Intróito breve
Tive o prazer de conhecer um novo escritor moçambicano que nos brindou com dois livros disruptivos. Ele obriga-nos a nos deslocarmos das nossas órbitas, dos nossos umbigos. É sobre esses livros que quero falar nesta crónica e na próxima. Começo por Corropita: Um Círculo Suicida, obra de poesia.
O livro está dividido em duas partes, a primeira intitulada “corropita numa espiral sem volta” e a segunda, “mussumbuji – a dor duma eterna paixão”. Está permeado por fotografias, não assinadas, mas referidas na ficha técnica como “vectorização da obra “patrão, 2023”.
Trata-se de um livro de 110 páginas, escrito em minúsculas, exceptuando-se o nome do autor, na capa do livro e numa das folhas de rosto. Essas minúsculas existem, mesmo nos lugares nos quais os sinais de pontuação, por regra, exigem uma maiúscula. É um estilo que Sitole utilizou e que foi respeitado ao longo de toda esta obra, na qual a dor é exorcizada pela dança.
Corropita: Um Círculo Suicida deixou-me assombrada. É um livro com muitas imagens e causa estranhamento. Isso é poesia. A poesia deve suscitar novas imagens ou fazer-nos ver imagens conhecidas de forma diferente, di-lo Viktor Shklovsky, crítico literário.
A primeira imagem é-nos dada pelo título. Corropita faz referência a um jogo, uma brincadeira de crianças que envolve lógica, habilidades, sentido ético e liderança. Esta última habilidade serve para conhecer o adversário e dominar o jogo eticamente. Os jogadores com menos habilidades tendem a perder. Não se trata de um jogo de sorte.
O seu tabuleiro pode ser um chão cimentado ou de areia. Se se jogar no cimento, desenha-se um círculo; jogado na areia, há que abrir um buraco, em forma de circunferência. Em ambos os círculos são metidas várias pedrinhas. O objectivo do jogo é tirar, com a mão, várias pedrinhas do círculo e devolvê-las. Deixa-se, de fora, uma pedrinha, caso se trate da fase do jogo, na designada “casa um”. Ou duas pedrinhas, se se tratar da “casa dois”, assim sucessivamente, “casa três, “casa quatro”. A evolução das “casas” ou etapas do jogo, depende da destreza, da lógica imprimida pelo jogador. É um jogo no qual podem participar mais do que duas pessoas que jogam à vez. Ganha quem mais pedras retirar do círculo e o jogo termina quando já não houver mais pedras dentro desse círculo.

Essa imagem é captada por Sitole para o livro. Tratando-se de ficção, ele representa-a através de pessoas, num espaço que pode ser qualquer país. Criativamente, chamou-lhe círculo suicida, porque a lógica do jogo, no seu livro, é de um líder que não sabe salvar as pedras que existem no círculo ou que as deixa asfixiarem-se. Esse líder não tem as habilidades necessárias para dominar o jogo e aí, a Humanidade fica à sua mercê. O líder, no livro, não é necessariamente uma pessoa. É a representação de um contexto, que pode ser qualquer lugar no mundo, no qual, no círculo corropita há muita bajulação – veja-se o poema xv (41 – os números indicam a página do livro).
Ao dizer que “somos o esterco do mundo”, quero falar sobre o contraste na existência humana, representado por Sitole no “poema i” da primeira parte do livro, no qual a fome de uns é contraposta à fartura de outros, onde se diz: […] “dentes serrados; olhos esbugalhados, prontos a trincar a primeira fatia mal torrada […] a xingombela é dançada entre confrades, em círculos herméticos à saga alheia: um a um. uma dança que faz, lentamente, em banquetes numa caminhada de oito ou oitenta” (21).
