“Conversão das paróquias”: uma instrução redutora

| 31 Ago 2020

Cada tempo, na sua especificidade, e o tempo todo, na sua generalidade, são um contínuo e constante desafio à sempre urgente necessidade de mudança de e na vida das pessoas. Por isso, e para responder a isso, a Igreja vai ajustando as velas aos ventos que vão soprando, aproveitando a variação das marés que vão surgindo e procurando o rumo que coincida com a vontade d’Aquele que a comanda.

Com esta preocupação, o magistério da Igreja Católica vai agindo, e outras vezes reagindo, na tentativa de oferecer pistas e deixar indicações, mais ou menos claras, que a partir de uma leitura séria dos sinais dos tempos nos abram horizontes de transformação e de esperança. Foi, certamente, este o critério que presidiu à redação do documento da Congregação para o Clero com o título A conversão pastoral da comunidade paroquial ao serviço da missão evangelizadora da Igreja. Diria que, analogamente a uma viagem de avião, foi uma exímia descolagem, uma tranquila aterragem, mas um percurso feito em “piloto automático”.

O próprio título é, por si só, uma interpelação eclesial maior e um imperativo pastoral redundante que nos atira e atrai para o fulcro central da questão sempre atual que é a evangelização. O documento é bastante assertivo nos seus pontos iniciais. A premente conversão pastoral em que o Papa Francisco tem insistido desde a sua primeira exortação apostólica terá efetivamente o seu melhor e mais favorável lugar de realização no contexto da comunidade paroquial, que é o âmbito mais fiel à “lógica da Encarnação de Jesus Cristo, vivo e atuante na comunidade humana” (nº 7). No entanto, também esta se encontra em permanente mutação, como a referida instrução acertadamente menciona.

Naturalmente que esta imprescindível conversão precisará das estruturas que suportam e configuram a vida paroquial, também elas a precisar de conversão, como alude – e bem – o documento, de forma a tornar as comunidades em “centros propulsores do encontro com Cristo” (nº3). No entanto, é também a própria Instrução que trava e arrefece esta mesma reconfiguração das estruturas.

Inicialmente, o documento desnuda com clareza e acerto os problemas vigentes, as mudanças sociais e sociológicas que estão a reconfigurar o ambiente paroquial (menos territorial, mais existencial, com mobilidade humana, marcado pela cultura digital, etc.) indica aspetos essenciais de intervenção pastoral (cultura do encontro, mudança de mentalidades, discernimento, comunhão e unidade, …) e rejeita alguns perigos que são nocivos à vida eclesial (auto-preservação, autorreferencialidade, saudosismo do passado, etc.).

Porém, depois desta subida, parece entrar em “piloto automático”, e enceta um discurso tonicamente canonista, com frequentes expressões proibitivas, demarcando uma posição marcadamente defensiva. Nenhuma destas posturas é errada. Antes pelo contrário. Mas o certo é que todas podem tolher – e tolhem – a reviravolta necessária nas estruturas, nos métodos e nas mentalidades que impulsionam a conversão pastoral.

É sabido que tem havido discordâncias em algumas tomadas de posição da hierarquia eclesial. É notório que têm existido desvirtuações no exercício do poder e da autoridade. É público que têm acontecido fracassos em algumas remodelações institucionais da Igreja. No entanto, é sempre preferível “uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49). Portanto, mesmo correndo alguns riscos, era desejável uma Instrução menos protecionista das estruturas existentes, menos conservadora dos estilos convencionais e menos defensora da supervisão clerical.

A conversão das estruturas, que o documento oportunamente sugere, é um exercício sensível e delicado, mas simultaneamente arrojado e arriscado. Quer isto dizer que, em certos casos e circunstâncias, pode implicar a coragem da sua extinção e o surgimento de novos organismos e formas de participação laical. São exemplo disso alguns modelos implantados (por exemplo, o projeto Nova Imagem de Paróquia, do Serviço de Animação Comunitária/Movimento por um Mundo Melhor), que no decorrer do tempo foram percebendo que as estruturas que outrora funcionaram deixaram, entretanto, de responder aos novos desafios, e por isso as substituíram ou remodelaram cabalmente. E, por outro lado, no nosso contexto atual – Europa Ocidental tocada pelo envelhecimento demográfico – proliferam as comunidades onde o limitado número de católicos já não possibilita a criação de estruturas dentro do esquema previsto pelo Direito Canónico.

Da mesma forma, parece redutor que a Instrução insistentemente reforce o caráter consultivo de alguns organismos de participação dos leigos (cf. nº 102, 111, 113). Esta vincada postura esfria a vontade de participação do comum dos fiéis, por não se sentirem suficientemente protagonistas da sua caminhada eclesial, nem diretamente responsáveis pelas decisões que a eles dizem diretamente respeito.

Uma Igreja que se quer “em saída” dispensa bagagens pesadas do passado, pressupostos rígidos do presente e receios calculistas do futuro. Tudo isso lhe delonga o andamento, lhe obscurece a definição do rumo certo e lhe mitiga o sabor doce da mudança.

 

Diamantino Alvaíde é padre católico da diocese de Lamego, pároco de Moimenta da Beira, Cabaços e Sendim e coordenador diocesano da Pastoral.

 

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