Mais efeitos civis e económicos da Contra Reforma

ContrEconomia (9) – Cireneus de uma cruz demasiado pesada

| 15 Jul 2023

Depois de O Mercado e o Templo, o 7MARGENS publica uma nova e importante série de textos de Luigino Bruni, coordenador da iniciativa A Economia de Francisco. Nestes textos, o investigador fala sobre a empresa e a sua organização, e as interpelações que a situação contemporânea coloca à consciência religiosa e cristã, para concluir que a biodiversidade é uma lei fundamental também nas empresas. Neste artigo, o autor continua a análise dos efeitos culturais e económicos da Contra Reforma, passando pela cristianização das festas da natureza, a afirmação dos santos intercessores e de uma teologia rígida, e a força simples da fidelidade a Deus, o Deus da vida.

 

“Com uma teologia falsa, muitas vezes houve verdadeira piedade. Tocar órgão, dizia Galileu, não se aprende com quem sabe fazer os órgãos, mas com quem os sabe tocar. Os teólogos fazem os órgãos, mas tocá-los é uma outra coisa. O cristão mais inculto pode fazê-lo melhor”.
Giuseppe de Luca, Introdução ao Arquivo Italiano para a História da Piedade, p. LIX.

 

Joaninho, Castelo Branco, 2021. “Os jovens plantavam ramos e flores diante das casas das meninas...” Foto © António José Paulino

Joaninho, Castelo Branco, 2021. “Os jovens plantavam ramos e flores diante das casas das meninas…” Foto © António José Paulino

«Que dizer dos que, em cada região, reclamam o seu padroeiro particular? Este faz passar a dor de dentes, aquele assiste às parturientes, um faz recuperar os objetos roubados, aqueloutro salva dos naufrágios, a Virgem a quem o vulgo atribui quase mais poderes do que ao Filho». São palavras do grande Erasmo de Roterdão (Elogio da Loucura, §40), escritas em 1509, enquanto Lutero estava a amadurecer a sua Reforma, à qual Erasmo não aderiu. Erasmo não foi escutado. Quatro séculos depois, lemos hoje: «Há um monte, a pouca distância de Pollino [sul de Itália], com um culto arbóreo que aqui chamamos “Ndenna”, que se realiza em meados de junho, em Castelsaraceno. No primeiro domingo do mês vai-se cortar a faia que se destina a fazer de esposo (a “Ndenna”). No domingo seguinte escolhe-se o pinheiro, a “cunocchia” que fará de esposa. E, por fim, Santo António abençoa a união» (Domenico Notarangelo, Os caminhos da piedade, 2000).

Esta festa lucana da “Ndenna” é expressão do desenvolvimento católico das festas da natureza. “Plantar o Maio” era uma antiga tradição europeia, ainda presente também em Basilicata (Accettura) [sul de Itália] e em diversas zonas da Itália central. Até à Idade Média, na noite do primeiro de maio, os jovens plantavam ramos e flores diante das casas das meninas. Mas «em finais do século XVI, começou a cristianização do rito, convidando a endereçar a Maria as homenagens e as ofertas florais». Depois, a partir do século XVIII, as flores dos altares de Nossa Senhora sofreram um desenvolvimento adicional, «transformando-se em “florinhas” espirituais: pequenos sacrifícios oferecidos em honra de Nossa Senhora durante todo o mês de maio» (Ottavia Niccoli, A via religiosa na Itália moderna, 2004, pp. 181-182). 

Eis como nasce o “maio mariano” com as “florinhas”. Tradições boas e bonitas, mas… não é fácil compreender o que tem a ver Nossa Senhora com aqueles antigos ritos dos enamorados e os pequenos sacrifícios com as flores para as namoradas. Naturalmente, sempre se pode encontrar uma ligação. Mas também se poderia ter feito uma escolha diferente: deixar os cultos antigos da fertilidade e das colheitas, não os combater como fez Lutero, mas chamá-los “folclore”, considerá-los tradições populares sem querer introduzi-los no cristianismo – o problema na festa da “Ndenna” não é o matrimónio entre árvores mas a presença de Santo António. Com as antigas tradições podia-se fazer algo parecido com o que se fez com a Befana, que não se tornou a “mulher dos reis magos”, mas permaneceu fora dos presépios, ao lado.

Um Deus demasiado distante para as criaturas ínfimas

 

Caminho de Santiago, 2015: “O recurso aos santos tornou-se quase necessário.” Foto © António José Paulino

Caminho de Santiago, 2015: “O recurso aos santos tornou-se quase necessário.” Foto © António José Paulino

 

A escolha de hibridação religiosa dos antigos ritos naturais – de per si, também compreensível – teve, no entanto, custos elevados, que se ligam ao grande tema do culto dos santos. O Concílio de Trento corrigiu os excessos mágicos, mas reafirmou a liceidade teológica e litúrgica da antiga intercessão dos santos, que continuaram a ser mediadores e protetores das searas do granizo ou da dor de garganta. Entre a Trindade e o povo formou-se, assim, uma crescente fileira de intercessores, de passagens intermédias que deviam favorecer e simplificar a obtenção das nossas orações: «Deus vê as nossas necessidades e, por isso, poderia prover diretamente: mas agrada à divina sabedoria comunicar os seus dons através de intermediários» (Atas do Concílio de Trento, Sessão XXV, 1563). 

