Coronavírus: Trabalho dos voluntários junto dos sem-abrigo “tem sido absolutamente fantástico”

| 20 Mar 20

Um homem sem-abrigo em Lisboa, num dos corredores de acesso ao metropolitano. Foto © Ozias Filho

 

As principais instituições de ajuda aos sem-abrigo estão a conseguir manter-se em funcionamento graças ao empenho e esforço de inúmeros voluntários para continuar a desempenhar diariamente as suas funções e de alguns novos que, perante a pandemia de covid-19, têm oferecido também a sua ajuda. Henrique Joaquim, gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo, considera que o trabalho desenvolvido por estes voluntários “tem sido absolutamente fantástico” e assinala também “a enorme capacidade de cooperação que tem existido entre as diversas instituições”.

“Todo este esforço é de louvar e agradecer, porque agora, mais do que nunca, não podemos deixar ninguém para trás”, afirma aquele responsável, em declarações ao 7MARGENS.

Henrique Joaquim, que foi durante oito anos responsável por uma dessas instituições, a Comunidade Vida e Paz, garante que “é possível e necessário continuar a manter os contactos com os sem-abrigo e prestar-lhes apoio”. E explica que, neste momento, “as autarquias estão também a servir de base para que a coordenação seja possível”. Não nega, no entanto, que “houve diversos voluntários e profissionais que já tiveram de se retirar, por pertencerem a grupos de risco ou por terem filhos pequenos a seu cargo”.

A estratégia tem passado por fazer “pontos de situação diários com as autarquias e instituições” e garantir que “são criados canais de comunicação para que os sem-abrigo possam pedir ajuda rapidamente, caso necessitem”. Em cidades como Lisboa e Porto, “já foram dadas respostas mais robustas para aumentar os espaços de acolhimento, mas há vários outros municípios, como Almada, que estão também mobilizados para encontrar respostas”.

 

“Não podemos desistir”

A atual diretora da Comunidade Vida e Paz (CVP), Renata Alves, confirma que até agora têm conseguido manter o apoio prestado aos sem-abrigo, salientando também ela “a enorme colaboração e dedicação por parte dos voluntários”. Muitos deles, sublinha, “têm-se disponibilizado para fazer mais do que o seu trabalho habitual e têm sido incansáveis no apoio prestado diariamente”.

Da parte dos sem-abrigo – a quem têm entregue todos os dias refeições e folhetos informativos sobre o novo coronavírus – as equipas da CVP têm sentido “um enorme receio de serem abandonados”, conta Renata Alves. “As pessoas sem-abrigo estão bastante informadas do que se passa e têm sido muito cumpridoras das medidas de higiene e segurança. Têm medo do que possa acontecer e estão-nos muito agradecidas pelo facto de continuarmos a ir ao encontro deles.”

Pertences de uma pessoa sem-abrigo, em Lisboa. Foto © Ozias Filho

 

A responsável pela Comunidade Vida e Paz não sabe até quando conseguirão assegurar todos os apoios que a instituição presta diariamente, mas afirma que “independentemente do que venha a acontecer ou seja decretado, é necessário garantir a ajuda às pessoas que estão mais desprotegidas”. E acrescenta: “Ninguém estava preparado para esta pandemia, mas não podemos desistir”.

 

Necessárias ainda mais iniciativas

No Porto, o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, padre Agostinho Jardim Moreira, também assegura que até agora tem sido dada resposta às necessidades dos sem-abrigo, “pelo menos no centro da cidade”, mas manifesta grande preocupação com a evolução da situação. “Houve várias paróquias vizinhas que tiveram de fechar os seus centros de atendimento”, explica o também pároco de Vitória e São Nicolau, no centro do Porto.

“Nós temos aqui 40 sem-abrigo e conseguimos receber mais três. Sei que alguns albergues do Porto também estão a abrir as suas portas e a Santa Casa da Misericórdia vai disponibilizar dez camas”, informa. Mas, ao mesmo tempo, “há refeitórios a fechar e muitos profissionais e voluntários a terem de ir para casa para tomar conta dos seus filhos”, afirma.

O padre Jardim Moreira diz não ter ainda “qualquer indicação de que haja sem-abrigo infetados” e avança uma possível explicação para este facto: “Como acabam por viver mais isolados, isso pode estar a protegê-los um pouco nesta fase.” Mas defende que serão necessárias, em breve, ainda mais iniciativas para apoiar os mais desprotegidos. E deixa o aviso: “De um modo geral, há um descartar de responsabilidades do que acontece aos sem-abrigo, mas agora não nos podemos descartar.”

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