
Escola Portuguesa em Timor-Leste: a corrupção é uma herança do colonialismo, como defendem alguns, ou um problema cultural, como propõem outros? Foto: Universe Awareness/Wikimedia Commons
A corrupção é um problema crónico e entranhado na cultura de Timor-Leste e a Igreja Católica pode ter um papel relevante em combatê-lo, se assumir a sua influência na sociedade local e souber passar a ideia de que, como disse um dia o Papa Francisco, “a corrupção é pior do que o pecado”. É esta a mensagem central de um artigo denso de Justin Wejak, docente na Universidade de Melbourne, Austrália, publicado no La Croix International.
Em 2019, de acordo com o índice de corrupção da Transparência Internacional, Timor-Leste recebeu uma pontuação de 38 numa escala de 100. Desde que se tornou uma nação independente, há cerca de duas décadas, procura erradicar a corrupção, de que é exemplo a criação, em 2010, da Comissão Anticorrupção (CAC), “parte integrante da tarefa legislativa”. No entanto, observa o artigo citado, “muitos já começaram a duvidar se a CAC algum dia conseguirá concretizar a sua visão de criar um futuro sem corrupção”.
La Croix International cita o investigador timorense e ex-presidente da CAC, Adérito de Jesus Soares, num seu artigo de 2013 intitulado “Corrupção: Evitando ‘Ritualismo Institucional’”, segundo o qual muitos em Timor-Leste estão convencidos de que a corrupção é um produto histórico da colonização e, portanto, “uma importação ou legado estrangeiro”, com Portugal e, particularmente, a Indonésia a serem investidos como principais culpados.
“Este bode expiatório, faz notar o autor, pode, em parte, ser visto como uma forma de evitar a responsabilidade no combate à corrupção. Observa-se que, durante a ocupação da Indonésia, a corrupção era galopante em todos os níveis da sociedade. Infelizmente, continua a ocorrer após a independência” e “muitos dos que estiveram envolvidos na luta pela independência (…) continuaram com os hábitos corruptos do passado colonial.”
“Uma forte tradição de dar presentes”
Justin Wejak, que fez formação em teologia, filosofia e antropologia, entende que existe localmente “uma forte tradição de dar presentes, aceites como uma expressão de gratidão” às pessoas com algum tipo de poder, para se obter a resolução de algum problema. Cita a propósito, Jonas Guterres, um timorense que desempenhou funções como consultor do CAC, para explicar que não existe uma palavra local em tetum para “obrigado”. As pessoas usam comummente a palavra portuguesa, mas no sentido de “uma ação que deve ser executada”, uma gratidão que deve ser traduzida em dádivas e presentes, que são objetivamente pequenas ou grandes formas de corrupção. Como diziam os romanos, “do ut des” (dou para que tu me dês).
Seria assim esta corrupção instalada e entranhada como hábito quotidiano, como ‘cultura, misturada com redes de solidariedade familiar, que tornariam o problema mais desafiante e difícil de combater, sobretudo quando este combate é concebido sobretudo como problema de leis e tribunais. E é aqui que Wejak vê o repto e mesmo a responsabilidade de uma instituição como a Igreja Católica que é a referência religiosa para mais de 90 por cento da população timorense.
“A Igreja – refere o autor – deve usar o seu poder institucional para tecer uma narrativa que evidencie que a corrupção é má; que é ‘pior do que o pecado’, como nas palavras do Papa Francisco”. Ela “sabe que institucionalmente pode usar o seu poder para promover a honestidade e a integridade entre os católicos, especialmente aqueles que trabalham no setor público… Afinal, o catolicismo é, no fundo, uma religião de valores, e não apenas uma religião de ritual”, acrescenta.