Assim, cresce uma ideia de Deus demasiado distante para ser alcançado diretamente por nós, criaturas ínfimas. Mas, graças a Deus, existem os santos, vistos como criaturas mediadoras, porque semelhantes um pouco a Deus e um pouco a nós que, portanto, compreendem ambos (os povos latinos sempre gostaram muito dos semideuses: não é por acaso que os templos de Hércules estavam entre os mais difundidos). A religião católica torna-se uma religião de Deus e dos santos, uma explosão de biodiversidade religiosa, uma floresta espiritual habitada por uma infinidade de seres onde cada um desempenha a sua função no ecossistema do culto, dando origem a uma perfeita “divisão religiosa do trabalho”. É pena que, entretanto, muitos de nós nos esquecemos que Deus se tinha feito homem precisamente para reduzir a distância mítica entre o céu e a terra. Na minha terra, os santos e as santas estavam muito mais presentes do que a Trindade, até porque quando se tem de sobreviver entre a fome e a doença, a pericorese é um luxo que o povo não se pode permitir.

Porém, há algo mais a dizer para compreender o grande amor pelos santos – e de amor se tratou: foi a maior história de amor da Contra Reforma. O recurso aos santos tornou-se quase necessário pelo desenvolvimento, na época barroca, de um assustador pessimismo antropológico. Se somos apenas “nada”, larvas morais, como podemos dirigir-nos, pessoalmente, àquele Deus que se torna tanto mais distante nos céus quanto mais nos afundamos nas profundezas da terra? De facto, nestes séculos, afirma-se a ideia de que “o objetivo” da vida humana seja a salvação da alma e apenas e o amor de Deus e, portanto, o desprezo da alegria natural do corpo, dos prazeres da vida: «Tu não nasceste para gozar mas apenas para amar o teu Deus e salvares-te para sempre… portanto, o negócio de todos os negócios, o único importante e necessário, é servires a Deus e salvares a tua alma» (G. G. Giunta, Manual de preces sagradas, 1830, Nápoles, p. 20). 

Uma teologia onde, para elevar Deus, é necessário rebaixar o homem, para exaltar o divino é indispensável desprezar o humano. Deus torna-se um Pai bizarro, que goza com a anulação das suas criaturas, que só é feliz quando lhe dizemos: «Tu és tudo; eu sou nada». Teologias a anos-luz de distância da Bíblia, do Antigo e do Novo Testamento, onde «a glória de Deus é o homem vivo» (Santo Ireneu), de um Jesus que nos disse: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10). Esta vida, não apenas a futura. E, pelo contrário, a época barroca foi o tempo em que a busca do paraíso (ou do purgatório) transformou, para muitos e muitas, a vida presente num inferno.

Uma visão desumana de Deus

 

Campo de extermínio de Auschwitz, 2010:  “O melhor caminho para não tornar as pessoas humildes é humilhá-las.” Foto © António José Paulino

Campo de extermínio de Auschwitz, 2010:  “O melhor caminho para não tornar as pessoas humildes é humilhá-las.” Foto © António José Paulino

 

A distância crescente que se veio a criar entre os católicos e a leitura da Bíblia fez esquecer que os deuses que se alimentam dos seus fiéis se chamam ídolos, ao passo que o Deus da revelação está totalmente do nosso lado, todos os dias nos “apoia” para que floresçamos em plenitude como pessoas. E, pelo contrário, naqueles manuais, lemos: «Se não tiverdes coragem suficiente para procurar as humilhações, não fujais, pelo menos, das que se apresentam: considerai-as todas como um sinal da bondade singular que Deus tem por vós» (J. Croiset, Exercícios de piedade para todos os dias do ano, 1725, p. 35). O Deus de Jesus transformado num ser que nos envia as humilhações, que nos humilha para nos fazer humildes, que por isso esqueceu a lei humana fundamental: o melhor caminho para não tornar as pessoas humildes é humilhá-las. E, depois, de acordo com esta visão desumana de Deus, a procura da mortificação tornou-se o caminho principal: «Quanto mais nos esforçarmos por nos mortificar, tanto mais avançaremos na perfeição» (Diário espiritual, anónimo, Nápoles, Jovene, s.d., p. 93).

