberdade.” Foto © Miguel Veiga

“Deus é o Deus do silêncio, porque só o silêncio de Deus é a condição do risco e da liberdade.” Foto © Miguel Veiga

 

Alguns erros graves na relação entre as empresas e os seus consultores têm a ver com a subsidiariedade, palavra ausente nos cursos de formação de gestores de business school, geralmente afastada da teoria e da prática das várias formas de consultoria.

Subsidiariedade é a primeira palavra de qualquer boa comunidade e sociedade. É essencialmente uma indicação da ordem e das prioridades de ação quando as intervenções necessárias para gerir um problema são mais do que uma e os atores estão a distâncias diferentes do problema a resolver. A recomendação do princípio da subsidiariedade é, na verdade, simples: o primeiro que deve agir e ser ouvido é o mais próximo do problema, e todos os outros intervenientes só devem intervir depois para ajudar (em “subsídio”) aqueles que estão mais próximos da situação a gerir. As aplicações mais conhecidas do princípio da subsidiariedade são as políticas (verticais e horizontais), que são tão conhecidas que acabamos por esquecer que a subsidiariedade tem um âmbito muito mais vasto.

A origem da subsidiariedade encontra-se no pensamento de Aristóteles e, depois, no de S. Tomás de Aquino. Mas já encontramos a subsidiariedade na Bíblia, onde o primeiro a aplicá-la é o próprio Deus nas suas relações com os homens e as mulheres. Porque não se substitui à sua responsabilidade, mas “ajuda-os” (subsidia) a realizar a sua vocação, e depois afasta-se, cala-se, retrai-se (tzimtzum), retira-se, sai de cena – este é também o significado do “sétimo dia” da criação e do Shabat (Gênesis 2,2). Ele é o Deus da «segunda linha», do «último recurso», que intervém apenas depois de termos feito toda a nossa parte para resolver os nossos problemas. Tanto que em alguns livros bíblicos – de Ester ao Cântico dos Cânticos, de Rute a Qohélet – a ação direta de Deus está quase ausente, para dar lugar às dos homens e ainda mais às das mulheres. Há algo de feminino na subsidiariedade. O Deus da Bíblia acompanha-nos sem tomar o nosso lugar, porque, ao contrário dos ídolos, ele não abusa do seu poder, ele usa-o de forma subsidiária.

 

Michelangelo, A Criação do Homem (Capela Sistina). “O primeiro a aplicar a subsidariedade é o próprio Deus, porque não se substitui à responsabilidade dos homens e mulheres, mas ‘ajuda-os’ (subsidia) a realizar a sua vocação”. Foto via Wikimedia Commons

Michelangelo, A Criação do Homem (Capela Sistina). “O primeiro a aplicar a subsidariedade é o próprio Deus, porque não se substitui à responsabilidade dos homens e mulheres, mas ‘ajuda-os’ (subsidia) a realizar a sua vocação”. Foto via Wikimedia Commons

 

Na Bíblia, então, também encontramos episódios em que a subsidiariedade é explícita. Um diz respeito à construção do templo de Salomão. A certa altura, a responsabilidade pelo trabalho passa dos sacerdotes para os operários, «para os pedreiros, para os canteiros», e «aquele dinheiro era integralmente entregue aos encarregados das obras para o utilizarem nas reparações do templo.» (2 Reis 12, 13-15). A gestão do processo produtivo é, assim, retirada aos mais distantes e com menos competências (os sacerdotes) e dada aos trabalhadores, aos mais próximos do trabalho – para nos lembrar também que sem subsidiariedade nunca temos laicidade, mas apenas clericalismo. Também encontramos subsidiariedade nos Evangelhos, em particular no grande relato da multiplicação dos pães e peixes:

“Como já fosse bastante tarde, os discípulos foram ter com Jesus e disseram-lhe: «Este lugar é muito deserto e já é bastante tarde. Manda as pessoas embora…» Mas Jesus respondeu: «Deem-lhes vocês de comer.» E eles disseram: «Para irmos comprar pão para tanta gente precisávamos de duzentas moedas de prata.»  Jesus acrescentou: «Vejam lá quantos pães aí têm.» Eles foram ver e informaram: «Cinco pães e dois peixes.»”(Mc 6, 35-38).

Os discípulos dirigem-se a Jesus para resolver o problema, mas Ele responde com uma síntese perfeita da subsidiariedade: Deem-lhes vocês de comer. A primeira solução que vem à mente dos discípulos é o mercado (o dinheiro), mas Jesus convida-os a “ver cuidadosamente” primeiro entre eles: Vejam lá quantos pães aí têm? Eis que vêm os cinco pães e os dois peixes, que, na versão de João, são oferecidos por um menino, um “último”, ainda de acordo com a subsidiariedade da Bíblia que para resolver um problema geralmente começa a partir dos últimos (David, Jacob, Maria…). Jesus, portanto, intervém de forma subsidiária. Aquele «mas» repetido na passagem do Evangelho diz muito sobre a subsidiariedade: é uma ordem que deve ser criada «opondo-se» à ação espontânea das coisas, porque a primeira reação não é subsidiária (dirige-se diretamente aos mais poderosos).

 

Armazém do Banco Alimentar Contra a Fome, Lisboa: “Jesus responde com uma síntese perfeita da subsidiariedade: Deem-lhes vocês de comer” Foto © Miguel Veiga

Armazém do Banco Alimentar Contra a Fome, Lisboa: “Jesus responde com uma síntese perfeita da subsidiariedade: Deem-lhes vocês de comer” Foto © Miguel Veiga

 

Esta subsidiariedade bíblica e evangélica contém uma verdadeira e própria gramática e um abecedário. A sua primeira raiz é uma dimensão cognitiva, diz respeito ao conhecimento. Aqueles que estão dentro de um problema, ou os que estão mais próximos deles, têm o direito-dever ao primeiro movimento porque têm um conhecimento diferente e, em certo sentido, superior ao daqueles que estão “fora” do problema ou, em qualquer caso, mais distantes (a distância assume várias formas). Não é o único conhecimento em jogo, mas tem de vir em primeiro lugar, se levarmos as pessoas a sério. Quem está dentro do seu próprio problema tem um acesso diferente e necessário à realidade. Porque a realidade tem uma sua própria força de verdade, expressa por uma frase muito amada pelo Papa Francisco: «A realidade é superior à ideia» (Evangelii Gaudium, 233), isto é, à ideia que se faz da realidade quem está longe dela. Na educação, o princípio da subsidiariedade diz-nos que uma intervenção educativa deve partir daquilo que a criança (cada pessoa) é e já sabe: a ação que vem de fora deve ser subsidiária da realidade pré-existente, porque nenhuma pessoa é tão ignorante que não saiba já alguma coisa, ninguém é tão jovem que já não seja alguma coisa antes de se formar. Um bom resumo disso é a bem conhecida frase de Robert Baden Powell: “Ask the boy”, pergunte à criança: começa por ele-ela se quiseres resolver um seu problema.

Outra área é a pobreza. Numa situação de pobreza-miséria devemos partir daquilo que essa pessoa ou comunidade já sabe fazer, das riquezas que já possui, e ler a nossa intervenção como subsidiária daquilo que o outro já é, tem e sabe. E aqui compreendemos qual é a dimensão ética que está na raiz da subsidiariedade: a estima pelo que já és e não só pelo que ainda não és, uma estima que é o primeiro passo da solução, porque “só tu o podes fazer, mas não o podes fazer sozinho”, como dizia repetidamente o bispo Giancarlo Bregantini. É isto que o Deus bíblico faz connosco, que é subsidiário porque nos estima pelo que já somos, e depois nos chama a tornarmo-nos naquilo que ainda não somos: do nosso já, Ele chama-nos e diz-nos «levanta-te» ou «sai». Por fim, o episódio dos pães e dos peixes diz-nos algo sobre a relação subsidiária entre o mercado (as duzentas moedas de prata) e o dom: se numa comunidade puderes usar o dom para resolver uma situação, não uses o mercado; ou então, na versão positiva: o mercado é bom se ajuda o dom, é mau quando o substitui.

Criança numa rua em Odivelas: “E aqui compreendemos qual é a dimensão ética que está na raiz da subsidiariedade: a estima pelo que já és e não só pelo que ainda não és.” Foto © Miguel Veiga

Criança numa rua em Odivelas: “E aqui compreendemos qual é a dimensão ética que está na raiz da subsidiariedade: a estima pelo que já és e não só pelo que ainda não és.” Foto © Miguel Veiga

E agora chegamos às empresas e aos seus consultores, com um raciocínio que também pode ser alargado a quem desempenha um papel de acompanhamento. O que implica levar a subsidiariedade a sério neste contexto? O que deve fazer um consultor, ou seja, alguém que entra nas relações da empresa e, portanto, na gestão das emoções das pessoas? A primeira implicação do princípio da subsidiariedade diz respeito ao que acontece antes de o consultor ser chamado: deem-lhes vocês de comer. E daí a pergunta: será que descobrimos primeiro onde estão os nossos poucos pães e peixes? Porque se estes não forem encontrados (e há sempre) falta a matéria (a res) para qualquer intervenção externa. Mas esta passagem anterior quase nunca é feita, ou paramos nas “duzentas moedas de prata” sem chegar à “criança”; e assim, quando o consultor externo chega, o “milagre” não acontece, por falta de subsidiariedade não no consultor, mas no interlocutor.

