Passou um ano desde que o Governo Trump desmantelou a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), com cortes na ajuda externa que levaram ao fim de inúmeros programas de combate à desnutrição e doenças evitáveis em todo o mundo. Agora, um estudo publicado na revista médica The Lancet conclui que estes cortes podem conduzir a pelo menos 9,4 milhões de mortes até 2030, sendo que cerca de 2,5 milhões dessas mortes serão de crianças menores de cinco anos.
A redução da ajuda externa dos EUA foi seguida por cortes do Reino Unido, Alemanha, Canadá e outras nações desenvolvidas, que entrarão em vigor este ano e no próximo, o que exacerbará o impacto, assinala uma reportagem da CNN, replicada esta quinta-feira, 19, pela Unisinos.
O estudo, realizado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) com financiamento do governo espanhol e da Fundação Rockefeller, chegou a este resultado considerando que os cortes na ajuda externa continuarão em linha com as médias recentes e comparou esses números com as mortes que teriam ocorrido se a ajuda tivesse permanecido nos níveis de 2023.
Os investigadores avaliaram também o que poderia acontecer se os cortes no financiamento se agravassem ainda mais até ao final da década, projetando que o número de mortes adicionais chegaria, nesse caso, a 22,6 milhões.
“As nossas análises mostram que a ajuda ao desenvolvimento é uma das intervenções de saúde global mais eficazes disponíveis. Nas últimas duas décadas, ela salvou um número extraordinário de vidas e fortaleceu Estados de bem-estar social e sistemas de saúde frágeis”, afirma o coordenador do estudo, Davide Rasella, professor do ISGlobal e do Instituto Brasileiro de Saúde Coletiva.
“Retirar esse apoio agora não apenas reverteria conquistas arduamente alcançadas, mas resultaria diretamente em milhões de mortes evitáveis de adultos e crianças nos próximos anos”, sublinha Rasella.
O estudo assinala algumas das conquistas atribuídas à ajuda externa nas últimas duas décadas. Entre 2002 e 2021, esta contribuiu para uma redução de 39% na mortalidade infantil entre crianças menores de cinco anos. E contribuiu igualmente para um declínio expressivo na mortalidade por diversas doenças transmissíveis importantes, incluindo uma queda de 70% nos casos de HIV e de 56% nos casos de malária, enquanto as mortes por desnutrição caíram 56%.
Questionado sobre este estudo, um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA referiu-se à The Lancet como uma “revista fracassada” e afirmou: “Alguns ‘estudos’ recentes baseiam-se em ideias ultrapassadas e insistem que o antigo e ineficaz sistema global de desenvolvimento é a única solução para o sofrimento humano. Isso simplesmente não é verdade”.
“Em vez de ajudar os países beneficiários a ajudar-se, o antigo sistema criou uma cultura global de dependência, agravada por significativa ineficiência e desperdício. Isso levou doadores para o desenvolvimento em todo o mundo, não apenas nos Estados Unidos, a reconsiderarem a sua abordagem à ajuda externa”, acrescentou o alto funcionário. Em julho passado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, definiu esta nova abordagem como um modo de “priorizar o comércio em vez da ajuda, as oportunidades em vez da dependência e o investimento em vez da assistência”.
“O que podemos afirmar com certeza é que esses cortes já estão a matar pessoas”
Mas especialistas em ajuda humanitária e desenvolvimento disseram à CNN que o impacto dos cortes na ajuda já está a ser sentido, embora ainda não seja claro como é que os cortes se desenrolarão exatamente, nem como é que os países beneficiários irão reagir.
“O que podemos afirmar com certeza é que esses cortes já estão a matar pessoas. A magnitude disso ainda é difícil de quantificar, em parte porque os próprios cortes na ajuda humanitária tornaram essa tarefa mais difícil”, alertou Jeremy Konyndyk, presidente da Refugees International. Por exemplo, clínicas de saúde que costumavam recolher dados de mortalidade em muitas comunidades fecharam. “Nenhum dado está a ser registado. Estamos às cegas. Mas vemos evidências de que pessoas já estão a morrer. Vemos evidências de que os sistemas que sabemos que estão a salvar vidas estão a entrar em colapso”, disse Konyndyk à CNN. “Se as tendências atuais continuarem, a situação piorará consideravelmente nos próximos anos”.
Lee Crawfurd, investigador sénior do Centro para o Desenvolvimento Global, que não participou no estudo publicado na The Lancet, disse à CNN que os modelos que projetam o número de mortes podem variar e que “devemos considerar os números exatos com cautela”. Mas assumiu: “Acredito que a conclusão geral esteja correta: haverá um grande número de mortes”.
De resto, um análise do próprio Centro para o Desenvolvimento Global sobre os cortes na USAID, citada pela CNN, revelou que a atual redução de gastos poderia ter resultado em entre 500 mil e 1 milhão de mortes a menos em 2025 em comparação com anos anteriores. A análise projeta que futuros cortes de gastos resultarão em entre 670 mil e 1,6 milhões de mortes por ano.
“Os cortes do ano passado foram significativos”, disse Crawfurd à CNN. “Muitos dos cortes anunciados por países europeus ainda não foram implementados, mas estão planeados para este ano e para o próximo, e então haverá mais más notícias”. O investigador ressalvou no entanto que o estudo da The Lancet não levou em consideração iniciativas filantrópicas ou as respostas dos governos de países em desenvolvimento, que “ajudaram a mitigar alguns dos piores danos”.
Konyndyk lembrou por seu lado que os dados de mortalidade não refletirão muitos dos efeitos adversos dos cortes na ajuda, já que os trabalhadores humanitários e os beneficiários estão a realocar fundos, nomeadamente retirando dinheiro da educação para a alimentação. E acrescentou que a Refugees International testemunhou que pessoas vulneráveis estão a adotar estratégias de sobrevivência de curto prazo que terão efeitos adversos a longo prazo, como vender os seus pertences, contrair dívidas insustentáveis e tirar os filhos da escola.
“O custo correspondente é que menos pessoas encontrarão empregos, as pessoas tornar-se-ão mais dependentes da ajuda no futuro e a pobreza aumentará”, concluiu. “A ideia do governo de que se pode cortar drasticamente o financiamento da ajuda global e depois encontrar eficiências para compensar totalmente isso é uma ilusão”.










