Coronavírus? E os gafanhotos, pá?

| 12 Mar 20

Anda tudo concentrado nesta pandemia do coronavírus que pouca atenção se presta à praga de gafanhotos que começou na África Oriental e se propagou à China, ameaçando com uma crise alimentar sem precedentes.

Imagem da nuvem de gafanhotos do deserto que, desde Janeiro de 2020, tem atingido a África Oriental, devastando plantações e ameaçando milhões de pessoas de morrer à fome. Foto reproduzida da página da FAO na rede social Twitter (https://twitter.com/faolocust)

 

A região do Corno de África está a ser devastada por uma praga de gafanhotos fazendo com que mais de dez milhões de pessoas passem fome. A agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) já classificou esta como a pior crise dos últimos 25 anos, e por isso solicitou um financiamento urgente na ordem dos 76 milhões de dólares a fim de exterminar os insectos, visto que se reproduzem de forma alucinante em ambientes húmidos e quentes [ver notícia no 7MARGENS].

As explicações científicas que existem para esta praga terão nas alterações climáticas a sua origem. Segundo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres: “O aumento da temperatura dos oceanos favorece a criação de furacões, que atraíram os insectos a África desde o Médio Oriente”. A região enfrentou chuvas intensas em Dezembro passado, o que atraiu as nuvens de gafanhotos, que já antes tinham provocado estragos consideráveis no Paquistão (que declarou emergência nacional), Iémen e Omã, antes de chegarem a África através do Mar Vermelho.

O vice-diretor do gabinete de emergências da FAO, Daniele Donati, explica: “Essencialmente, os gafanhotos precisam de areia húmida para deitarem os ovos e estas condições foram criadas por três ciclos consecutivos na Península Arábica, o que é algo excepcional. Estará relacionado com as mudanças climáticas? Não posso dizer ao certo. As condições meteorológicas fazem parte das variáveis”.

O efeito visual tem ressonâncias bíblicas. De repente o céu fica escuro repleto de nuvens imensas de gafanhotos esfomeados. Uma nuvem de apenas um quilómetro quadrado de extensão pode albergar 40 a 80 milhões de insectos, que necessitam de uma quantidade de alimento correspondente às necessidades de alimentação de 35 mil pessoas por dia.

A maior nuvem registada até agora pode comparar-se em extensão a um país inteiro – o Luxemburgo – que tem 2400 quilómetros quadrados. Foi vista no Quénia, e os seus cerca de 200 mil milhões de insectos podem deixar sem alimento 84 milhões de pessoas, mais do que a população inteira da Alemanha.

Estas nuvens compostas por milhões de gafanhotos, que podem ter até oito centímetros, conseguem percorrer até 150 quilómetros por dia e estão a afectar vastas regiões do continente africano que incluem países como Quénia, Somália, Etiópia, Djibouti, Sudão, Sudão do Sul, Uganda e Tanzânia, ameaçando toda a África.

O combate à praga começou na Somália, país que declarou emergência nacional, tendo alertado as regiões vizinhas. Estas tempestades de gafanhotos, que são considerados os insectos mais vorazes do planeta, dificilmente se combatem eficazmente a não ser com pesticidas. Avionetas e helicópteros estão a pulverizar o território com pesticida, mas este recurso torna-se impraticável onde não chegam redes de telemóvel e as equipas de terra não conseguem comunicar as coordenadas ao pessoal de voo, como em várias regiões do Quénia, onde já não se via uma praga como esta há 70 anos. O que resta aos camponeses africanos pobres fazer é apenas baterem panelas para tentar afugentar os insectos para longe com o ruído agudo.

Segundo o Daily Star, a devastação seria uma das maiores já provocadas por biliões de gafanhotos nas últimas décadas, em África, pois atacam todo o tipo de plantações, não deixando nada pelo caminho. Além do mais trata-se duma corrida contra o tempo, pois as chuvas previstas para este mês de Março terão como consequência o crescimento da vegetação, o que, segundo especialistas, poderá potenciar a praga aumentando-a 500 vezes até Junho, quando se prevê que chegue o tempo mais seco, que ajudará a controlar o fenómeno; caso contrário, os gafanhotos podem permanecer nas áreas afectadas durante vários anos. A China puxou pela criatividade e preparou um exército de 100 mil patos para atacar a praga na província de Xinjiang. Cada pato pode comer 400 gafanhotos por dia.

Enquanto as televisões nos massacram todos os dias e a todas as horas com o coronavírus, está a suceder noutras paragens um fenómeno que pode vir a ter consequências devastadoras para a agricultura e as reservas alimentares no mundo, provocando a morte a muitíssimo mais pessoas à fome do que por doença provocada por qualquer vírus.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

Artigos relacionados

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habitou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega novidade

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Vaticano transformado em colónia de férias no mês de julho

A pensar nos funcionários da Santa Sé que têm filhos pequenos, o Papa Francisco decidiu abrir aos portas do Vaticano para receber as crianças durante o mês de julho. A organização da colónia de férias ficou a cargo do Governatorato e será animada pela comunidade de Salesianos do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha novidade

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Violência contra as Mulheres: origens novidade

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Credo novidade

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja

Em abril de 2013, nas Jornadas de Teologia da Caridade, subordinadas ao Tema “A força evangelizadora da caridade”, promovidas pela Cáritas Espanhola, em Salamanca, conheci, ao tempo, o arcebispo de Tânger, Santiago Agrelo Martínez. Fiquei fascinado pela profundidade do seu pensamento, pela simplicidade no trato e pela suas coragem e clarividência pastorais.

Cultura e artes

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco