Conversa à volta da fogueira

| 9 Ago 19

Um incêndio florestal na Madeira: “Esta nova e dura realidade exige mudanças radicais de comportamento das populações no sentido da adopção de boas práticas.” Foto © Anagh/Wikimedia Commons

 

Todos concordam que os incêndios florestais são uma calamidade em qualquer parte do mundo. Mas o que poucos ousam dizer em voz alta é que são uma calamidade inevitável e que, por essa razão, há que aprender a viver com eles.

 

Sempre que se verifica a regra dos três trintas é certo e sabido que os fogos florestais estão a caminho: mais de 30 graus de temperatura, ventos a mais de 30 quilómetros por hora e humidade abaixo dos 30 por cento. A conjugação é fatal. 

Antes de mais importa que nos consciencializemos para o facto de que os fogos florestais são uma inevitabilidade do nosso tempo. Resultam essencialmente das alterações climáticas acentuadas que o planeta tem vindo a sofrer nas últimas décadas. Não são só o sul da Europa, a Califórnia ou a Austrália que ardem. De acordo com os cientistas e as imagens de satélite recolhidas até o Ártico está a ser pasto das chamas, coisa que já não sucedia há 10 mil anos, com mais de 100 frentes ativas entre as regiões do Alasca, Sibéria e Gronelândia, com libertação excepcional de níveis de CO2.

Esta nova e dura realidade exige mudanças radicais de comportamento das populações no sentido da adopção de boas práticas. Por exemplo, a lei portuguesa proíbe que se façam queimadas no campo durante os meses de maior calor, mas sabemos como as pessoas gostam de contornar a lei. Ao contrário do que muitos pensam e dizem, o fogo posto não estará na origem da maior parte dos fogos florestais no país, mas sim os comportamentos negligentes. É o que pensa Patrícia Gaspar, 2º Comandante Operacional da ANPC (Autoridade Nacional de Proteção Civil), quando diz que a mão criminosa é apenas residual face aos comportamentos negligentes, “que representam mais de 90 por cento de todos os fogos”.

Não há hipótese, temos mesmo que nos adaptar a um planeta diferente através da mudança radical de comportamentos, como acabar com o excesso de matéria plástica que está a entupir os oceanos ou a premente necessidade de reciclar os lixos e as águas, reduzindo os resíduos.   

Escrevia a diretora da VISÃO há dias:“É tentador encontrar um culpado, e o culpado imediato nunca é o pobre vizinho que não limpou os terrenos nem a câmara municipal que não acondicionou as matas. Na cabeça das pessoas, o culpado é o Estado, essa entidade indistinta que, para muitos, falha em todas as frentes: na limpeza, no planeamento e no combate. E, na cabeça das pessoas, o Estado tem um rosto, o do Governo e o primeiro-ministro em funções.” De facto, as conversas de café do costume – incluindo as redes sociais, que funcionam como conversas de café contemporâneas – giram à volta da procura de um bode expiatório, seja o incendiário, o madeireiro ou o promotor imobiliário, mas, em última análise, ele será sempre a ANPC, o ministro da Administração Interna, o Governo e o primeiro-ministro. 

Recentemente a jornalista Daniela Santiago, correspondente da RTP em Espanha, teve a coragem de propor “um estudo académico, aprofundado, sobre os efeitos da cobertura mediática (TV) dos incêndios em Portugal. Especialmente chamas atrás de chamas.” Argumentava que no país vizinho todos os acessos são vedados, pelo que os jornalistas não passam do posto de comando. Porém, salvaguardava que não tinha opinião acabada sobre o assunto (antes que os colegas a trucidassem…), propondo apenas uma reflexão. Os incêndios florestais são uma mina para as televisões na silly season– juntamente com as notícias de transferências futebolísticas – e todos nos lembramos de como uma certa jornalista se fez filmar ao lado dum cadáver nos fogos de 2017…

Face aos incêndios florestais a atitude de boa parte dos cidadãos oscila entre a necessidade de encontrar um bode expiatório – na linha da velha estória da culpa que enforma parte da teologia cristã – e o desejo de voyeurismo. Sim, porque se o público não alimentasse as horas infinitas de transmissão dos teatros de operações, a coisa acabava num instante.

Paulo de Carvalho popularizou a canção “Meninos do Huambo” (com música de Rui Mingas e letra de Manuel Rui Monteiro), que fala das crianças angolanas à volta da fogueira a sonhar com a construção do seu país. Mas neste caso as conversas à volta dos incêndios são fatalmente destrutivas.

Só que há fogos piores do que os florestais. Pelo menos é o que diz o apóstolo Tiago: “Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno” (3:5-6).

E em tempo de pré-campanha eleitoral, se os fogos dão sempre jeito, as línguas em brasa ainda dão mais.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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