Corajosamente

| 12 Mai 2022

[sai corajosamente / clara primeira manhã / − sábio verdejante. Foto © Joaquim Félix]

[sai corajosamente / clara primeira manhã / − sábio verdejante. Foto © Joaquim Félix]

1. Três versículos. Três breves versos, segundo s. João (Jo 10,27-30).
Tão pouco! E, não obstante, para nós, são tanto, tanto!
São um desafio a ouvir coisas breves, as migalhas dos dias presentes,
como se fossem uma seta disparada ao alvo de ouvidos atentos,
a um coração de carne que quer fazer da boca, dos olhos e das mãos a sua fonte.
Ou, neste tempo de guerra, como na caricatura de Pawel Kuczynski,
pães autopropulsados a partir de lançadores de morteiros.
Sim, pães e também remédios lançados a pessoas como nós,
cercadas e escondidas em subterrâneos de cidades,
donde sobem colunas de fumo nas ruínas de suas casas, fábricas, hospitais, escolas…
Saboreemos, por isso, estas breves palavras,
esta boa notícia que s. João nos narrou da corajosa vida de Jesus.

2. Depois de curar um cego de nascença,
− até para mostrar que nem um pecado, herdado ou praticado, o castigara;
mas para que nele se manifestassem os ‘sinais’ de Deus (cf. Jo 9,3) −,
Jesus contou a conhecida parábola do ‘belo pastor’ (cf. Jo 10,1-19).
Todavia, as palavras dos três versículos são póstumas, ruminadas.
Elas aparecem após um cerco, no caso, por pessoas que decidem matar Jesus.
Estando no Templo, no dia da festa da sua dedicação,
os judeus rodeiam-no, como o frio do inverno, e perguntam-lhe diretamente:
«Até quando nos manterás em suspenso?
Se és o Cristo, diz-nos abertamente» (Jo 10,24).
Mais aberto e claro Jesus não o podia ter sido, como lhes diz.
Porém, mais fechados que as pedras do templo, não o creem.

3. Eis que, então, estabelecendo um contraponto, lhes diz
as palavras que, abrindo-se, ecoam neste incisivo tríptico evangélico.
Algo de semelhante ocorreu na rejeição das palavras que Paulo e Barnabé,
em Antioquia da Pisídia,
dirigiram a um sábado na sinagoga (cf. At 13.14.43-52).
Há um advérbio que define bem a sua ousadia
perante a surdez, a inveja e a resposta de blasfémia dos judeus:
«Corajosamente». É verdade, repitamo-lo, «corajosamente».
Paulo e Barnabé, como testemunhas do Evangelho de Jesus,
declaram que conheciam a prioridade da Palavra do Senhor,
mas, perante a rejeição dos primeiros destinatários,
elegeram quem improvavelmente os escutaria, os gentios.
O que era fonte de alegria, tanto para eles como para os discípulos.

4. Onde é que nós, hoje, depreendemos esta ‘coragem’ na evangelização?
Não faltam dificuldades no tempo atual, bem sabemos. E sempre haverá.
Parecemo-nos, e mais ainda o somos, um «pequenino rebanho»:
para uns, saudosistas, como se fôssemos um resto da «cristandade»;
para outros, uma malga de «fermento» para a próxima primavera da Igreja.
Mas quem é que, hoje, tem coragem de ousar uma mudança de ‘agulhas’,
como fizeram Paulo e Barnabé?
Quem poderá ousar outros destinatários? outras direções?
Onde se estará a ver isso, perante tanta rejeição, até dentro das igrejas?
No templo, na sinagoga e nas igrejas. Sim, dentro. Bem dentro.
E de que modo se romperá o cerco das blasfémias dos ‘influentes’
e as invejas de quem ataca os ‘corajosos’ e ‘corajosas’,
que relembram a ‘geografia dos confins’, na base do dito de Jesus:
«Fiz de ti a luz das nações, para levares a salvação até aos confins da terra» (At 13,47)?
Como promover este abraço largo da fé, na ampla ‘divulgação’?
E, de forma inesperada, mas desejada (e, por isso promovida),
aumentar a alegria e a ansiada ‘cheia’, a alagar-nos, do Espírito Santo?
Por estes dias, um teólogo disse-me isto:
«Há uma imagem, é apenas isso, que me ficou sempre gravada,
num dos filmes de Olmi, “Il Villaggio di Cartone”,
de uma porta entreaberta,
entre a penumbra e a luz da infância,
a possibilidade de habitar a ruína, ou de saída dela
sem a esquecermos em absoluto…
pois ela é a memória do que foi
e abertura daquilo que ainda não é…» (João Paulo Costa).

5. Com a palavra de Deus a desimpedir-nos de escamas,
Jesus nos curará a cegueira,
de nascença ou adquirida, dos ouvidos e dos olhos, dos sentidos apagados,
para passarmos a ver, não a desejada multidão da fossilizada ‘cristandade’,
mas, como João, no Livro do Apocalipse, uma «multidão imensa»,
formada por incomensuráveis riquezas do ‘diverso’ de todos os povos.
Cujo culto, diga-se, será praticado na tenda do mundo transfigurado,
na presença do Cordeiro apascentador que, com o seu sangue,
tinge de vida pascal, de brancura em transfiguração,
as nossas palavras, os gestos e as túnicas,
e nos conduz continuamente, sem prejuízo de sóis ou de ventos,
«às fontes de água viva» e ao enxugo de todas as lágrimas dos nossos olhos.
Não é isso que João diz, na sua visão apocalíptica, e o Salmo 23 recenseia?

6. Nunca desfoquemos a nossa audição desta palavra.
Durante a Semana de oração de Oração pelas vocações,
poderíamos ser tentados a perder do ouvido e da vista o horizonte fontal,
que nos rasga de alto a baixo os véus com que nos amedrontarmos
e nos fecham dentro de paradigmas e paisagens que já terminaram.
O Papa Francisco escreveu uma mensagem
para o 59º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a qual convido a ler,
mesmo a quem tenha dificuldade em descarregá-la da internet.
Caso isso aconteça, nesta solidariedade que ainda é possível,
até os avós podem pedir aos netos: «’Serginho’, ou então ‘Sarinha’,
imprime aquela mensagem daquele velhinho,
que, agora, de cadeira de rodas, anda com um joelho a receber infiltrações.»
E a Sara ou o Sérgio, que até podem desconhecê-lo, logo podem perguntar:
«Quem é esse velhinho, avó? De quem, avô?».
E vós direis: «É o Papa Francisco, que tanto tem lutado contra a guerra na Ucrânia,
e procura, através de iniciativas surpreendentes, corajosas mesmo,
colocar-nos a todos como ‘chamados a construir a família humana’ (da Mensagem)».

7. Escultor de estátuas ‘falantes’, como por exemplo a Pietà, David ou Moisés,
atribuem-se a Miguel Ângelo Buonarroti as seguintes palavras:
«No interior de cada bloco de pedra,
há uma estátua, cabendo ao escultor a tarefa de a descobrir».
Nessa sequência, dizia ele que só tinha de «tirar o que estava a mais».
Uma forma eloquente deste libertar os ‘prisioneiros’ das pedras,
é oferecida a caminho da escultura de David, na Accademia, em Florença.
Quem preferir, porém, pode ver o filme “O Pecado – O furor de Michelangelo”,
escrito e realizado por Andrei Konchalovsky;
e ainda, de forma breve, “Moisés”,
uma curta-metragem realizada por Michelangelo Antonioni.
Nesta mesma linha do olhar afinado pelo que vai além do visível,
um provérbio do Extremo Oriente diz:
«Um sábio, ao olhar um ovo, sabe ver a águia;
ao olhar a semente, vislumbra uma grande árvore;
ao olhar um pecador, sabe entrever um santo».
Estes exemplos, citados na Mensagem do Papa Francisco,
despertam-nos para aquilo que ele persuade com estas palavras de síntese:
«Esta é a dinâmica de cada vocação:
somos alcançados pelo olhar de Deus, que nos chama».
Respondamos, atentamente e com generosidade,
a este diálogo de olhares com Deus,
que nos fará não só ver coisas novas,
mas promoverá em nós a novidade de vida,
na semelhança da ressurreição de Jesus,
sendo mais protagonistas na missão, com coragem,
no cuidado de uns para com os outros e a criação,
até à construção de um mundo mais fraterno, que promove a paz.

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia.


Nota:
Este texto tem como referência o texto do Evangelho de João (Jo 10, 27-30), proclamado na liturgia católica de domingo, 8 de maio, Domingo IV do Tempo Pascal — 59º Dia Mundial de Oração pelas Vocações 2022 e corresponde a uma versão corrigida da homilia desse dia.

 

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