Chegando às consequências civis e económicas, nãos nos devemos admirar se nos países católicos foi tão difundida e variada a prática social da recomendação, que vai da práxis consolidada de quem, para obter um favor de um poderoso demasiado distante procura passar por um mediador mais próximo (“ter um santo no paraíso”), a quem tem de pedir um certificado na Câmara Municipal e pergunta-se primeiro: “Que empregado conheço naquele gabinete?”. Uma versão especial da mediação que fez com que, também nos países católicos, não se tenha desenvolvido uma cultura da subsidiariedade civil e política (apesar de a subsidiariedade ser um pilar da visão que se tornou doutrina social da Igreja), porque esta mentalidade das passagens intermediárias obrigatórias nada mais fez do que reforçar a visão sagrada das hierarquias humanas que é anti subsidiária. De modo mais geral, a ideia da intercessão alimentou uma conceção da oração como pedido, como um negócio com o paraíso, onde nos voltamos para os santos e, portanto, para Deus, sobretudo para pedir algo que ainda não nos tenha dado, alimentando assim a antiga relação económica com os espíritos e com os deuses: os profetas e Cristo expulsaram os vendedores do templo para nos dizer que a sua religião não é um comércio com Deus.

Uma boa notícia, apesar de tudo

 

Porto, São João, 2017 : “Que empregado conheço naquele gabinete.” Foto © António José Paulino

Porto, São João, 2017 : “Que empregado conheço naquele gabinete.” Foto © António José Paulino

Porém, entre os custos deve ser contabilizado algo mais, talvez ainda mais importante. Um cristianismo tornado um novo florescimento da religião natural dos povos mediterrâneos está a encontrar dificuldades enormes com a pós-modernidade, porque corre o risco de se afundar juntamente com a antiga religiosidade mítica que incorporou e “batizou”. Não devemos esquecer que a ressurreição de Cristo não foi um dos muitos milagres e magias do mundo antigo, mas o seu fim: começou o tempo laico do “santo” sobre a morte do “sagrado”. Mas, por ter querido falar, no passado, a todos na língua de todos, hoje o cristianismo corre o risco de não falar (quase) a ninguém numa língua tornada (quase) incompreensível para todos.

No entanto, também há uma boa notícia. Apesar do desprezo teológico pela vida humana, apesar de uma louca falta de estima “pelas coisas cá de baixo” – por conseguinte, pelo trabalho e pela economia –, os católicos conseguiram criar belas empresas, trabalhar bem, gerar filhos e filhas, ser por vezes felizes, amar os corpos e toda a humanidade. Tornaram-lhes a vida muito difícil, mas conseguiram. Porque o povo nunca acreditou verdadeiramente numa imagem de Deus reduzida a essas condições. Tinha um bom instinto; tinham-no, sobretudo, as mulheres que as levava a pedir a Deus que se tornasse algo diferente. A piedade popular também foi uma prática subversiva, rebelião contra um Deus transformado em inimigo da felicidade humana – vê-lo-emos no próximo artigo. Também o podemos ler nalgumas passagens destes Manuais de devoções: «Ó Eterno Pai, Juiz e Senhor das nossas almas, cuja justiça é incompreensível! Visto que ordenastes, ó Senhor, que vosso inocentíssimo Filho pagasse as nossas dívidas, olhai, ó Senhor e Pai, para tão tremenda agonia. Cesse, ó Pai, a Vossa indignação» (Exercícios de piedade do Rev. D. Placido Baccher, Nápoles, Stamperia Reale, 1857, p. 191).

A Vossa justiça é incompreensível… Cesse, ó Pai, a Vossa indignação: oração maravilhosa de um povo que escolheu interpretar a parte do cireneu: colocou-se voluntariamente debaixo de uma cruz teológica demasiado pesada, para os homens e para Deus, para assim procurar aliviar aquele peso insustentável: «Pai, cessa a tua indignação; não compreendemos a tua justiça». Não compreendiam aquela teologia, mas compreendiam Deus, o Deus da vida. E, assim, aprenderam a rezar verdadeiramente pedindo a Deus para salvar Deus: rezaram a Deus por Deus, não por si mesmos. Aprenderam o coração da Bíblia sem nunca a ter lido. E, depois, encheram as igrejas de pinturas de crucifixos com o Pai, por detrás, segurando o filho com os seus braços e chora juntamente com ele. Porque sabiam que a “missão” dos pais e das mães é despregar os filhos das cruzes, não colocá-los nelas. Fizeram o possível e o impossível para salvar Deus no seu coração. E conseguiram.

Luigino Bruni, Avvenire, 29 de Abril de 2023

Luigino Bruni é coordenador da iniciativa A Economia de Francisco, que decorreu em setembro de 2022 sob impulso do Papa e escreve regularmente no jornal italiano Avvenire dedicando esta série de crónicas à empresa e à sua organização. O 7MARGENS publica os textos por cedência do autor. 

Tradução: P. António Antão e João Cambão; revisão: P. António Bacelar; Edição fotográfica: António José Paulino, João Fontes e Miguel Veiga. Subtítulos e edição final: 7MARGENS.

 

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