Iniciativa do franciscano Gianmaria Polidoro

“Convidamos Putin e Zelensky a vir a Assis para restaurar a paz no mundo”

e | 27 Fev 2023

padre gianmaria polidoro, foto dr

O padre Gianmaria Polidoro foi um dos fundadores e ideólogos do Centro Internacional para a Paz e também da associação Assisi Pax International. Foto: Direitos reservados.

 

Em 1984, Gianmaria Polidoro fez uma peregrinação a Washington e Moscovo para pedir o fim da Guerra Fria. Hoje, com 90 anos, o padre franciscano não regressará à Rússia, nem irá à Ucrânia, mas escreveu uma carta aos presidentes de ambos os países, e também aos patriarcas de Moscovo e Kyiv, desafiando-os a reunirem-se na cidade italiana de Assis para “restaurar a paz no mundo”.

Na Casa Branca, há 39 anos, Polidoro encontrou o então Presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, e no Kremlin o chefe de Estado na altura em exercício, Vasily Kuznestov. Agora, pede a Vladimir Putin e a Volodymyr Zelensky que “venham a Assis para se encontrar e para poder dizer ao mundo: sonhamos com uma paz que se estenda a toda a Europa, ao mundo inteiro”, explicou ao Vatican News.

O convite foi lançado, e as cartas escritas, durante o primeiro EcuFest Film, um festival de cinema para o diálogo inter-religioso, que decorreu em Maenza (Itália), de 23 a 25 de fevereiro, e onde foram exibidos filmes que pretendem ser um “sinal de esperança para a paz”. Foi o caso de Biagio, de Salvatore Scimeca, a comovente história do irmão Biagio Conte, o missionário leigo de Palermo falecido há pouco mais de um mês [ver 7MARGENS], e de Chiara, um filme de Susanna Nicchiarelli, que traça um retrato da santa medieval incrivelmente moderna que seguiu os passos de São Francisco.

 

Uma mesa-redonda ecuménica

Na sexta-feira, 24 de fevereiro, data em que se assinalou um ano sobre a invasão russa da Ucrânia, o festival promoveu uma mesa redonda, na qual participaram representantes de religiões diversas, mas com perspetivas muito semelhantes relativamente à guerra.

A presidente das Comunidades Judaicas Italianas (UCEI), Naomi Di Segni, sublinhou que “como religiões não podemos resolver os enormes problemas geopolíticos, mas com as nossas ações, mesmo pequenas, podemos incutir uma crença profunda na civilização, na vida, na paz”.

O imã Ataul Vasih Tariq, vice-presidente nacional da associação Ahmadiyya Muslim, recordou por seu lado que “o amor ao próximo é o caminho para uma autêntica vida de fé”, enquanto Dario Doshin Girolami, abade do centro Arco Zen em Roma, disse estar convencido de que “olhar o outro com humanidade e respeito desperta confiança”.

Já Guido Morisco, da Assembleia Nacional Baha’j, sublinhou que “as religiões, na sua diversidade, contribuem para promover o bem comum dentro das sociedades”.

Num gesto simbólico, a organização do EcuFest Film pediu ao padre Gianmaria Polidoro que fizesse a abertura desta mesa redonda, ele que teve um papel determinante nos bastidores do desanuviamento entre os Estados Unidos e a então União Soviética.

 

A mesma solução de há 39 anos (e de há 800!)

São Francisco e o Sultão do Egito al-Kamel , foto Vatican Media

Trata-se de aplicar até às últimas consequências a metodologia de São Francisco, “que inventou o diálogo quando, em 1219, diante da guerra das cruzadas entre muçulmanos e cristãos, pediu para falar com o sultão.”

 

Para chegar à paz, em 1984, Polidoro insistiu que era “preciso conversar”, e que, “para conversar, é preciso, antes de mais, valorizar os elementos positivos de cada um”. Ou seja, a América tinha de “deixar de ver só o negativo da União Soviética”, e a União Soviética de “deixar de ver só o negativo dos Estados Unidos e do mundo ocidental”, explicou numa entrevista ao jornal Público, publicada a 22 de junho de 1992. A solução poderia ser transposta para o conflito atual.

“Quando se compreendem estas coisas, então é possível o encontro de pessoas, para discutir problemas cujas consequências serão vividas pelos próprios filhos. Trata-se de trazer o debate para um nível de interesse pessoal. E este conhecimento recíproco permite, então, afrontar com mais facilidade os dificílimos discursos políticos”, acrescentava Gianmaria Polidoro.

O franciscano, que foi um dos fundadores e ideólogos do Centro Internacional para a Paz e também da associação Assisi Pax International, reconhece ainda “o grande peso da economia nas decisões”, até porque, como explicou na mesma entrevista, “uma economia de paz pode ser ainda mais produtiva que uma economia de guerra”.

Além disso, defende que é essencial “ver o outro como um homem simples e não como poderoso”. Pois se um confronto for “baseado no conceito de poder e não no conceito de humanidade”, então “leva à guerra seguinte”.

No fundo, trata-se de aplicar até às últimas consequências a metodologia de São Francisco, “que inventou o diálogo quando, em 1219, diante da guerra das cruzadas entre muçulmanos e cristãos, pediu para falar com o sultão” [ver 7MARGENS]. Resta saber se Putin e Zelensky vão aceder ao pedido de Polidoro, como o sultão do Egito Malek al-Kamel acedeu ao de Francisco.

 

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