A grande imagem aqui representada é a fome versus a fartura. Entretanto, se a expressão a xingombela xikiniwa hi wu xaka (xingombela é dançada entre confrades, tradução do autor do livro) faz referência a algum lugar, esse lugar pode ser Moçambique, lugar no qual há [aqueles que] “comem tudo e não deixam nada”, se quisermos trazer Zeca Afonso a este banquete literário, na sua música Os Vampiros, ou Jereminas Ngwenya, com a música Vada Vhoxe, que também recordam a existência de um “círculo corropita”, no qual só jogam os “escolhidos”.
O livro é todo atravessado também pela imagem da dança, esta que ora caracteriza um círculo desastrado ou desastroso, como no poema acabado de apresentar ou a dança sugerida no tam-tam da morte aludida no poema xvi (45), no qual o xigubo, a marrabenta, o tufo e o semba “sepultam almas inocentes em troca das cadeiras giratórias; ao saltitar da ngalanga e timbila e o voltear às cambalhotas do mapiko misterioso”; ou mesmo, quando no poema viii (87) está representado alguém que dança “de calças rotas”, dançando makharra por cima das areias azuis de moma.
O título do livro corrobora ainda a ideia de “sermos o esterco”, porque a corropita é a base primitiva da mathakuzana, jogo que utiliza a mesma lógica do corropita e que, entretanto, recorre a uma pedra maior do que as outras que devem estar no círculo. Essa pedra, que se designa xigungo, é lancada ao ar, ao mesmo tempo que a mão retira as pedrinhas de dentro para fora do círculo e vice-versa. Para a mathakuzana requer-se uma destreza maior, para gerir o círculo, as pedrinhas e o xigungo. Este não deve ser deixado cair; se isso acontecer, o jogo está perdido.

Jogos tradicionais de Moçambique: mathakuzana. Foto: página do Facebook “Moçambique as 4 Rodas”
Significa, extrapolando significados, que o contexto narrado nem sequer está ao nível da mathakuzana. Trata-se de uma sociedade ainda no seu estágio primário de desenvolvimento humano, o da “corropita suicida”. Ali nem se pode falar em qualidade de vida. E isso contraria a verdadeira corropita, porque nesse jogo, supostamente, deve-se ganhar e salvar as pedrinhas que estejam no círculo, porque, enquanto se joga, há uma música de estímulo que diz: “corropita, unga hoxi, corropita, xingombela”.
Esta obra é composta por poemas em prosa, numa escrita disruptiva, feita ao sabor de uma narrativa que, muitas das vezes, induz à reflexão.
Do ponto de vista do sentido, neste livro, a disrupção centra-se no conteúdo do que é dito pelo texto. Aparecem palavras soltas, sentidos vagos, induzindo ao vazio. E é no vazio que se centra toda a poderosa reflexão sobre a condição e a existência humana. E o vazio é uma temática abordada em Teoria Literária, frise-se. Mais ainda, a disrupção, nesta obra, é marcada por aquilo que “temos medo de ouvir”, tal como refere Cremildo Bahule, prefaciador do livro. Na verdade, Sitole diz aquilo que muitos sabem, mas têm medo de dizer ou mesmo de ouvir, que somos o “esterco do mundo”. Estou a dizer algo ofensivo? Uma blasfémia? Apenas parece, porque depois de tanto progresso civilizacional, o mundo ainda não é o melhor lugar para se viver. Jean-Paul Sartre, no seu romance intitulado A Náusea, sugere-nos isso. Deveríamos ser livres e não somos. Ainda vivemos reféns de um “círculo corropita suicida”, no mundo todo, diga-se.
Sobre a obra
A partir de Sartre e, para ler a obra de Sitole, fiz os seguintes agrupamentos: a desesperança, o absurdo, o vazio, o impulso para a liberdade e a criação do novo. Estes agrupamentos são feitos em função do sentido da interpretação que dou aos poemas. E exemplifico a seguir.