Após esta fase, a lógica da subsidiariedade sugere ao consultor que leve muito a sério a realidade que se gostaria de ajudar, porque é mesmo aí que reside o princípio da solução. Assim, ele tem de dedicar muito tempo à dimensão narrativa essencial em qualquer processo de discernimento (a consultoria deveria ser essencialmente uma ajuda ao discernimento). As pessoas devem então ser colocadas em condições de poderem contar as suas vidas, os seus problemas, as suas dúvidas, os seus sonhos. E, portanto, o consultor deve saber perder tempo, muito tempo e, mesmo antes disso, deve ser formado para ouvir, talvez a arte mais difícil de aprender e ensinar neste tempo dominado por demasiados ruídos de fundo. Ouvir o coração das pessoas deve ser tão profundo que transforme o orador e o ouvinte. É por isso que o jovem Salomão, antes de se tornar rei, pede a Deus um único dom, «um coração que saiba ouvir» (1 Reis 3, 9), é o «protetor» de todo o consultor.

Mas ouvir os sonhos é decisivo. Aqui há uma necessidade de uma habilidade rara e essencial: saber primeiro reconhecê-los como sonhos e depois interpretá-los. De facto, como a Bíblia (que é o grande código dos sonhos) nos ensina ainda, os sonhos precisam de um intérprete que por sua vez seja um sonhador: José (Génesis 41) e Daniel (Daniel 2), os dois grandes sonhadores, são capazes de interpretar os sonhos dos outros porque também eles sabiam sonhar. E assim os erros mais típicos da consultoria, mesmo aquele que chega ao ponto de ouvir os sonhos dos outros, são de dois tipos: (a) os daqueles que não reconhecem o “género literário” dos sonhos e os analisam com as ferramentas usuais dos factos da vigília; (b) os daqueles que os reconhecem como sonhos, mas, não sendo por sua vez sonhadores, interpretam-nos mal. O que significa para um consultor ser um sonhador? Deve conhecer a linguagem dos desejos, dos ideais, das paixões, do não racional e do não-económico, dos quais está cheia também a vida económica. Deve conhecê-los, quer porque por vezes os experimentou na sua própria vida, quer porque, na ausência disso, os estudou muito – esta é também uma razão pela qual não existem consultores globais para todas as empresas e todos os problemas, porque ninguém conhece todos os sonhos. Sem esta competência e experiência de sonhos param no invólucro dos problemas, veem apenas a aparência e a caixa. Um consultor torna-se, então, excelente quando consegue descobrir os sonhos que ainda não contámos a ninguém.

 

Fachada de casa, Almada: “Ouvir os sonhos é decisivo. Há necessidade de uma habilidade rara e essencial: saber primeiro reconhecê-los como sonhos e depois interpretá-los.” Foto © Miguel Veiga

Fachada de casa, Almada: “Ouvir os sonhos é decisivo. Há necessidade de uma habilidade rara e essencial: saber primeiro reconhecê-los como sonhos e depois interpretá-los.” Foto © Miguel Veiga

 

Entende-se, então, que a incompetência em relação aos sonhos, que é sempre grave, torna-se decisiva quando a consultoria entra nas organizações com motivação ideal (OMI) e nas comunidades espirituais. Aqui muitas vezes os tão esperados “milagres” não acontecem porque a consultoria frequentemente pára num andar muito baixo para ver o céu, que é o lugar dos maiores sonhos. E nestas realidades (às quais voltaremos), não conseguir compreender os sonhos do carisma significa não compreender o coração de todos os problemas. Neste ponto, depois de todas estas primeiras fases delicadas, o/a consultor/a pode, sem pressa, oferecer a sua ajuda necessária, mas… nem um segundo antes. A consultoria é importante e necessária se e quando chega na sequência certa das ações. E depois, no final do processo, tem de saber afastar-se, sair de cena para não transformar a ajuda num vínculo e dependência – mas falaremos disso no próximo domingo.

 

Luigino Bruni é coordenador da iniciativa A Economia de Francisco, que decorreu em setembro de 2022 sob impulso do Papa e escreve regularmente no jornal italiano Avvenire dedicando esta série de crónicas à empresa e à sua organização. O 7MARGENS publica os textos por cedência do autor. 

Tradução: p. António Antão e João Cambão; revisão: p. António Bacelar; subtítulos e edição final do 7MARGENS.

 

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