Todo o livro é marcado pela desesperança: dor, guerra, vandalização humana (física e psicológica), ódio e falta de amor, entre outros males que remetem ao suicídio. Não há tabus na obra de Sitole. A dor é descrita tal qual ela é, bruta. Mesmo nos casos em que o autor utiliza sentidos figurados, o livro dói na mesma, ou seja, remete à dor. Deixa-nos desesperados quanto ao futuro da humanidade.
Vários poemas são atravessados pela referência ao absurdo, este que é reflexo das inquietações levantadas pelo autor do texto, no que à existência humana diz respeito. É absurdo que vivamos com “corações desdentados” (25); que vivamos num contexto no qual o “ânus do futuro é escoltado pelos gritos agoirentos, que esvoaçam no além das políticas” (31); que sejamos submetidos “[a]o sexo cerebral feito à força” (32); num permanente contexto de vivência num “cemitério de obsessões” (33); ou de “incestos mentais” (39) a cogitarmos o “nada do amanhã” (76). Contrariamente ao que supostamente deveria ser, haver evolução da humanidade, Sitole revela-nos o absurdo de estarmos longe disso.
Quanto ao vazio, lembra-nos Sitole no seu poema ii, dessa primeira parte do livro, que somos apenas “pretos invisíveis”, “secadores do ânus suicida”, “somos enigmas e incógnitas de nós mesmos”, em busca da nossa identidade (22).
O vazio é uma estética literária niilista, para demonstrar a ausência de humanidade, no caso do livro. Os poemas ii, iii, iv, v e quase todos os restantes vão, também, nesse sentido da dor imensa e da anulação do sujeito humano. O poema xv, da segunda parte do livro (100), é a treva; é a representação de que a humanidade abdicou da sua essência. Uma mulher é violada por muitos homens. É preciso ter muita coragem para ler esse poema e outros desta obra que nos revela sermos “indignos da nossa existência”, afirma o autor (104).

Virgílio Sitole. Foto retirada do vídeo “Pontes Movediças em Palma”: Artes plásticas e fotográficas de Virgílio Sitole
“Há lamentos e gritos de crianças órfãs sem o amanhã, sem nada”, recorda-nos o poema xi da segunda parte do livro (93). Há “sobreviventes do estupro emocional”, poema xv, dessa parte (100). A expressão “morte anunciada” é muitas vezes repetida, no livro, o que prenuncia a necessidade de criação de um impulso para a liberdade. E essa tentativa de lá chegar ou os laivos de esperança, porque há poucos no livro, são sugeridos pelo poema vi (82), quando se diz: “emergem as forças e energia para puxar os pedais da burra solteira, que me leva até as palmas desta minha terra”… ou do poema xi (93), no qual se diz “a fé ilumina o futuro de amanhã e destapa o presente envenenado”; ou mesmo o poema xx (49), no qual se faz referência a hossanas, aleluias e à firmeza, à resistência e à busca da ressurreição, por exemplo. Mas esse bafejo de sorte é coisa rara, nesta obra, na qual tudo é satânico.
Mas há uma súplica em busca da criação do novo. A dor descrita na obra é toda embasada pela dança, pela exaltação da arte, através das epígrafes que dizem […] “tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música! […] Tirem-nos tudo… mas não nos tirem a vida, não nos levem a música!” [e a dança!]. Estes versos são uma citação do poema Súplica de Noémia de Sousa, aos quais Sitole, à música, acrescenta a dança. E poderá ser por isso que Bahule o chama de “bailarino das palavras”.
Esta última modalidade artística atravessa o livro todo em vários poemas. Na verdade, ao lermos os poemas do livro, sugere-nos a imagem de alguém que vai falando, estando a galope. Alguém que, a despeito da dor, dança xingombela, makharra (87), kwasa-kwasa (105), etc.
Essa dor e essa dança são levados até às Esguelhas da alma, livro de que falarei na minha próxima crónica.
Sara Jona Laisse é membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Saralaisse@yahoo.com.br










